Arte Real

Sic Transit Gloria Mundi

Category: Maçonaria

A RESSURREIÇÃO

Simbolicamente a ressurreição é um dos mistérios maiores da expressão da divindade. Em todas as tradições o ato de renascer é algo somente compreensível e pertencente aos planos superiores e inefáveis. Ela transcende a qualquer tipo de racionalismo e não pode ser explicado a partir de intelecções humanas comuns.

Um mito grego ilustra bem isso, ao contar como Asclépio, a divindade da medicina, filho de Apolo e educado pelo centauro Quiron, foi fulminado por Zeus após descobrir o segredo da ressurreição.

Outro simbolismo marcante é o da serpente associado a imortalidade. Nas tradições orientais ela é a guardiã dos mistérios da vida e da morte e na tradição judaico-cristã a serpente enlaçada na árvore da vida segreda aos ouvidos de Eva os mistérios divinos acerca do bem e do mal. Por tal crime a serpente é condenada a rastejar sobre a terra e o primeiro casal é penalizado com a perda da imortalidade.

A serpente Ouroboros, dentro de sua vasta simbologia, também é associada a ressurreição, e na Maçonaria se relaciona à eternidade e ao renascimento nos planos superiores onde a Divina Sabedoria do Grande Arquiteto do Universo é dada a conhecer ao iniciado, desde que este aprenda a ler os mistérios do seu Templo Interno, reconhecendo a infinitude de si mesmo. Também na Maçonaria aprendemos com este importante símbolo, que a Lei do Ciclos a tudo regula e norteia.

Os mistérios gregos, em especial o de Elêusius, e as cerimônias fúnebres do Egito Antigo, dão forte testemunho acerca da relação humana com o desejo de imortalidade e ressurreição, sendo que o neófito ou o morto eram cerimonialmente preparados para transitar por mundos superiores ou de grandes provações, até ressurgirem como espíritos elevados e transcendendo o ciclo de vida e morte. Nas grandes e pequenas iniciações, temos a morte e a ressurreição como temas patentes, e que eram ansiosamente esperadas pelos iniciados. Estes não sabiam o que iriam encontrar durante o processo iniciático, mas dele saiam sob forte impressão espiritual, e jurados agora como participes do mundo transcendente.

A ressurreição, no entanto, está fora do alcance do homem comum, e somente pode ser vivenciado a partir da experiência iniciática do renascimento em um plano de existência onde a consciência partilha das mesmas energias da divindade. Esta ressurreição é o símbolo máximo de transcendência e supremacia sobre a vida e a morte, que o homem comum só pode conceber se ascender até as esferas de consciência que pertencem somente a Deus.

A representação do infinito, como vimos, pode ser expressa pela serpente circular. Isso relaciona Deus à circunferência, que é um símbolo não redutível a um comprimento exato – matematicamente o comprimento da circunferência é expresso por 2πR (sendo π um número irracional, portanto infinito). O compasso é uma ferramenta maçônica utilizada para traçar inúmeras circunferências, de diferentes diâmetros equivalentes, então expressa o potencial do Maçom em entender os mistérios da divindade, e, portanto, de conceber o que advém após a ressurreição iniciática a que o Mestre Maçom vivencia.

O Maçom passa por um processo de despertar da consciência, quando sua percepção dos mundos sublimes é despertada pelo iniciador. O machado, o malhete ou a espada de dois gumes são instrumentos do despertar da consciência ou da visão do olho divino em cada neófito. Esta percepção mística surge no momento da morte iniciática, quando a grande lucidez é despertada quando os veículos inferiores da carne são abandonados. O neófito transita por então por mundos interiores a muito não vistos e que lhe parecem desconhecidos. No entanto a ilusão do desconhecido é aparente, pois se trata apenas de uma senda de purificação.

O recanto tumular do neófito é encimado por um ramo de acácia, planta sagrada para a Maçonaria. A arca da aliança é feita de madeira de acácia, assim como a coroa de espinhos do Cristo. Essa planta de duros espinhos é o símbolo da ressurreição e da imortalidade, pois “é preciso saber morrer, a fim de nascer para a imortalidade” escreveu Gerard de Nerval ao se referir ao mito da morte de Hiram. Da mesma forma, a coroa de espinhos do Cristo se assemelha aos raios esplendorosos do Sol.

A ressurreição é um processo em que o iniciador conduz o neófito até uma realidade em que os iniciados compartilham os frutos dourados do Sol, onde os espinhos e as pedras do caminho que conduz a Deus são agora vistos como elementos indispensáveis no processo de alquimia interior, pois as duras provas trazem as graças divinas.

O Mestre Maçom verdadeiramente ressurrecto é aquele que aprendeu a importância de transcender a mortalidade, abandonando os vícios e portando-se como se estivesse na presença da divindade, pois agora quem o acompanha é o alento divino, que merece toda a reverência, na forma do autorrespeito e do portar civilizado ante o universo.

A MARCHA

A senda Maçônica avança por passos, haja vista que paulatinamente se segue construindo um entendimento cada vez mais assertivo acerca do Templo e do trabalho interno. Um dos simbolismos mais significativos, dentro do ritual maçônico, é o da marcha ou avanço, em cada um dos graus simbólicos.

As marchas ou passos do grau, são basilares em alguns ritos, e possuem sua estruturação iniciática de acordo com o que determina a ritualística. Este avanço, desde o ocidente até o oriente, desde as trevas até a luz, ou desde o mundo profano e manifestado onde se encontra o neófito, até o mundo divino e arquetípico, representa a perfeição que se adquire no ato de avançar na senda iniciática. Em cada grau a forma de avançar adquire certa complexidade, representando os novos desafios a serem encarados, e as novas linhas de entendimento iniciático acerca dos mistérios maçônicos.

Quando da iniciação, somos apresentados aos três passos do Aprendiz Maçom, que expressam a intenção de praticar o reto agir, manifestando-se no cultivo de três virtudes: retidão, decisão e discernimento. Estes passos se dão em reta devido ao Aprendiz precisar ser conduzido, e a ter recebido mui fraca luz, e por fim ainda não reunir condições de trilhar a senda sozinho. Acaso resolver trilhar através da escuridão sem a adequada orientação, poderá se perder em meio as trevas. Dada a necessidade de ser conduzido, o cultivo da humildade e do silêncio são condições necessárias nesta caminhada. Não somente no Grau de Aprendiz, mas em todos os demais, a esquadria está presente para nos lembrar da conduta reta de caráter, que acompanha o Maçom.

Após avançar na senda, cumpridos os três anos simbólicos de aprendizado, o Aprendiz pode ser elevado ao segundo grau. Aqui, passando da perpendicular ao nível, o agora Companheiro Maçom poderá trilhar por todo o ocidente, desde o Sul até o Norte. Dessa forma, a maneira incerta de seus passos relaciona-se a uma escada em forma de caracol que o encaminhara futuramente até a Câmara do Meio. Aqui o Companheiro Maçom está se forjando como indivíduo, e o percurso acidentado e incerto, representa um tipo de espiral ascendente. Os cinco passos totais correspondem a idade simbólica do Companheiro, pois aos dois incertos somam-se os três do Aprendiz. Os três passos iniciais terminam no equador do templo, e a partir de então o Companheiro pode se deslocar por entre as colunas, buscando aprendizado por todo o Ocidente, e por fim retornar ao equador, onde lhe é dada a oportunidade de se projetar rumo a Luz. Findo o estágio, o Companheiro denota que agora é senhor dos caminhos ocidentais, podendo agora partir rumo a Luz do Oriente. Mas para tanto deverá ser conhecedor das Leis da Natureza.

Na plenitude maçônica, ao final da senda iniciática, o Companheiro pode exaltar ao Grau de Mestre Maçom. Preparado para a divina exaltação, o Companheiro agora é o senhor do Ocidente, dos pontos cardeais, e conhece os segredos do Equador, por isso inicia com a marcha do Aprendiz e após a do Companheiro. A ele são apresentados os passos sagrados do Mestre, devendo entender e conhecer os ciclos de nascimento e morte da natureza, a qual se expressa em ciclos, como bem sabemos.

