O CAMINHO INICIATICO NA CONSTRUÇÃO DA ESTRELA FLAMÍGERA

by Immanuel

Ora et Labora in Silentium

Estrelas possuem um significado profundo. Desde os primórdios da civilização a humanidade mira os céus e seus astros. É a partir da contemplação intuitiva e de uma reflexão constante acerca de seu significado, que um vasto compêndio de concepções metafísicas e religiosas foi construído em praticamente todas as civilizações. Dos céus estelares derivam as divindades e a representação do paraíso celeste. Nas diversas concepções religiosas, aos céus ascende a essência imortal de todos os seres, pois para elevar-se no firmamento pressupõe-se a presença do vazio, da plena liberdade dos grilhões da matéria.

Estrelas são identificadas pela sua qualidade de lançar luz sobre as trevas. Presentes no firmamento elas representam a esperança do caminhante noturno, que segue adiante e com persistência o rumo do oriente e da aurora nascente. Nesse sentido, o obreiro Maçom segue a senda do aprendizado sob a abobada estrelada do Templo Maçônico. São também identificadas simbolicamente com o espírito, que se projeta na escuridão do inconsciente daquele que deverá despertar.

Todos os seres, sencientes ou não, possuem corpos mais sutis, que coexistem com o mais denso corpo físico, sendo que nosso próprio planeta Terra também assim se configura. Dentro dessa realidade, podemos afirmar que os demais entes celestes também emanam energia sutil, no âmbito de cada um dos sete planos de existência conhecidos (ou concebidos), sendo que tais vibrações acabam por influir em um outro grau, na própria percepção humana.

Desta feita, a representação do céu no Templo Maçônico, acaba por indicar, simbolicamente, a vibração das energias sutis que emanam do firmamento e auxiliam a senda de aprendizado do Maçom.

A senda Maçônica nos ensina que o Aprendiz ainda se encontra sob muita fraca luz, em plena noite de reflexões, sendo guiado apenas pelos céus estrelados, os Mestres do firmamento. Quando a aurora se aproxima, o avanço da escuridão dá lugar ao arauto do amanhecer. Já com a proximidade da alvorada, ao mirar o Oriente o Aprendiz que persistiu em caminhar na noite escura, galga um degrau a mais e torna-se Companheiro Maçom. Este agora deverá polir a recém lapidada pedra bruta, e reúne agora virtudes tenazes e suficientes para merecer lançar seu olhar em direção a estrela da manhã, que surge radiante e imponente no horizonte oriental, prenunciando a alvorada, que por sua vez dará lugar a poderosa luz solar vindoura. A pequena estrela da manhã se transmutara oportunamente no grandioso disco solar. A estrela guiara o agora Companheiro Maçom, tomando-o discípulo, ensinando-o acerca de seus deveres para com a humanidade acerca do valor do trabalho e do cultivo da Moral, das Virtudes e das Ciências

Esta estrela da manhã, que no esquema conceitual e referencial Maçônico, é denominada Estrela Flamígera, ou estrela de cinco pontas, ou ainda pentagrama, se constitui em um poderoso símbolo para aquele que adentra o umbral do templo e alça o seu segundo degrau. Tal símbolo procede das esferas de pensamento ideais e se manifesta em muitas tradições, dentre as quais, por exemplo, o pentagrama pitagórico, que expressa o símbolo central da Luz, do cerne místico, de onde o universo se expande. Ela vem representar o próprio homem que se regenera, em meio as trevas do mundo profano, e que faz uso do compasso e do esquadro em sua construção interna. No quadro do grau de do Companheiro Maçom, a Estrela Flamígera tem a letra G em seu centro, identificado com a letra hebraica iod, que representa o princípio divino no coração do iniciado.

