A MARCHA

by Immanuel

A senda Maçônica avança por passos, haja vista que paulatinamente se segue construindo um entendimento cada vez mais assertivo acerca do Templo e do trabalho interno. Um dos simbolismos mais significativos, dentro do ritual maçônico, é o da marcha ou avanço, em cada um dos graus simbólicos.

As marchas ou passos do grau, são basilares em alguns ritos, e possuem sua estruturação iniciática de acordo com o que determina a ritualística. Este avanço, desde o ocidente até o oriente, desde as trevas até a luz, ou desde o mundo profano e manifestado onde se encontra o neófito, até o mundo divino e arquetípico, representa a perfeição que se adquire no ato de avançar na senda iniciática. Em cada grau a forma de avançar adquire certa complexidade, representando os novos desafios a serem encarados, e as novas linhas de entendimento iniciático acerca dos mistérios maçônicos.

Quando da iniciação, somos apresentados aos três passos do Aprendiz Maçom, que expressam a intenção de praticar o reto agir, manifestando-se no cultivo de três virtudes: retidão, decisão e discernimento. Estes passos se dão em reta devido ao Aprendiz precisar ser conduzido, e a ter recebido mui fraca luz, e por fim ainda não reunir condições de trilhar a senda sozinho. Acaso resolver trilhar através da escuridão sem a adequada orientação, poderá se perder em meio as trevas. Dada a necessidade de ser conduzido, o cultivo da humildade e do silêncio são condições necessárias nesta caminhada. Não somente no Grau de Aprendiz, mas em todos os demais, a esquadria está presente para nos lembrar da conduta reta de caráter, que acompanha o Maçom.

Após avançar na senda, cumpridos os três anos simbólicos de aprendizado, o Aprendiz pode ser elevado ao segundo grau. Aqui, passando da perpendicular ao nível, o agora Companheiro Maçom poderá trilhar por todo o ocidente, desde o Sul até o Norte. Dessa forma, a maneira incerta de seus passos relaciona-se a uma escada em forma de caracol que o encaminhara futuramente até a Câmara do Meio. Aqui o Companheiro Maçom está se forjando como indivíduo, e o percurso acidentado e incerto, representa um tipo de espiral ascendente. Os cinco passos totais correspondem a idade simbólica do Companheiro, pois aos dois incertos somam-se os três do Aprendiz. Os três passos iniciais terminam no equador do templo, e a partir de então o Companheiro pode se deslocar por entre as colunas, buscando aprendizado por todo o Ocidente, e por fim retornar ao equador, onde lhe é dada a oportunidade de se projetar rumo a Luz. Findo o estágio, o Companheiro denota que agora é senhor dos caminhos ocidentais, podendo agora partir rumo a Luz do Oriente. Mas para tanto deverá ser conhecedor das Leis da Natureza.

Na plenitude maçônica, ao final da senda iniciática, o Companheiro pode exaltar ao Grau de Mestre Maçom. Preparado para a divina exaltação, o Companheiro agora é o senhor do Ocidente, dos pontos cardeais, e conhece os segredos do Equador, por isso inicia com a marcha do Aprendiz e após a do Companheiro. A ele são apresentados os passos sagrados do Mestre, devendo entender e conhecer os ciclos de nascimento e morte da natureza, a qual se expressa em ciclos, como bem sabemos.

Os passos do Mestre acompanham a trajetória da eclíptica ao longo do ano. Em Astronomia, a eclíptica é uma das linhas basilares da esfera celeste, pois representa a trajetória aparente do Sol ao longo do ano. A cada amanhecer, por 365 dias, observamos que o Sol aponta em uma posição diferente, devido à inclinação do eixo de rotação da Terra. Sempre após um ciclo ele retorna à posição inicial, e este é fundamento de qualquer calendário solar. Este fato também define as estações do ano em ambos os hemisférios. Outra linha importante é a do equador celeste, que nada mais é que a projeção do equador terrestre na esfera celeste. O equador celeste acompanha o eixo leste oeste de nossa orientação geográfica usual. É fácil localizá-lo, pois atravessa algumas constelações importantes – como o cinturão de Orion, por exemplo. O momento ou data em que a eclíptica cruza o equador celeste define o que chamamos de equinócios, que podem ser de primavera ou outono, a depender do hemisfério – normalmente se dão em 20 ou 21 de março ou setembro. Já quando a eclíptica se afasta em cerca de 23º27’ do equador celeste, atingindo o seu ponto máximo de afastamento, temos os solstícios, que podem ser de inverno ou verão, a depender também do hemisfério, normalmente se dando em 20 ou 21 de junho ou dezembro.

Estes apontamentos astronômicos foram necessários para esclarecer que a marcha do Mestre imita o movimento da eclíptica. Nesse sentido, Hiram representa o Sol, que morre no inverno deixando a Terra infértil e viúva. Os deslocamentos, ora em direção a coluna do sul, ora em direção a do norte, são os pontos solsticiais de afastamento. Ao cruzar o meridiano, com sua marcha o Mestre denota a intenção de vivificar a Terra viúva, com o renascimento simbólico na primavera, durante os equinócios.

Finalmente o Mestre, agora senhor dos mistérios da vida e da morte, e conhecedor das Leis dos ciclos da Natureza, pode estacionar, por fim, sobre o equador e assim preparar-se para adentrar ao Oriente da Loja, onde a suprema sabedoria lhe é agora compreensível. Associando dessa forma, a marcha aos ciclos da natureza, podemos verificar a presença das idades conscienciais do homem, em seu processo de evolução desde a infância, passando pela juventude, maturidade, velhice e por fim morte. Mas esta última corresponde a um novo ciclo de aprendizado, que se inicia ao alvorecer, do Maçom, no Oriente.