Os passos do Mestre acompanham a trajetória da eclíptica ao longo do ano. Em Astronomia, a eclíptica é uma das linhas basilares da esfera celeste, pois representa a trajetória aparente do Sol ao longo do ano. A cada amanhecer, por 365 dias, observamos que o Sol aponta em uma posição diferente, devido à inclinação do eixo de rotação da Terra. Sempre após um ciclo ele retorna à posição inicial, e este é fundamento de qualquer calendário solar. Este fato também define as estações do ano em ambos os hemisférios. Outra linha importante é a do equador celeste, que nada mais é que a projeção do equador terrestre na esfera celeste. O equador celeste acompanha o eixo leste oeste de nossa orientação geográfica usual. É fácil localizá-lo, pois atravessa algumas constelações importantes – como o cinturão de Orion, por exemplo. O momento ou data em que a eclíptica cruza o equador celeste define o que chamamos de equinócios, que podem ser de primavera ou outono, a depender do hemisfério – normalmente se dão em 20 ou 21 de março ou setembro. Já quando a eclíptica se afasta em cerca de 23º27’ do equador celeste, atingindo o seu ponto máximo de afastamento, temos os solstícios, que podem ser de inverno ou verão, a depender também do hemisfério, normalmente se dando em 20 ou 21 de junho ou dezembro.

Estes apontamentos astronômicos foram necessários para esclarecer que a marcha do Mestre imita o movimento da eclíptica. Nesse sentido, Hiram representa o Sol, que morre no inverno deixando a Terra infértil e viúva. Os deslocamentos, ora em direção a coluna do sul, ora em direção a do norte, são os pontos solsticiais de afastamento. Ao cruzar o meridiano, com sua marcha o Mestre denota a intenção de vivificar a Terra viúva, com o renascimento simbólico na primavera, durante os equinócios.

Finalmente o Mestre, agora senhor dos mistérios da vida e da morte, e conhecedor das Leis dos ciclos da Natureza, pode estacionar, por fim, sobre o equador e assim preparar-se para adentrar ao Oriente da Loja, onde a suprema sabedoria lhe é agora compreensível. Associando dessa forma, a marcha aos ciclos da natureza, podemos verificar a presença das idades conscienciais do homem, em seu processo de evolução desde a infância, passando pela juventude, maturidade, velhice e por fim morte. Mas esta última corresponde a um novo ciclo de aprendizado, que se inicia ao alvorecer, do Maçom, no Oriente.

A CÂMARA DO MEIO

Uma Câmara, em Maçonaria, possui um significado amplo, que se atribui às diversas modalidade de Oficinas, em seus modos de trabalho, sejam eles em graus simbólicos, filosóficos ou em atividades administrativas. O que entendemos por Câmara do Meio, é a oficina na qual somente os Mestres exercem seu ofício e recebem seus salários. É o local onde os mistérios do mestrado são discutidos, ensinados e aperfeiçoados, e as leis inexploradas da natureza investigadas. Neste nível de trabalho são iniciados os grandes mistérios maçônicos.

Sobre a Câmara do Meio, Oswald Wirth escreve que é “a cova da segunda morte, (…) a caverna onde se trama a eterna conspiração reconstrutiva, o antro de Mitra onde a luz desaparecida renasce para reaparecer mais brilhante”, sendo o lugar “interior e oculto, inacessível, salvo para os Iniciados dignos das supremas revelações”. Nesta cripta, onde reina o silêncio, as iniciações internas são realizadas e as transformações alquímicas se processam. Por ser um local recôndito e inacessível aos olhos profanos e aos graus iniciais, não é possível descrevê-lo com olhos comuns. É necessário que a compreensão deste local transcenda o juízo comum e seja realizado por intermédio da intuição simbólica, visto que ela se desdobra por outros planos de existência. Portanto, assim procederemos.

É na Câmara do Meio que se dá a Iniciação ao 3º Grau, sendo um lugar oculto e inacessível, onde o Companheiro Maçom morre em definitivo e, sepultado, renasce para a sublime vida espiritual. Neste local um véu oculto recai sobre o neófito, preservando a sublimação alquímica que se processa no interior do átrio do coração. Renascido o Mestre Hiram, o Iniciado é transformado no luminoso obreiro do universo, no homem real, que preserva sua individualidade, porém reconhece a sua integração a cadeia universal que reúne a todos os obreiros guardiães da Verdade. Na palavra de Jules Boucher: “esta individuação é própria da Maçonaria, cada Obediência tem o seu caráter particular; cada Loja tem o seu espírito especial; cada Maçom deve conservar e desenvolver as suas qualidades fundamentais. A Loja é, para o Maçom, uma escola na qual pode se expressar livremente perante um auditório atento e benevolente. A confrontação das ideias faz-se sem choques e com cortesia”.

 As tradições filosóficas e esotéricas universais concordam que todos somos parte de uma cadeia universal que se congrega e segue transformando e aperfeiçoando a Alma Universal da Divindade. E segundo Ragon, a Câmara do Meio “é a imagem do grande laboratório em que se operam estas transformações infinitas”. Um laboratório alquímico onde são realizadas as sublimes lapidações, e onde os Mestres continuam o aperfeiçoamento e a partilha de suas descobertas.

Imerso em seus pensamentos, o Mestre Maçom afasta toda a turbulência mental, e assim restando somente o negrume dos sublimes mistérios, ingressa na Câmara do Meio. Apenas lhe acompanha o pranto argênteo pela perda do Mestre. Porém o pranto não é de desespero desmedido, mas expressa a consternação sublime por aquele que parte rumo as esferas celestiais.

A Câmara do Meio é negra, pois esta é a cor da renúncia a vaidade deste mundo. Representa o mundo subterrâneo, onde se efetua a regeneração da luz, sendo que os Egípcios o consideravam o símbolo da fecundidade, pois é a cor da terra fértil e das nuvens de chuva, e do oceano profundo de onde as formas primordiais emergem. As grandes deusas da fertilidade são normalmente virgens negras. Nos hinos Órficos lemos “Cantarei a noite, mãe dos deuses e dos homens, à noite, origem de todas as coisas criadas, e nós a chamaremos de Vênus”, pois negra é a cor do útero materno, onde a vida é operada e se processa. As transformações alquímicas iniciam com a Obra em Negro, que é um retorno ao caos indiferenciado, e vão culminar com a Obra em Vermelho da sublime libertação espiritual. Este caminho noturno dos neófitos vai culminar com a vermelhidão da aurora.

O Crânio representa a sede do pensamento, e para muitas culturas europeias e asiáticas, ele representa o universo manifestado, ou a abobada celeste. Assim, a Câmara do Meio também representa o grande crânio da divindade universal, e estando nele também estamos dentro das manifestações mentais da divindade. No crânio também se encontram a concentração das energias vitais que estão no cume do corpo, sendo a representação da sublime ponte entre o mundo manifestado e as esferas celestiais. É a representação da iniciação, pois simboliza a morte corporal como prelúdio de um renascimento na esfera espiritual, sendo que para os alquimistas o crânio é o putrefactio e a tumba o atanor, que transforma a matéria perecível em ouro. Duas tíbias cruzadas são a oposição dentro da natureza, que o espírito harmoniza para a conquista da perfeição espiritual.

Dez lágrimas argentinas ou brancas dão testemunho da dor e morrem se evaporando aos poucos. Presentes são o luto e após evaporarem transmutam-se em âmbar celestial ou no mais puro sentimento. Ao secarem as lágrimas, o neófito reúne condições de desvendar os mais profundos mistérios geométricos, avançando na compreensão de seus mistérios. Para o Egito antigo os ossos dos deuses eram de prata e sua carne de ouro. Porém a prata é o símbolo da sabedoria e se une ao amor divino, que é dourado.

Assim, os mistérios da Câmara do Meio precisam ser vivenciados e absorvidos no silencio tumular do processo interno de meditação que é recomendado ao Mestre Maçom praticar. É necessário que o Mestre traga para o sagrado templo interior a vivência diária do simbolismo da Câmara do Meio.

A EXALTAÇÃO

Este é o nome que se dá à cerimônia de iniciação ao Grau de Mestre Maçom, constituindo o ponto culminante da Maçonaria Simbólica.