O pentagrama possui ampla simbologia, mas sempre remete ao número cinco. Representa a união de dois opostos, o número dois (princípio feminino) e o três (princípio masculino), que em harmonia produzem o andrógino celeste, um microcosmo completo. Eliphas Levi cita o pentagrama como uma das chaves para as altas ciências ocultas, e Paracelso também o considerava um signo poderoso, tratando como representação do casamento espiritual entre o céu e a terra, transmitindo a perfeição. A baixa magia medieval também utilizava o poder implícito em signos pentagramáticos para os mais variados tipos de sortilégios. Citando, com reservas Ragon, Boucher escreve:

… ela era (a estrela flamígera), entre os egípcios, a imagem do filho de Isis e do Sol, autor das estações e emblema do movimento; desse Hórus, símbolo dessa matéria primeira, fonte inesgotável de vida, dessa fagulha do fogo sagrado, semente universal de todos os seres. Ela é, para os Maçons, o emblema do Gênio que eleva a alma a grandes coisas. O autor lembra que o Pentagrama era o símbolo favorito dos pitagóricos… Eles traçavam esse símbolo sobre suas cartas como forma de saudação, o que equivalia à palavra latina vale – passe bem. O pentagrama era ainda chamado de higia (de Higia ou Higéia, deusa da saúde) e as letras que compunham essa palavra eram colocadas em cada uma de suas pontas.

Aquele que agora alça mira pelos horizontes do saber tenta erguer sua ainda embaçada visão para o mais além, buscando respostas para perguntas inquietantes e aparentemente inatingíveis. Alguns desistem de olhar para o alto e acabam sendo tomados pela impaciência deixando-se cair no esquecimento e abandonando as técnicas de polimento da pedra bruta. Outros aprendem a trilhar a senda com paciência, deixando de lado o ego. É nesse momento, quando parece que a noite mais avança e a esperada aurora do conhecimento parece não chegar, que cabe mirar para o alto e procurar inspiração na luz estelar.

Sossegado o ego turbulento, abandonando-se ao vazio do mundo das formas, o Maçom que vislumbra os degraus a serem galgados na escada de Jacó poderá encontrar a estrela referencial. Esta escada tripartite representa a senda do homem celeste, e no seu primeiro nível referencial ensina ao Companheiro o valor do cultivo do equilíbrio, da equidade e da justiça. O segundo conjunto de degraus se relacionam aos sentidos concretos e abstratos que são inatos aos seres, e o último bloco, composto por sete degraus, remetem a apreciação e reverência às artes filosóficas e científicas.

O Maçom então acaba por descobrir que a estrela reflete a si mesmo e cabe aprender como construí-la dentro de si. O estudo disciplinado e o acúmulo de conceitos e referências podem fornecer ao estudante Maçom não só uma mudança de valores internos, mas uma profunda transformação no meio social em que vive. Da Teoria da Relatividade depreendemos que os corpos, sejam celestes ou não, mais massivos deformam o espaço-tempo a sua volta. De forma semelhante podemos afirmar que um tipo de “massa espiritual sutil”, acumulada pelo estudante Maçom, pode influir externamente, reverberando vibrações no meio em que ele vive. E tal massa espiritual se constitui das boas obras construídas, da vida sadia e fundada na ética, do respeito aos ditames da moral, do estudo regular, e da prática da ecologia interna. É o momento de reforçar o abandono dos vícios do corpo e da mente, focando na importância de viver equilibradamente, com temperança e austeridade.

O Grau do Companheiro é então o do cultivo, da Moral, das Ciências, e das Verdades. É o momento em que a semente que foi plantada no coração e desabrochou com o nascimento para a vida Maçônica, no grau de Aprendiz, começar a crescer e a frutificar.

A forma de construir a estrela interna passa pelo entendimento de alguns conceitos e da reflexão constante acerca deles. O Maçom é um construtor. Ele estuda e concebe a validade dos conceitos de construção como um referencial filosófico para a melhora de si mesmo. E a construção passa por um entendimento teórico e prático acerca das ciências éticas e filosóficas. No contexto das ciências filosóficas, se abrange o estudo da Geometria Sagrada, que é a expressão do mundo ideal das formas.

