A RESSURREIÇÃO
by Immanuel
Simbolicamente a ressurreição é um dos mistérios maiores da expressão da divindade. Em todas as tradições o ato de renascer é algo somente compreensível e pertencente aos planos superiores e inefáveis. Ela transcende a qualquer tipo de racionalismo e não pode ser explicado a partir de intelecções humanas comuns.
Um mito grego ilustra bem isso, ao contar como Asclépio, a divindade da medicina, filho de Apolo e educado pelo centauro Quiron, foi fulminado por Zeus após descobrir o segredo da ressurreição.
Outro simbolismo marcante é o da serpente associado a imortalidade. Nas tradições orientais ela é a guardiã dos mistérios da vida e da morte e na tradição judaico-cristã a serpente enlaçada na árvore da vida segreda aos ouvidos de Eva os mistérios divinos acerca do bem e do mal. Por tal crime a serpente é condenada a rastejar sobre a terra e o primeiro casal é penalizado com a perda da imortalidade.
A serpente Ouroboros, dentro de sua vasta simbologia, também é associada a ressurreição, e na Maçonaria se relaciona à eternidade e ao renascimento nos planos superiores onde a Divina Sabedoria do Grande Arquiteto do Universo é dada a conhecer ao iniciado, desde que este aprenda a ler os mistérios do seu Templo Interno, reconhecendo a infinitude de si mesmo. Também na Maçonaria aprendemos com este importante símbolo, que a Lei do Ciclos a tudo regula e norteia.
Os mistérios gregos, em especial o de Elêusius, e as cerimônias fúnebres do Egito Antigo, dão forte testemunho acerca da relação humana com o desejo de imortalidade e ressurreição, sendo que o neófito ou o morto eram cerimonialmente preparados para transitar por mundos superiores ou de grandes provações, até ressurgirem como espíritos elevados e transcendendo o ciclo de vida e morte. Nas grandes e pequenas iniciações, temos a morte e a ressurreição como temas patentes, e que eram ansiosamente esperadas pelos iniciados. Estes não sabiam o que iriam encontrar durante o processo iniciático, mas dele saiam sob forte impressão espiritual, e jurados agora como participes do mundo transcendente.
A ressurreição, no entanto, está fora do alcance do homem comum, e somente pode ser vivenciado a partir da experiência iniciática do renascimento em um plano de existência onde a consciência partilha das mesmas energias da divindade. Esta ressurreição é o símbolo máximo de transcendência e supremacia sobre a vida e a morte, que o homem comum só pode conceber se ascender até as esferas de consciência que pertencem somente a Deus.
A representação do infinito, como vimos, pode ser expressa pela serpente circular. Isso relaciona Deus à circunferência, que é um símbolo não redutível a um comprimento exato – matematicamente o comprimento da circunferência é expresso por 2πR (sendo π um número irracional, portanto infinito). O compasso é uma ferramenta maçônica utilizada para traçar inúmeras circunferências, de diferentes diâmetros equivalentes, então expressa o potencial do Maçom em entender os mistérios da divindade, e, portanto, de conceber o que advém após a ressurreição iniciática a que o Mestre Maçom vivencia.
O Maçom passa por um processo de despertar da consciência, quando sua percepção dos mundos sublimes é despertada pelo iniciador. O machado, o malhete ou a espada de dois gumes são instrumentos do despertar da consciência ou da visão do olho divino em cada neófito. Esta percepção mística surge no momento da morte iniciática, quando a grande lucidez é despertada quando os veículos inferiores da carne são abandonados. O neófito transita por então por mundos interiores a muito não vistos e que lhe parecem desconhecidos. No entanto a ilusão do desconhecido é aparente, pois se trata apenas de uma senda de purificação.
O recanto tumular do neófito é encimado por um ramo de acácia, planta sagrada para a Maçonaria. A arca da aliança é feita de madeira de acácia, assim como a coroa de espinhos do Cristo. Essa planta de duros espinhos é o símbolo da ressurreição e da imortalidade, pois “é preciso saber morrer, a fim de nascer para a imortalidade” escreveu Gerard de Nerval ao se referir ao mito da morte de Hiram. Da mesma forma, a coroa de espinhos do Cristo se assemelha aos raios esplendorosos do Sol.
A ressurreição é um processo em que o iniciador conduz o neófito até uma realidade em que os iniciados compartilham os frutos dourados do Sol, onde os espinhos e as pedras do caminho que conduz a Deus são agora vistos como elementos indispensáveis no processo de alquimia interior, pois as duras provas trazem as graças divinas.
O Mestre Maçom verdadeiramente ressurrecto é aquele que aprendeu a importância de transcender a mortalidade, abandonando os vícios e portando-se como se estivesse na presença da divindade, pois agora quem o acompanha é o alento divino, que merece toda a reverência, na forma do autorrespeito e do portar civilizado ante o universo.