A palavra latina exaltare é a raiz da palavra exaltação, e remete a ideia de glorificação, entronização, altivez nobre, ou engrandecimento. Por outro lado, possui também um sentido pejorativo, que expressa a ideia de exasperação ou envaidecimento, sendo que isso não expressa a raiz original da palavra.

A meta de todo neófito maçom é a exaltação, ocasião em que lhe será concedido o mestrado na ordem. Mas primeiramente cabe ao maçom se perguntar qual sentido da palavra exaltação será mais significativo para si, antes de se entender merecedor do grau de Mestre. Cabe responder, ante o tribunal de sua consciência, se anseia a exaltação para a glória do Grande Arquiteto do Universo que habita em si e em todos os seres, ou se preenchera apenas um exercício de vaidade indigno.

Caso a resposta humilde e sincera, que pode ser lida nas páginas escritas no coração, seja a primeira, pode ter certeza de que, parafraseando Shakespeare, os Anjos e Ministros Celestiais lhe valerão, e seu caminho de construção de boas e virtuosas obras será abençoado.

O cerimonial iniciático da exaltação maçônica deve ser plenamente vivenciado, a fim de que toda sua simbólica seja absorvida pelo neófito, e seu real significado seja compreendido, haja vista que a ritualística maçônica inicia no plano físico para se efetivar no mundo mental, onde as transformações mais relevantes serão processadas. Assim, é imperativo que todos os envolvidos durante um cerimonial maçônico, não somente de exaltação, estejam cônscios de que suas personalidades individuais devem ser abandonadas para darem lugar aos arquétipos representativos das energias mentais e divinas ali presentes.

Ao iniciar a exaltação, a assembleia dos Mestres recebe o neófito com certa desconfiança e violência, pois ele é tomado como responsável por um terrível crime de assassinato do seu próprio Eu Superior, e este crime misterioso é objeto de um profundo auto interrogatório, conduzido pelos presentes e que refletirá na consciência do neófito. A primeira lição a ser aprendida diz que são os golpes da vida profana e a pressa em logo tudo aprender e absorver, que contribuem significativamente para nos afastar de nossa verdadeira essência, que corre o risco de ficar inerte e quase esquecida. Então de fato, a princípio, assiste razão a acusação, eis que somos responsáveis por tal crime.

Ato contínuo, o neófito deverá dar testemunho de seu juramento à verdade, que se representa pela brancura de suas intenções, com que se apresenta a Assembleia de Mestres, e renega tal crime, afirmando sua devoção, fidelidade e serviço a divindade que em si habita. Dirigindo-se então ao chamado do destino, o neófito segue com passos não vacilantes, à medida que os Mestres o fazem dirigir-se ao caminho da verdade, levando sobre si os golpes dados pelos sentidos e vícios, porém mantendo-se firme e comprovando seu amor a sabedoria, e atestando sua inocência.

No vale amargo que precede o reencontro com a divina sabedoria, o neófito se une ao Eu Superior, passando a representar ele mesmo aquele que foi renegado, vilipendiado e despedaçado pelos látegos do assassino, tal qual Osíris que é despedaçado por Seth, de acordo com a tradição iniciática do Egito antigo. Morto o neófito, o mau triunfa sobre o bem. Porém isto é provisório, pois a energia do bem é superior.

Antes de morrer o neófito agonizante passa por um intrincado processo de rememoração de todo a sua vida que está impressa no corpo. Portanto suas vicissitudes e provas, conquistas e despojamentos, lhe servem de elementos para proceder o julgamento perante o tribunal de sua consciência. Estas impressões obtidas serão usadas para subsidiar sua glorificação, bem como o reconhecimento de delitos a corrigir.

Morto o neófito ele deverá ser sepultado, pois como toda semente, deverá apodrecer sob a terra para renascer de novo com a nova consciência que é capaz de perceber a verdadeira realidade dos mundos imanifestados. A putrefação do corpo representa as paixões que deverão se desprender dos ossos e estes, os vícios mais tenazes, deverão ser reduzidos a pó.

No túmulo do neófito nascerá a árvore dourada, símbolo da consciência solar e imortal. Tal como a árvore da vida renascida, a consciência criará raízes no céu e poderá se manifestar no mundo das formas, cultivando a grande obra e o elixir da existência imortal.

As tradições filosóficas e esotéricas universais identificam uma manifestação arquetípica que indica um confronto com a efígie da morte – a caveira – logo após o neófito cruzar o umbral entre este mundo e o dos mortos. Nesse mundo terrífico, que se chega logo após a morte, o neófito confrontara seus fantasmas. Este lugar ou câmara é a recôndita selva em que a alma irá defrontar-se com provações e descer aos infernos em busca do caminho da ressurreição. A salvação advirá com o reconhecimento da vida eterna e a morte da personalidade. Como Dante, Orfeu e tantos outros que contemplaram a divindade, o neófito encontrará a luz inefável, que habita em seu próprio espírito. Um crânio luminoso, que é o símbolo do Grau de Mestre.

O agora Mestre tem condições de perscrutar os mistérios da vida e da morte, e reconhecer o seu real significado. Vida e Morte são as duas faces da mesma moeda e não existem individualmente. O Mestre agora reconhece que a existência é a moeda e seus dois lados se manifestam sucessivamente. Ele agora reconhece que o sentido de sua existência é o caminho rumo a consciência divina e a imortalidade.

Mas o palácio celestial não é tomado soberbamente. A humildade e o sacrifício são duas premissas que definem o mestrado. Ao seguir educando a si próprio na senda discipular, o Mestre é responsável por levar sob seus ombros a responsabilidade sob os demais, a quem ainda não foi oportunizada uma via iniciática. A estes órfãos o Mestre se dedicará e seu esforço será concentrado em combater a ignorância, ensinando pelo exemplo. O Mestre seguirá se lapidando e se aperfeiçoando moralmente e espiritualmente, construindo-se por intermédio do estudo e do exercício da caridade e do altruísmo.

O AVENTAL

O avental é a vestimenta mais importante para o maçom, e se constitui por si só detentora de um simbolismo iniciático rico e completo. Inicialmente seu uso está relacionado à sagrada tarefa de construir. Desde os mais remotos tempos, quando o homem começou a utilizar suas mãos para modificar as formas, o avental é utilizado como objeto de proteção. Mais tarde veio reunir elementos de identidade social, tornando-se a insígnia característica daqueles que constroem e manipulam a matéria.

Existem arquétipos universais que trabalham no chamado inconsciente coletivo da humanidade, e que são manifestações primitivas presentes na psique humana. Tais arquétipos são referenciais simbólicos que influem no processo evolucionário humano, seja no âmbito individual ou coletivo. Se apresentam através da linguagem simbólica, que é um importante instrumental utilizado para facilitar o significado dos arquétipos, tornando-os um pouco mais compreensíveis a nosso modo racional de pensar.

O avental em si é a expressão de um arquétipo relacionado à proteção, mas também possui múltiplos significados. Muitas culturas mundo afora adotam o avental como símbolo da vontade criadora, e da pureza de intenções do artífice. Para alguns o avental é associado a proteção dos dois chacras ou centros de energia inferiores – básico e sacro. Nesse sentido possui uma função ética, pois ao cobrir a parte inferior do corpo, refrega as paixões e as afetividades extremas, ao mesmo tempo que deixa descoberto as partes superiores do corpo, as quais são sede das faculdades racionais e espirituais, que são necessárias ao trabalho do espírito, que produz o verdadeiro iniciado.

É também a principal vestimenta do maçom e suas origens remontam ao tempo da Maçonaria Operativa, quando tinha utilidade prática durante o ofício. Inicialmente era inteiramente branco e, com o passar dos séculos, foram incluídos adornos para identificar o simbolismo em cada grau correspondente, nos muitos ritos e potências maçônicas existentes. Podemos ainda, relacioná-lo a um triplo simbolismo: o da pessoa que se dedica ao trabalho – o Maçom – , que pertence a um meio de trabalho – a Maçonaria –  e proteção aos riscos do trabalho – na escola alquímica de formação do caráter.