A Geometria Sagrada é uma das mais antigas ciências filosóficas. A simbologia geométrica era largamente utilizada por sistemas filosóficos ou religiosos que não admitiam a idolatria da figura de seres vivos. Dessa feita, as construções geométricas eram tratadas com sacralidade, pois reproduziam o próprio pensamento da divindade. Muitos conceitos matemáticos que são demonstrados modernamente por métodos algébricos, antes, na antiguidade, eram demonstrados e concebidos a partir de reflexões sobre construções geométricas.

A título de exemplo, tomemos a questão da quadratura do círculo. Este era um dos conceitos fundamentais para a escola Pitagórica na antiguidade, e que persiste até hoje. A quadratura do círculo se traduz pela transmutação da semicircunferência descrita pelo Sol (quadrante solar) no céu durante o dia, no polígono quadrático do templo na Terra ou mundo manifestado. Quando se projeta essa semicircunferência, definem-se os pontos cardeais no templo. Esse processo possui um aspecto importante a considerar: na matemática o procedimento geométrico e algébrico de construir um quadrado, usando régua e compasso, com a mesma área de um círculo dado é tarefa quase impossível porque envolve números irracionais, isso quer dizer que para encontrar a solução exata devemos transcender a assertividade dos números inteiros e racionais, e admitir números infinitos, ou irracionais, o que transcende a nossa compreensão da realidade. Fazendo uma analogia com este princípio, podemos dizer que realizar a quadratura do círculo, do ponto de vista filosófico, consiste em construir um modelo divino na matéria, fazendo uso de uma simbologia que não pode ser entendida concretamente, mas apenas intuitivamente, como fazemos na compreensão dos números irracionais.

Partindo dessa concepção, vamos propor um modelo de construção geométrica da Estrela Flamígera, baseada em conceitos geométricos básicos, associados a uma reflexão filosófica, simbólica e meditativa a cada um dos passos propostos. Tal associação não é absoluta e faz coro a inúmeras possibilidades de interpretação.

Existem muitas formas de construir geometricamente um polígono estrelado regular de cinco pontas (Estrela Flamígera). O método apresentado a seguir é bem conhecido no âmbito da teoria geométrica. Sugerimos uma postura meditativa acerca dos passos apresentados, cabendo ao leitor explorar o que hora é proposto fazendo associações com a sua própria experiência acumulada ao longo de sua senda de aprendizado.

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I

Partiremos de um ponto, representação da unidade absoluta e sem dimensões, de onde tudo veio e para onde tudo retornará. Este ponto simboliza o ovo do mundo, o início da realidade negativa, o Ain Soph Aur cabalístico. É “a primeira diferenciação nas manifestações periódicas da Natureza eterna, sem sexo e infinita, ou o Espaço Potencial no Espaço Abstrato” (BLAVATSKY, SD, 4):

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A emanação se inicia quando a divindade se vislumbra na eternidade e vem à tona o desejo de existir. Então dela emana uma linha. Este “é o símbolo da Mãe-Natureza, divina e imaculada, no Infinito absoluto, que abrange todas as coisas” (BLAVATSKY, SD, 5). A unidade é a harmonia entre o pensamento consciente e o inconsciente, onde pode haver um equilíbrio entre os opostos, do racional com o irracional, e de tudo o que é concreto com o mundo das formas abstratas.

Para efeitos práticos, vamos tornar a linha horizontal, como um segmento de reta AB, e a partir dela será desenvolvida a construção:

II

 “Quando o diametro horizontal se cruza com o vertical , o símbolo se converte na cruz do mundo, signo do começo da vida humana.” (BLAVSTKY, SD, 5). É o nascimento da natureza, principio feminino receptáculo de toda vida. Aqui surge a multiplicação e a síntese das formas. A dualidade arquetípica reúne toda a criação, mas também é o símbolo do conflito, pois é a marca de todas as ambivalências. Aqui uma reta r surge quando duas circunferências de raio AB e centro em A e B definem os pontos C e D:

III

Tracemos então uma terceira circunferência de raio AB, com centro em D. Note que ela passa pelos pontos A e B e intercepta as demais circunferências nos pontos E e F:

Com o terceiro círculo formamos a trindade, que representa a harmonia do absoluto manifestada em essência na matéria. Representa a trindade do ser vivo e o próprio intelecto da divindade. Assim como o dois é o número da terra o três é o do céu, representando ainda a perfeição, nada podendo a ele ser acrescentado. Para os cristãos, Deus é um em três pessoas, para os budistas a expressão da perfeição se dá na Joia Tripla – Buda, Darma, Sanga – , no hinduísmo a manifestação divina é tripla – Brama, Vishnu e Shiva – , os reis magos são três, que simbolizam as três funções do rei do mundo – rei, sacerdote e profeta – , personificada na pessoa do Cristo; as virtudes teologais são três e também são três os elementos da grande obra alquímica – enxofre, mercúrio e sal. Oswald Wirth escreve que

…os primeiros sephirot são classificados em três ternários. O primeiro é de ordem intelectual e corresponde ao pensamento puro ou ao espírito; inclui o Pai-Princípio, o Verbo-pensamento criador e virgem-Mãe que concebe e compreende – Keter, Hokhmah, Binah. O segundo ternário é de ordem moral e relativo ao sentimento e ao exercício da vontade, ou seja a alma; reúne a graça misericordiosa, o julgamento rigoroso e a beleza sensível – Hesed, Gevurah e Tiferet . O terceiro ternário é de ordem dinâmica: relaciona-se com a ação realizadora e, por isso com o corpo; engloba o princípio que dirige o progresso, a ordem correta da execução, e as energias realizadoras do plano – Netzah, Hod e Yesod (WIRTH, 70,72)

Este ternário universal se expressa por diversos símbolos gráficos, dentre os quais o mais simples é o triângulo. Este triângulo equilátero (representado na figura por CEF) é um importante símbolo maçônico, o Delta Luminoso, e representa a divindade, a harmonia e a proporção. O triângulo divino possui vértice superior com ângulo de 36º e os dois da base com 72º, sendo, portanto, isósceles, e associado ao elemento fogo – os demais possuem a seguinte associação: equilátero a terra, retângulo a água e escaleno ao ar. No entanto, o triângulo maçônico está associado ao número de ouro, com 108º no vértice superior e 36º em cada vértice da base, sendo então possível inscrever nele a estrela flamígera. Os triângulos mencionados relacionam seus ângulos internos numerologicamente ao 9, que é associado à sabedoria filosófica oculta.

Para a tradição judaica o três representa Deus, cujo nome não se pode pronunciar. Na alquimia representa o fogo e é associado ao coração. Um triângulo equilátero pode ser dividido em dois tornando-se a dualidade com dois triângulos retângulos. Na tradição pitagórica estes dois triângulos resultantes representam a dualidade espírito-matéria, sendo que Platão menciona no Timeu que o triângulo retângulo é uma representação da matéria, enquanto o equilátero é associado à divindade. Existe ainda a relação entre os triângulos que compõem o signo de Salomão, indicando a natureza divina e humana do Cristo, simbolizados pela montanha e pela caverna.

IV

O ponto G, de interseção entre a reta r, que foi a emanação da natureza, com a última circunferência formada vai definis as retas s e t:

Aqui temos o surgimento da cruz do mundo, formada pelas retas s e t, perpendiculares entre si. O número quatro é então associado a essa cruz e ao quadrado. Este número está relacionado à matéria sólida e tangível. Também podemos associá-lo ao mundo, representado pelo cruzamento das linhas paralelas e meridianas, indicando a totalidade da criação e do que foi revelado por Deus aos homens. São então quatro os pontos cardeais, os pilares do Universo, as fases da lua, as estações, os elementos, rios do Paraíso, as letras do nome de Deus – YHVH, sintetizando a mesma totalidade dos elementos, associando o Y ao homem, H ao Leão, V, ao touro e H à águia – e do primeiro homem – Adão. Para os pitagóricos representa a tétrada e a década (pela adição dos quatro primeiros números), representando a chave de um simbolismo numérico capaz de ordenar o mundo. Entre os dervixes e sufis, o adepto deveria transpor quatro portas em sua via iniciática para vencer os sentidos, estando cada porta associada a um dos elementos. O quatro surge então como um receptáculo de potencialidades, aguardando a manifestação do cinco, a evolução para uma outra forma de percepção da realidade.