O avental caracteriza a roupa do iniciado, sendo ainda o emblema do trabalho, e recordando ao maçom que ele deve ter uma vida dinâmica e voltada ao trabalho no autoaperfeiçoamento

L. Wilmshurst, em seu livro “The Meaning of Masonry” escreve:

” Lembrai-vos de que usais o avental primeiro com a abeta levantada, sendo assim uma insígnia de cinco ângulos, indicando os cinco sentidos, por meio dos quais entramos em relações com o mundo material que circunda nossos ‘cinco pontos de fidelidade’ ou ‘ perfeição’, mas indicando também pela porção triangular em cima, em conjunção com a porção quadrangular embaixo, que a natureza do homem é uma dualidade de alma e corpo.”

O avental se relaciona a túnica de pele com que Adão e Eva ocultaram a sua nudez a pós o pecado original. É a vestimenta do espírito ao “cair” no mundo manifestado e o veículo que cada um deverá vestir para realizar a obra da construção universal.

Podemos então relacionar o avental do aprendiz com a constituição septenária presente na tradição esotérica oriental. Esta constituição representa o próprio homem e seus veículos manifestados e sutis, conforme representado ao lado.

Juntos, o triângulo e o quadrado possuem sete ângulos internos. No quadrado encontramos ângulos retos, simbolizando a retidão no agir enquanto lidamos com os quatro elementos ou veículos de aperfeiçoamento do espírito na matéria. O triângulo possui três ângulos agudos que podem variar de acordo com os graus de perfeição da percepção espiritual.

Wilmshurst escreveu que:

“O trilateral emblema no alto, adicionado ao quadrilateral emblema formam ambos o sete, que é o número perfeito, pois está escrito nume antiga doutrina hebraica, a qual a Maçonaria esta intimamente aliada: ‘Deus abençoou e amou o número sete mais do que a todas as coisas sob o Seu trono’, pelo que significa que o homem, o sétuplo ser, é a mais dileta das obras do criador.

 O avental é o símbolo da vestimenta corpórea e da condição da alma (mais de sua permanente corporeidade invisível, que sobrevive a morte, do que do seu corpo físico temporal). A alma fabrica o seu próprio corpo ou ‘avental’, por meio de seus próprios desejos, e pensamentos (cf. Gen III:7: ‘eles fizeram seus aventais’), e segundo sejam estes puros ou impuros, assim será o corpo físico correspondentemente transparente e branco ou denso e opaco.”

O avental do aprendiz é branco por associar o grau a pureza da alma recém-nascida, e a abeta levantada indica que o triângulo ainda não é incisivo sobre a matéria. O avental do Companheiro possui a abeta virada para baixo, indicando que o espírito começa a impor ação sobre a matéria, e o homem começa a desabrochar e a brotar ao iniciar o processo de descoberta da quintessência, representado pela presença da pentalfa – a joia do grau de Companheiro – na abeta sobreposta do avental. A presença da cor azul-celeste permeando o avental, também remete a espiritualidade, lembrando ao Companheiro Maçom que agora deverá observar a sutileza esotérica e iniciática que cerca o seu processo formativo dentro do modo de vida Maçom.

VIRTUDES DO COMPANHEIRO

A palavra virtude tem origem no termo grego areté que se refere a um conceito próximo a excelência em algum ofício ou atividade. A palavra vem traduzida para o latim como virtus, de onde se originou o nosso termo virtude, em português. Virtude significa, segundo alguns dicionários: “disposição firme e constante para a prática do bem, boa qualidade moral, equilíbrio, força e valor, que se opõe ao vício”. O contrário da virtude é o vício, que degrada ou destrói o homem.

A virtude se constitui de uma série de conceitos muito particulares e abstratos, que não podem ser aprendidos de forma acadêmica. A virtude requer uma didática essencialmente prática para ser ensinada e corretamente entendida. A figura do mestre ou tutor medieval retrata bem esse modo pedagógico de ensino-aprendizagem, o qual privilegiava a convivência entre aluno e mestre e a devida assimilação das virtudes deste último pelo primeiro, por intermédio da prática rotineira de condutas saudáveis ao espírito.

No livro “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, André Conte-Sponville lista algumas das virtudes que considera basilares à civilização. São elas: polidez, fidelidade, prudência, temperança, coragem, justiça, generosidade, compaixão, misericórdia, gratidão, humildade, simplicidade, tolerância, pureza, doçura, boa-fé, humor e amor. Este rol proposto pelo autor é bem amplo e vale a pena a leitura atenta do livro, que é um convite à reflexão e a validade da aplicabilidade das virtudes no dia a dia.

Para a tradição cristã, no momento do sacramento do batismo, são infundidas as virtudes necessárias à prática do bem pelo cristão. Elas possuem natureza teologais e morais. As teologais são: fé, esperança e caridade. Já as morais – também chamadas humanas ou cardeais são: prudência, justiça, fortaleza e temperança.

As virtudes cristãs são associadas, na Maçonaria, a escada de Jacó, a qual representa o sonho que Jacó teve, no qual observou os anjos subindo e descendo aos céus. Este simbolismo é o indicativo de que o caminho para a ascensão até as mansões celestiais se dá pela prática das virtudes. O movimento ascendente e descendente dos anjos nos indica o movimento de subida e descida da alma, a qual pode estar cristalizada e muito ligada ao corpo físico encarnado ao mesmo tempo que anseia por seguir até as esferas sublimes, procurando extinguir seus vícios e habitar novamente o estado pacífico do mundo do espírito. O movimento ascendente é caracterizado pelo desejo inato pela ascensão e pela luz, que motiva os seres, em um ou outro grau. O Maçom deve se ater a este simbolismo não como um referencial árido, porém como uma prática quotidiana necessária à sua devida evolução espiritual dentro da Maçonaria. Esta é essencialmente uma escola de construção de homens virtuosos. Toda a simbologia remete a esse fim.

Alguns consideram a humildade uma porta de entrada para o aprendizado das demais virtudes, haja vista que o cabedal de ideias e conceitos pré-concebidos reunidos por anos de experiências viciosas e nocivas, pode gerar óbices a novos e saudáveis hábitos. Assim, um Maçom com anos de convivência com vícios de Loja pode se mostrar resistente ao aprendizado das verdadeiras virtudes maçônicas quando se depara com elas. De nada adianta a ostentação de títulos e medalhas se o Maçom não pratica e observa a virtude em si mesmo e a distribui aos demais. O Maçom deve ser um canal por onde a virtude descende dos céus e se transmite aos demais seres. Ele possui o dever sagrado de ser um guardião da verdade e da sabedoria divina, e por isso deve proceder e se comportar como se estivesse diuturnamente ante a uma presença divina que a tudo vê e observa. Não é possível dissociar a prática das virtudes do entendimento teórico acerca delas. Fugir a esta regra é faltar com a verdade perante o tribunal da própria consciência.

A alegoria que nos foi legada pelos egípcios, acerca do julgamento do morto nos planos celestiais nos apresenta a ideia do julgamento do desencarnado pelas divindades. Após ser apresentado, pelo deus Anúbis, a assembleia dos quarenta e dois deuses, presidida por Osiris, o morto sofria uma avaliação e um julgamento onde sua vida terrestre era desnudada. No ápice desse julgamento Osiris pesava o coração do morto em uma balança, sendo o contrapeso uma pena, que deveria abalançar mais que o coração. Logo, para ser aprovado pela assembleia e merecer as mansões celestiais o coração do julgado deveria estar mais leve que a pena, caso contrário o morto seria entregue ao deus Seth – o crocodilo – para ser devorado, iniciando um novo ciclo de encarnação, submetendo-se a mais aprendizado.

Esta alegoria nos remete à serenidade que acompanha o homem virtuoso, que de fato possui o coração tão leve como uma pena e desconhece os tormentos que acompanham aquele que possui muitas coisas a corrigir ou reivindicar. A virtude é coirmã da simplicidade e da vida limpa. Outra alegoria que faz referência a escada de Jacó é a chamada Escada de Ouro, um documento apresentado por Helena Blavatsky, fundadora do movimento teosófico moderno. Na introdução ela escreve:

“Quem não retira a sujeira com a qual a fonte de sua inspiração pode ter sido contaminada por um inimigo, não ama sua fonte de inspiração, nem honra a si mesmo.  Quem não defende os perseguidos e os indefesos, quem não compartilha sua comida com os famintos nem tira água do seu poço para os que têm sede, este nasceu demasiado cedo sob forma humana. Observe a verdade diante de você.”