V

Neste quinto passo definimos os pontos H e I como a intersecção das retas s e t com a duas primeiras circunferências originadas na emanação:

Com estes nove pontos distribuídos no desenho, temos que o ponto central representa o cinco. O cinco é a união de dois e três e está no meio dos nove primeiros números. Portanto é o símbolo da união, da harmonia e do equilíbrio, da ordem e da perfeição divinas. É o símbolo gráfico do homem, e do universo. Indica também os cinco sentidos e as formas sensíveis da matéria. É também a quintessência ou éter, que será transcendido até o seis, o homem individual em relação ao Homem Universal.

Para Santa Hildegarda de Bigen, citada por Davy, o homem

se divide, de comprido, i.e., do alto da cabeça aos pés, em cinco partes iguais; no sentido da largura, formada pelos braços estendidos da extremidade de uma das mãos à da outra, divide-se ele em cinco partes iguais. Levando em conta essas medidas iguais no comprimento e essas cinco medidas iguais na largura, o homem deve ser inscrito num quadrado perfeito. (DAVY, 170)

Ou seja, a quintessência é inscrita no mundo material. A obra de Deus encarna e seu corpo é uma reação da matéria à presença do Espírito. E Davy prossegue:

O pentagrama é o emblema do microcosmo e do andrógino. Nas miniaturas medievais, o homem microcosmo é muitas vezes representado de braços e pernas abertos, a fim de melhor indicar as cinco pontas do pentagrama. (DAVY, 170)

Essa figuração formam uma cruz com a interseção no peito do homem. Sendo o quadrado o símbolo da terra, o homem é a cruz no mundo. Esta imagem indica que o número cinco rege a estruturação do homem.

VI

Nesta sexta etapa os pontos H e I serão o centro de duas novas circunferências de raio AB:

O seis indica a oposição da criatura e do criador, porém não expressa exatamente uma oposição, mas antes uma distinção. Aqui o homem pode inclinar-se para o bem, visando união com Deus, como também para a revolta e o afastamento Dele. Este passo representa a perfeição do destino místico, expressa pelo símbolo gráfico dos seis triângulos equiláteros inscritos em um círculo, sendo cada lado de cada triângulo equivalente ao raio deste círculo, correspondendo o seis à quase exatamente a relação entre a circunferência e o raio (2π).

Disso resulta que não existe a perfeição correspondente, entre o homem encarnado e Deus, e isso faz do seis o número da prova entre o bem e o mal, da criação do discernimento intuitivo que emana da essência divina.

O seis é representado no I-Ching pelo hexagrama Song, que significa “carruagem atrelada com seis dragões”, que indica a ideia de Céu em ação sobre as águas, e que são também seis as influências celestes.

Outra importante simbologia é a identificada com a estrela de Davi, emblema de Israel e que carrega uma série de interpretações profundas, relacionadas a união de duas naturezas, uma ascendente e outra descendente, que são harmonizadas no centro. São dois triângulos imbricados (2 x 3 triângulos) e as vezes representados inscritos em uma circunferência.

VII

Chegamos a última etapa, onde devemos definir o ponto J, como sendo a interseção das últimas duas circunferências construídas. O ponto J é o emblema da consciência divina no homem.

As sete etapas nos convidam a meditar acerca da constituição oculta do homem, que se organiza em matéria e espírito. Essa constituição setenária do homem, popularizada entre os estudantes do oculto por Eliphas Levi e posteriormente Blavatsky, indica sete princípios diretores em cada ser, que deverão ser corretamente harmonizados a medida que se avança no aperfeiçoamento espiritual. Para fins práticos, verificamos a seguir o esquema proposto por Blavatsky, o qual pode ser identificado em muitas tradições esotéricas do ocidente e do oriente:

(*imagem adaptada de “A Chave da Teosofia”, de Helena P. Blavatsky).