Daí segue a o texto da Escada de Ouro, estruturado como se estivesse em degraus:

Vida limpa,
mente aberta,
coração puro,
intelecto ardente,
clara percepção espiritual,
afeto fraternal para com seu codiscípulo,
presteza para dar conselho e instrução,
leal sentido de dever para com o instrutor,
pronta obediência aos preceitos da VERDADE,
uma vez que nela pusemos nossa confiança
e cremos que o instrutor a possui;
corajoso suportar das injustiças pessoais,
destemida declaração de princípios,
valente defesa daqueles que são injustamente atacados,
e mira constante no ideal de progresso e perfeição humanos,
que a ciência secreta (Gupta-Vidya) revela –
esta é a Escada de Ouro,
cujos degraus pode o Aspirante galgar
até o Templo da Sabedoria Divina.

O Companheiro Maçom tem na Estrela Flamigera um importante referencial para a lembrança constante acerca das virtudes básicas a serem praticadas. Ela também é referida como PentAlfa, palavra formada pelos vocábulos gregos Penta e Alfa, sendo esta última a primeira letra daquele alfabeto. Esta letra inicia as palavras gregas correspondentes a atitudes a serem adotadas pelo Companheiro Maçom em sua caminhada: ATREO (ver), AISTO (ouvir), ADALESQUE (meditar), AGATOPOEIRO (bem agir) e ABAQUIDZI (calar); bem como as palavras gregas que indicam as cinco virtudes que devem ser observadas pelo Companheiro Maçom em sua caminhada: AGANETOS (amável), AGELASOS (benéfico), AGATHOERGOS (incorruptível), ADIAFITHORTOS (casto) e AGNOS (severo).

A amabilidade é virtude irmã da gentileza, cuja prática inspira confiança aos demais e cria laços de irmandade com todos os seres. Ser benéfico é ser confiável e capaz de reparar o mal onde ele estiver. A bondade é agradável a natureza como um todo e se constitui em pré-requisito indispensável para o processo de desvelo de leis ainda inexploradas pela natureza.

A incorruptibilidade está associada inicialmente a um tipo de ecologia interna. Cabe a cada um observar as regras que constituem o respeito próprio, cuidando da saúde física e mental de si mesmo. O princípio hermético da correspondência nos fala que o macrocosmo espelha o microcosmo, assim é importante levarmos os conceitos de ecologia interna para o meio social em que vivemos, observando a aplicabilidade de leis morais entre os nossos pares. A convivência em sociedade depende do respeito mútuo entre os cidadãos e a devida aplicação dessa mesma lei moral aqueles incapazes de coexistir com os demais.

Quando falamos de castidade, nos referimos a uma vida diversa da dos monges ou iogues. Aqui nos referimos de castidade espiritual, a qual nos afasta de uma vida promiscua. Aquele que se deixa ser dominado pelos instintos do corpo deverá meditar acerca da necessidade de autocontrole e focar em interesses mais elevados. O Maçom está em uma via virtuosa e deve se comportar como tal.

Finalmente a severidade não significa dureza nem ausência de doçura, mas se refere a objetividade no cumprimento dos deveres e das regras de conduta maçônicas. Se refere ainda ao compromisso firmado consigo mesmo, de se tornar um buscador e propagador da Verdade. Aquele que é escravo de seus princípios morais é senhor de si mesmo.

Sabemos o quanto é difícil a prática das virtudes nestes tempos ditos modernos, onde existem muitas armadilhas morais e distrações para nos rumarem ao esquecimento do modo de vida maçônico. Sêneca nos diz que podemos combater um vício praticando a virtude que lhe é oposta. Assim, meditando diariamente e fazendo uma autoanálise é possível seguir virtuosamente no processo maçônico.

 

A FILOSOFIA DO COMPANHEIRO

O conceito de Filosofia é amplo, mas pode ser investigado por dois caminhos. O primeiro deles, o conceito clássico e mais antigo, associa a Filosofia com a espiritualidade, pois admite que o ser humano transcende a matéria e busca vias de investigar a sua ligação com os mundos divinos.

A definição clássica da Filosofia, de acordo com o pensamento grego, remete ao conceito de Filosofia Natural, que pode ser mais bem compreendido a partir de uma perspectiva etimológica: philos + sophia, são palavras oriundas do grego e possuem significado que convida à reflexão. Philos, é algo como amor, afinidade, busca, e que se vivencia aquilo que se adquire ou é encontrado. Sophia é sabedoria, mas exprime também o conceito de verdade, beleza, bondade e justiça. Desse ponto de vista o filosofo é aquele que utiliza inicialmente a agudeza racional (o cinzel) para investigar as leis da natureza, fazendo uso da vontade (o malho), visando desvelar o conhecimento oculto. O filosofo também descobre que a reta ação e a intuição são ferramentas indispensáveis à investigação das leis naturais, e que são adquiridas ao longo do caminho de aprendizado.

Segundo este conceito, a divina harmonia da natureza é então objeto de estudo da filosofia, e a sua reverência, por parte do filosofo é o que chamamos de amor ao conhecimento. O filosofo entende que não estuda um objeto apartado de si próprio e que ele também faz parte da natureza, pois a totalidade dinâmica do universo reúne todos os seres, sencientes ou não, em um ritmo de vida Una e Divina.

De acordo com o estado consciencial de cada um, é possível captar ou compreender apenas uma parte do todo manifestado ou imanifestado. Assim, é necessário seguir investigando os conceitos naturais a fim de seguir aperfeiçoando a capacidade da mente em assimilar a universalidade filosófica que nos cerca.

Uma segunda maneira de definir o que é filosofia é associá-la a um método racional de investigação acerca dos princípios e das causas no âmbito de cada ciência. Assim, cada uma das ciências possui um sistema de estudo próprio dos objetos, dos métodos e das conclusões acerca deles. Para uma dinâmica mais mecanicista, essa abordagem possui mais relevância.

Ante a enorme amplitude da ciência moderna, esta abordagem da filosofia se confunde com o método científico, ferramenta indispensável para investigar novas teorias e comprovar hipóteses científicas. E de um ponto de vista acadêmico a filosofia considera basicamente quatro ramos ou vias de investigação acerca do que vem a ser o elemento humano:  psicologia, ou o estudo do espírito humano; a lógica, que é o estudo do método científico; a metafísica, que é o conjunto das conclusões acerca do homem, do universo e de Deus; e a moral, ou aplicação dos usos e costumes em nossa vida diária.

Ragon, um eminente escritor e filosofo maçom, escreve que “em vez de dizer conhecimento (faculdade de conhecer), diz-se filosofia, ou a razão que opera pela sua própria virtude (faculdade) que experimenta, que compara, que retira o fato do seu elemento, para agrupá-lo, generalizá-lo, elevá-lo ao estado de lei, e do estado de lei ao estado de ciência. Toda descoberta provém da filosofia. Ela é, portanto, a primeira ciência, a ciência das ciências. Todo homem genial ou sábio, começou por ser filosofo. A filosofia destrói o erro. Os princípios filosóficos dos antigos que eram a base dos ensinamentos secretos dos grandes mistérios, transmitiram-se, através das idades, pelos iniciados.”

O Companheiro Maçom pode reunir o melhor dos dois conceitos expostos para construir o seu método filosófico de investigação das leis inexploradas da natureza, tomando a si próprio como laboratório, pois possui a sua disposição todo um ferramental intelectual e simbólico para levar adiante o seu trabalho de autoaperfeiçoamento no caminho das virtudes, associado ao polimento da pedra cúbica.

A praticidade filosófica remete a aplicação dos conceitos estudados, tanto no âmbito da simbologia ou da ética maçônicas, quanto na vida diária do maçom. A vontade do maçom de transcender o estado de vida – muitas vezes infeliz – em que se encontra, leva-o a buscar a aplicação da filosofia em sua vida diária, tornando-se um centro referencial de virtude entre seus pares e meio social. Cada maçom é uma pedra que sustenta a sociedade e quanto mais polida puder ser – isto é, quanto mais naturalmente virtuoso puder ser –, mais poderá contribuir para a construção de uma sociedade justa e melhor.

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O SIGNIFICADO DE UM NOME

 

Muitas tradições universais nos falam acerca do nome da divindade. Os mistérios iniciáticos também dão a entender que o neófito submetido a provas acaba por descobrir o nome esotérico de Deus, o que lhe garantirá o acesso à Sua Sabedoria.

Mas afinal do que se trata quando falamos do “nome da divindade”? E o que é um nome?

Quando nos dirigimos a alguém, normalmente o saudamos pelo nome. Esse nome de batismo é geralmente escolhido pelos pais ou tutores e se baseia no conjunto de crenças e afinidades que eles possuíam no momento. A escolha de um nome é permeada pela esperança de sucesso na vida do batizado, sendo que é comum a escolha de nomes imponentes ou expressivos para garantir a grandiosidade do futuro da pessoa. Por outro lado, os nomes também possuem caráter estético e por vezes seguem as tendências culturais de uma época.

Ocorre que somos menos lembrados pela estética ou expressividade de nossos nomes do que pelas obras que fazemos em vida. Alguns que entraram para a história de um determinado grupo social, seja com boas ou más obras, possuem nomes bem comuns, por vezes beirando a irreverência. Logo, nomes, sejam eles escritos ou verbalizados, dificilmente podem ser utilizados como parâmetro final para caracterizar definitivamente alguém.

Alguns podem argumentar que cada nome possui características vibracionais próprias quando são verbalizados, podendo influir psiquicamente sobre aqueles que os ouvem. De fato, isso ocorre na medida em que o agente receptor do som que carrega o nome entenda a mensagem que lhe foi transmitida. E existem algumas classes de sons com características vibracionais específicas – como é o caso dos mantras – que quando corretamente emitidos possuem a capacidade de despertar alguns estados mentais superiores.

Cada ser possui uma carga própria de experiências, que no decurso de miríades de ciclos de existência, seja neste ou em outros planos, vão pouco a pouco construindo o que cada um é de fato. Esta ancestral carga de especificidades e particularidades de cada ser é o que constitui sua real forma. Nossos corpos físicos, astral, energético e mental são apenas um pálido arremedo do princípio imortal que constitui o verdadeiro ser.

O acúmulo de experiências, vivências e boas obras, acumuladas desde tempos remotíssimos são a verdadeira e particular expressão de cada ser. E na ausência de uma definição melhor, podemos dizer que cada ser “vibra” de acordo com uma dada “frequência”, que é o ser em si. Tal frequência então é o verdadeiro “nome” de cada um. Um nome que muda constantemente, pois a cada dia que passa somos diferentes, dado o acúmulo de pequenas e grandes experiências diárias.

Então para conhecer de fato o nome de alguém, não é suficiente olhar o seu RG e ler as palavras que ali estão escritas – não obstante terem sua utilidade social -, para conhecer a natureza vibratória que identifica o ser real, cabe interagir com aquela pessoa. O diálogo de alma para alma é então a única forma de conhecer de fato o nome de alguém.

E quando os iniciados falam acerca do nome de Deus, estão se referindo a este “nome” vibracional que a divindade também possui. E tal nome está em cada um de nós pois somos constituídos em essência da mesma natureza da divindade, e portanto, o aperfeiçoamento espiritual significa “vibrar” cada vez mais próximo da frequência Ideal. O acúmulo de boas obras, de experiências edificantes, do estudo da exegese maçônica, da meditação acerca do que se vai aprendendo, a serenidade mental, tudo então nos aproxima da divindade e de seu estado vibracional.

Não é possível expressar o nome da divindade em palavras, sejam estas escritas ou verbalizadas. Para conhecer o nome de Deus, faz-se necessário se aproximar da divindade com reverência, humildade, por intermédio de reta conduta e com o coração pleno de sinceridade. Intentando vibrar em consonância com o mundo divino, cada vez mais vivendo naquela atmosfera, seremos cada vez mais participes do conhecimento do nome de Deus.

Não é uma tarefa fácil, pois depreende a jornada do desapego e do contato intuitivo com nossas faculdades superiores. Alguns talvez encarem tal jornada como impossível, transcendendo em muito suas potencialidades aparentes. Mas lembremos que todos estamos em uma jornada de aprendizado, sendo por vezes suficiente que saibamos cumprir com o nosso dever perante nossa própria consciência. Todos temos um propósito, e os deuses conduzem corretamente nossas necessidades de aprendizado.

Chuang-Tzu, um sábio chinês, escreveu o seguinte conto:

Um carpinteiro ambulante, chamado Stone, viu no decorrer das suas viagens, em um campo próximo de um altar rústico, um velho e gigantesco carvalho. Disse a seu aprendiz, que admirava o carvalho: “Esta árvore não tem qualquer utilidade. Se quiséssemos fazer um barco com sua madeira, ele logo apodreceria; se quiséssemos usá-la para ferramentas, elas logo se haviam de quebrar. Para nada serve esta árvore, por isso chegou a ficar assim tão velha.”

 Mas naquela mesma noite, numa hospedaria, o velho carvalho apareceu em sonhos ao carpinteiro e disse-lhe:

 “Por que você me compara às árvores cultivadas, como o pilriteiro, a pereira, a laranjeira, a macieira e todas as outras árvores frutíferas? Antes de amadurecerem os seus frutos as pessoas já as atacam e violentam quebrando-lhes os galhos e arrancando-lhes os ramos. As dádivas que trazem só lhes acarretam o mal, impedindo-as de viver integralmente, até o fim, a sua existência natural. É o que acontece em todos os lugares; por isso esforço me, há tanto tempo, para permanecer completamente inútil. Pobre mortal! Crês que se eu tivesse servido para alguma coisa teria chegado a esta altura? Além disso, tu e eu somos ambos criaturas e como pode uma criatura erigir-se em juiz de outra? Inútil mortal, que sabes a respeito da inutilidade das árvores?”

O carpinteiro acordou e pôs-se a meditar sobre o sonho. Mais tarde, quando o aprendiz perguntou-lhe: por que só havia aquela árvore a proteger o altar rústico, respondeu-lhe: “Cala-te! Não falemos mais nisso! A árvore nasceu aqui propositadamente, porque em qualquer outro lugar acabaria por ser maltratada. Se não fosse a árvore do altar rústico talvez já a tivessem derrubado.”

O Maçom que está na senda iniciática, grau após grau, estudando novos aspectos da tradição maçônica e explorando novos ramos do autoconhecimento, após anos de estudo e pesquisa, talvez se frustre ante o enorme cabedal de conhecimentos que encontra pelo caminho, que podem gerar mais dúvidas e confusão do que respostas.

Muitos acabam adormecendo e preferindo voltar-se completamente aos interesses profanos, questionando a utilidade prática do esquema referencial Maçônico. Também se sentem pequenos e incapazes de compreender a totalidade do Templo.

Porém não esqueçamos da lição do carvalho, saibamos a importância que temos ante a custódia do Templo – seja ele externo ou interno – e ante a preservação da tradição Maçônica. E não esqueçamos a máxima: “Honrai as Verdades com a Prática”

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O SIMBOLISMO HERMÉTICO DA LUA CHEIA

Em várias tradições culturais mundo afora, os símbolos têm uma função central na interpretação do Universo e da vida. Dentre os diversos elementos simbólicos observados, a Lua ocupa uma posição de destaque, haja vista que, junto ao Sol, representa um arquétipo da divindade gravado desde tempos imemoriais na psique humana. A Lua Cheia, em particular, representa um simbolismo mais profundo. Cercada de poder e significado, é vista como um momento de ápice de revelações e transmutação de natureza espiritual.

Na tradição hermética, a Lua é considerada um tipo de reflexo da luz solar, representação da divindade, ou da essência do espírito puro e criador. Ao estar completamente iluminada, expressa o máximo de tal reflexão, sendo então indicativo do ápice do conhecimento espiritual, que neste momento está plenamente acessível à consciência humana. O hermetismo enfatiza que o mundo material é apenas um reflexo imperfeito do mundo espiritual. Analogamente a Lua Cheia como reflexo do Sol, representa a plenitude da expressão divina no mundo material.

A noite em si apresenta simbolismos diversos. Um deles a relaciona as trevas da ignorância, na qual o ser humano, afastado da consciência de sua verdadeira natureza espiritual, desconhece a sua verdadeira origem. Então cerimonias realizadas durante a Lua Cheia – presentes em várias tradições – tencionam despertar a consciência daqueles que a realizam, o despertar da natureza espiritual nas trevas da ignorância.