Os veículos, que compõem a quadratura inferior e perecível tendem a se dissolver ou sublimar a medida que o processo de espiritualização avança. Só o que perene e duradouro é a trindade superior, a mônada imortal. A ponte dinâmica entre a trindade e a quadratura se designa por Anthakarana, – associado a escada de Jacó – a qual representa o esforço do Maçom enquanto esquadreja e faz polir a pedra bruta e realiza a obra de transmutação. Isso resulta no triângulo se sobrepondo ao quadrado inferior, tal como a abeta superior do avental do aprendiz se manifesta na consciência quando da sua ascensão ao Grau 2 assim dando segmento aos degraus superiores da escada do aprendizado.

O número sete está expresso em diversos símbolos e em muitas manifestações da natureza. Sete são os dias da semana, os graus da perfeição, as esferas ou graus celestes, os galhos da árvore cósmica, a totalidade das ordens planetárias e angélicas, magistralmente poetizado por Dante na Comédia, dentre muitas outras referências existentes. Os egípcios consideravam o sete como símbolo da vida eterna, e ainda como um ciclo completo de perfeição. Segundo Blavatsky, a soma dos sete primeiros números (1+2+3+4+5+6+7) soma 28, ou quatro ciclos de sete, correspondendo a atual idade da humanidade.

O número sete representa os lauréis da iniciação e indica o fim de um ciclo de mudanças. As iniciações são sempre um momento de transmutação e renovação. Se dão diariamente, na forma de pequenas iniciações quotidianas, que são um importante instrumento pedagógico, e que preparam para as raras grandes iniciações.

O sete está presente na estrela de seis pontas, se considerarmos o elemento central, que é equidistante a todas as partes. Aqui ele representa a totalidade do espaço e do tempo, o universo em movimento, pois a ele se dirigem as seis direções do espaço e mais o tempo.

A vida moral também é expressa no setenário, pois reúne as virtudes teologais – fé, esperança e caridade – e cardeias – prudência, temperança, justiça e força. A própria essência da matéria também é expressa em sete vibrações, identificada, por exemplo, com as cores da luz visível e das notas musicais audíveis pelo atual estado da consciência humana. Hipocrates escreveu que “o número sete, por suas virtudes ocultas, mantém no ser, todas as coisas; da vida e movimento; influencía até mesmo os seres celestes”.

 Nos contos e fábulas geralmente encontramos sete personagens que grupalmente expressam algum estado de consciência, ou etapas de evolução: 1. Consciência do corpo físico: desejos satisfeitos de modo elementar e brutal; 2. Consciência da emoção: os impulsos tornam-se mais complexos com o sentimento e a imaginação; 3. Consciência da inteligência: o sujeito classifica, organiza e raciocina; 4. Consciência da intuição: as relações com o inconsciente são percebidas; 5. Consciência da espiritualidade: desprendimento da vida material; 6. Consciência da vontade: que faz com que o conhecimento passe para a ação; 7. Consciência da vida: que dirige toda atividade em direção à vida eterna e a salvação.

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Com esta construção chegamos ao pentágono plenamente definido pelos pontos ABHIJ e a partir de seus vértices inscrevemos o pentagrama ou Estrela Flamígera:

Apagando as linhas de construção, ou deixando que a intuição se sobreponha ao pensamento concreto, podemos vislumbrar o homem ideal e harmonicamente definido. A figura do homem vitruviano, definido pelo arquiteto romano Marcus Vitruvius Pollio e imortalizado pelo gênio Leonardo DaVinci representa a beleza das formas e a harmonia das proporções. Mas isso não se manifesta apenas no plano concreto. Tal símbolo nos convida a refletir acerca da harmonia entre a mente e o espírito. A mente é o instrumento de que dispomos para racionalizar acerca dos fatos, mas ela deve ser transcendida pela intuição e pelo não-pensamento, que é a forma de expressão do espírito. E a trilha iniciática de construção da Estrela Flamígera se traduz neste processo de investigação dos mistérios ocultos, que conduz o Maçom ao ouro filosofal.