Tal simbolismo apresenta e traduz a ideia de que o ser humano, enquanto se esforça num processo de purificação e evolução interna, se torna mais capaz de ele próprio refletir a Luz Divina na matéria, ou ainda uma luminosa postura virtuosa no meio em que exerce suas ações. A metáfora da Lua Cheia indica, portanto, o estado em que o buscador da verdade se encontra em plena comunhão com o que é divino em si, sendo capaz de refletir, ou transmitir, a sabedoria em seus atos ao mundo material.

As fases que a Lua percorre, desde o estado de nova até cheia, representam a jornada do buscador da verdade, que desde as fases de escuridão e sublimação, atinge o ponto máximo de iluminação e conhecimento. E como a natureza é organizada por ciclos espirais ascendentes, após a fase de Cheia a Lua representa um ocaso de hibernação para iniciar um novo ciclo. Assim o adepto deve ter a consciência de que após um ciclo de aprendizado pleno na ação efetiva, vem uma fase de autoanálise e recomeço de um novo ciclo de aprendizado.

Mircea Eliade escreve que a Lua é um

“astro que cresce, decresce e desaparece, cuja vida depende da lei universal do vir-a-ser, do nascimento e da morte… a lua conhece uma história patética, semelhante à do homem… mas sua morte nunca é definitiva… Este eterno retorno às suas formas iniciais, esta periodicidade sem fim, fazem com que a Lua seja por excelência o astro dos ritmos da vida… Ela controla todos os planos cósmicos regidos pela lei do vir-a-ser cíclico: águas chuva, vegetação, fertilidade…” (Tratado da História das Religiões)

 Sendo também um símbolo dos ritmos biológicos, ela estabelece um parâmetro cultural importante, que expressa o tempo vivo, do qual ela é a medida, por suas fases regulares. Todos os ciclos regidos pela Lua, todas essas simetrias temporais e periódicas, foram percebidas intuitivamente pelos seres, desde os primórdios, marcando um dos primeiros parâmetros naturais de identificação do homem com os ciclos arquetípicos que regem e regulam a natureza.

Por três noites, durante a fase de nova, a Lua tem seu brilho anulado. Neste período ela simboliza aquele que está morto, que desapareceu do mundo manifestado e que voltará a vida após um período de renovação, como já dito. Aqui ela se identifica com o neófito em provação, com o aprendiz que desce aos submundos obscuros em busca da luz iniciática, ou com o Mestre que foi morto e oculto e desperta em um novo mundo.

Identificando-se com o que é frio e indireto, a Lua também simboliza o conhecimento teórico, antítese das ações práticas. Aqui a Lua se relaciona ao simbolismo da coruja, animal noturno e vigilante, capaz de ver sob as trevas, e que expressa simbolicamente as qualidades da razão.

 O elemento água se relaciona a Lua. Estatisticamente as chuvas vem em maior precipitação durante as fases de mudança, especificamente sob a cheia. Nesta fase, isso se processa devido a um aumento da pressão barométrica, o que resulta em maior capacidade da atmosfera em reter humidade, e consequentemente mais chuva. Esta relação profunda com a água, percebida desde os primórdios, relaciona a Lua com a fauna e flora aquáticas, com a produção de água, que irriga e floresce as colheitas e, consequentemente, com a fecundidade. As águas primordiais simbolizam o oceano de onde procede o mundo manifestado, o que justifica a Lua símbolo da fecundidade. Em algumas tradições a Lua também é chamada de Soma – a taça – que contém o líquido criador da imortalidade. Aqui fazemos relação da Lua com o útero materno, que contém a capacidade de gerar a manifestação do espírito na matéria.

As divindades femininas possuíam forte importância junto as tradições culturais antigas, e a Lua tem forte relação com o princípio feminino representado pelas deusas, tais como Isis, no Egito antigo, Artemis na Grécia, e Diana em Roma, dentre muitas outras. Nesse contexto, a Lua Cheia é o símbolo do auge do poder feminino, expressando fertilidade, intuição e sabedoria. Por séculos os cultos solares prevaleceram e a figura do Deus-Pai ofuscou a importância que o sagrado feminino deve ter para que haja o devido equilíbrio entre os opostos na natureza e na psique humana em particular. E como vivemos em um universo regido pela dualidade, está deve se fazer presente na construção do ser integrado à natureza. Para a tradição hermética, este equilíbrio é muito valorizado. Durante a Lua Cheia o princípio feminino está em sua maior força e na Lua Nova o que prevalece é o masculino. Muitas manifestações religiosas resgatam a presença da mãe do mundo como fator imprescindível na formação do ser integral.

Muitas tradições relacionam a Lua com alguma divindade ou com um ciclo natural, expressando positividade ou negatividade. No hinduísmo ela é o emblema de Shiva, a divindade transformadora, e regenerativa do universo. Ela também é relacionada a Diana e Hécate (na tradição romana antiga), que se identificam, respectivamente, às portas do céu e do inferno, conforme a tradição do deus Janos, que tem suas faces voltadas aos opostos. Para os chineses a Lua é relacionada ao princípio feminino Yin, símbolo da fecundidade. Entre os povos pré-colombianos ela assume muitos aspectos, mas no geral a relacionavam a criação e ao princípio formador das águas, a fecundidade e a proteção do princípio feminino em todas as coisas.

Em algumas culturas, no entanto a Lua é vista como uma divindade de natureza masculina. Otto Zerries, em sua obra “Os princípios arcaicos dos povos sul-americanos”, cita o caso dos índios gês do Brasil, para os quais a Lua é uma divindade de natureza masculina, e que não possui nenhuma relação com o Sol. Para alguns povos semitas a Lua é do sexo masculino e o Sol feminino, haja vista que algumas tribos nômades costumavam viajar a noite e tinham a Lua como seu guia e protetor. Inclusive a mudança periódica lunar inspirou os Judeus a adotá-la como seu símbolo, haja vista que durante muitos milênios foram um povo errante e que muitas vezes precisou modificar seu rumo migratório com regularidade, tal como a Lua o faz em seu deslocamento zodiacal anual.

O poeta Rumi escreve: “O Profeta reflete Deus como a Lua reflete a Luz do Sol. Também o místico que vive do brilho de Deus, se parece com a Lua, pela qual se guiam os peregrinos de noite”; sendo que na tradição islâmica a Lua adquire importante simbolismo, como um dos signos do poder de Alá e do cânone islâmico. Ela representa também a morte e a ressurreição (o crescente lunar).

A tradição hermética também considera a Lua Cheia como manifestação do inconsciente, da intuição e do lado mais emocional da psique humana. Indica também o momento de maior receptividade espiritual, em que as mensagens intuitivas e simbólicas do inconsciente se tornam mais claras. Neste período ocorre a gestação das ideias e da sabedoria oculta, que tende a se revelar de forma plena. A tradição celta acreditava que dormir ao relento sob a Lua Cheia, potencializa o contato com o mundo espiritual, daí a tradição de se construírem “torres de sonho”, onde o adepto dormitava e na alvorada recebia importantes ensinamentos e presságios desde o mundo sutil.

Outro aspecto interessante é o que relaciona a superfície lunar a todo um bestiário, segundo o que dita a imaginação de diferentes povos. Assim, cães, lebres, raposas, jaguares, ou até mesmo figuras humanas são indicadas como presentes na superfície lunar. Durante os eclipses lunares – quando a sombra da Terra obscurece a Lua – algumas culturas acreditam que a Lua está sendo devorada por alguma entidade extracósmica, razão pela qual fazem enorme estardalhaço para afugentar a criatura (este que escreve presenciou manifestações desse tipo, em sua já longínqua infância).

A Lua faz a volta completa no ciclo zodiacal em 28 dias. Assim, inicialmente a horoscopia era realizada levando em consideração o ciclo lunar, ao contrário da moderna astrologia, a qual considera o ciclo do Sol no zodíaco.

Este ciclo de 28 dias é considerado fator de suma importância em muitas tradições também. Sidarta Gautama meditou por 28 dias sob a figueira de Bodhi antes de atingir a iluminação do nirvana. Também entre os brâmanes existem 28 estados angélicos antes de se atingir a plenitude. Para os hebreus, as 14 falanges da mão direita têm relação com a Lua crescente e serve para abençoar, já as 14 da esquerda se relacionam com a mão esquerda e a lua minguante, simbolizando as maldições que esta pode lançar. As duas mãos juntas, com suas 28 falanges, são o símbolo do ciclo lunar.

O ciclo lunar remete aos de nascimento, crescimento, declínio, morte e renascimento. Para a tradição hermética o ciclo dos seres também se processa pela antítese entre o crescimento espiritual e escuridão e eventualmente iluminação. A Lua Cheia é identificada com a culminância desses ciclos, como se fosse um ponto de equilíbrio entre as forças opostas do universo.

As práticas alquímicas, muito presentes na tradição hermética tratam a Lua Cheia como a conclusão da obra, o instante em que o alquimista alcança a transmutação final. Assim a obra alquímica e o ciclo lunar se dariam da seguinte forma: a Lua Minguante e a Lua Nova estão interligadas ao “nigredo” ou a fase negra da decomposição alquímica. A Lua Crescente representa o “albedo” e a “citrinitas”, a fase de purificação e da iluminação; e por fim a Lua Cheia simboliza o “rubedo”, a fase final, quando a transmutação ocorre e a matéria é efetivamente transformada no ouro espiritual.

Luz e Sombra: Integração dos Opostos

 O universo apresenta uma constante tensão entre opostos. A luz e a escuridão, a consciência vigílica e o inconsciente, o espírito e a matéria são exemplos de onde podemos intuir esse embate. Quando a Lua Cheia ilumina o céu noturno, isso por si só constitui uma metáfora significativa da integração desses opostos, que temporariamente se tornam um. Esta harmonia temporária deverá ser definitiva quando o processo de autoaperfeiçoamento se concretizar, naquele que busca a verdade. É quando ocorrera a sublimação espiritual e a união do microcosmo humano com o macrocosmo universal. Esta união se constitui em um processo interno, que se dará no âmbito consciencial de cada um, e que encontrara a divindade dentro de si, evocando um dos princípios herméticos elementares: o da correspondência.

O processo hermético passa por esse reconhecimento de que a luz não pode existir sem o seu oposto. Desta forma, a Lua Cheia se torna um símbolo desse processo de unificação, no qual o sábio reconhece tanto os seus aspectos luminosos quanto os sombrios, de sua própria natureza. Então o brilho da Lua Cheia revela ao iniciado a escuridão que existe ao seu redor, indicando o conhecimento que ilumina as profundezas do inconsciente.

No simbolismo Maçônico, a Lua e o Sol são equilibrados pelo Venerável Mestre, fator de equanimidade entre os opostos, e que é o fiel da balança da justiça junto as antíteses, e que conduz a harmonia do Templo. Outro fator importante remete aos trabalhos maçônicos no âmbito do silêncio, da iluminação indireta, do mistério, e do equilíbrio entre luz e sombra.

Tal como no processo de transmutação alquímica, a Lua representa o processo de sublimação do Maçom. Ela não somente conduz o estudioso no caminho da iluminação, mas também indica a importância da postura intuitiva, silenciosa e reflexiva que todos devem assumir quando em Loja, o que auxilia na criação do templo interno que cada Maçom constrói em sua jornada.

Conclusão

 O ato de contemplar a Lua, livre das amarras da razão, deixando fluir apenas a intuição, nos proporciona epifanias profundas acerca da uma realidade oculta e muito particular a cada um. Este assombro ante a grandiosidade da criação fala direto a nossa alma imortal, e pode contribuir para a união e harmonia em cada ser, que é necessária para a construção do Templo Interno. Ali, neste mundo de percepção diferenciada, o sábio buscador da verdade encontra iluminação e transmutação, ao ouro dos filósofos.

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ALEXANDER SCRIABIN (1870-1915)

(Sylvia Cranston)

No seu prefácio ao livro de Faubion Bowers, The New Scriabin, o notável pianista russo Vladimir Ashkenazy escreveu:

“Considero Scriabin um dos maiores compositores… Sua música tem um idealismo único… A base do seu pensamento era uma fé e lealdade indestrutíveis à arte como meio de elevar o espírito humano e de mostrar a luz a bondade e a verdade. Embora não possamos dizer que sem compreender sua filosofia é impossível compreender a sua música, nós penetraremos mais profundamente na sua música se estudarmos aquilo que motivava Scriabin. Não podemos separar o homem-filósofo e o compositor de uma música tão bela.”

Qual era, então, a filosofia de Scriabin? Boris Schloezer, o biógrafo russo do compositor revela que a teosofia foi a única influência externa muito forte que ele sofreu. Na biografia em dois volumes de Faubion Bowers sobre Scriabin, encontramos informação detalhada a esse respeito.

De acordo com o relato de Bowers, no começo do século, Scriabin leu a tradução francesa de “A Chave Para a Teosofia”, de Helena Blavatsky (HPB), e escreveu nessa ocasião (5 de maio de 1905): “A Chave Para a Teosofia é um livro notável. Você ficará assombrado ao ver como ele se aproxima do meu pensamento”. Bowers escreve que “a partir deste momento, mais e mais amigos e seguidores dele foram atraidos para a Sociedade Teosófica”. Os seus colegas mencionam que, ao conversar, Scriabin citava a todo momento assuntos teosóficos e a personalidade de Blavatsky. Uma tradução em francês de A Doutrina Secreta era considerada um dos sens objetos mais preciosos.

Em 1922, o apartamento de Scriabin na Rússia foi transformado em museu do estado e restaurado de modo a ficar idêntico a como era durante a sua vida. Os seus livros, incluindo A Doutrina Secreta, foram localizados e readquiridos. Esse apartamento, diz Bowers, tinha uma tremenda influência na inspiração de jovens cmpositores e era “um local de reunião para a juventude”.

Após o seu contato com a teosofia, o trabalho de Scriabin passou a ter um forte tom místico. O musicólogo Gerald Abraham compara o primeiro trabalho orquestral do compositor, um concerto para piano composto em 1896-97, com a maior composição de Scriabin, sua quinta sinfonia, Prometheus, escrita em 1909-10, e comenta: “É difícil acreditar que em treze anos um compositor pudesse ter evoluido de um concerto elegante, gracioso, com um estilo semelhante ao de Chopin, Para um trabalho considerado nos seus dias como pertencendo à primeira fila da vanguarda renovadora”.

Bowers observa:

“Tem havido poucos compositores especificamente misticos como Scriabin. As contrapartes mais significativas não são encontradas na música, mas na poesia, com William Blake, ou na pintura, com Nicholas Roerich… A filosofia de Scriabin necessitava acima de tudo ser transubstanciada em música.”

O compositor desejava despertar novamente os seres humanos para os seus eus essenciais. Scriabin escreveu que “nos mistérios da antiguidade havia uma transfiguracão real, segredos e santidades reais”, mas “todos os nossos pequenos santos de hoje esqueceram completamente os seus antigos poderes”. Quando esses “pequenos santos” tentavam atacar Blavatsky e qualificá-la de fraudulenta, Scriabin defendia-a dizendo: “Todas as pessoas realmente grandes estão sujeitas a esse tipo de calúnia e ‘ignomínia’”.

Em 1987, a biografia escrita por Schloezer sobre Scriabin foi publicada pela primeira vez em inglês. Entre as muitas referências feitas à teosofia e a HPB em todo livro, Schloezer escreve:

“[Scriabin] sentia que seu próprio desenvolvimento devia-se muito à obra A Doutrina Secreta, da sra. Blavatsky; na verdade, ele sentiu uma admiração tremenda pela sra. Blavatsky até o fim da sua vida. Ele era particularmente fascinado pela coragem dela ao escrever uma síntese tão comparava à grandeza dos dramas musicais de Wagner… A visão teosófica do mundo serviu como incentivo para o seu próprio trabalho. “Eu não discutirei com você a verdade da teosofia”, disse ele a [Schloezer] em Moscou,“mas eu sei que as idéias da sra. Blavatsky auxiliaram-me no trabalho e deram-me forcas para cumprir a minha tarefa”.