A CÂMARA DO MEIO
by Immanuel
Uma Câmara, em Maçonaria, possui um significado amplo, que se atribui às diversas modalidade de Oficinas, em seus modos de trabalho, sejam eles em graus simbólicos, filosóficos ou em atividades administrativas. O que entendemos por Câmara do Meio, é a oficina na qual somente os Mestres exercem seu ofício e recebem seus salários. É o local onde os mistérios do mestrado são discutidos, ensinados e aperfeiçoados, e as leis inexploradas da natureza investigadas. Neste nível de trabalho são iniciados os grandes mistérios maçônicos.
Sobre a Câmara do Meio, Oswald Wirth escreve que é “a cova da segunda morte, (…) a caverna onde se trama a eterna conspiração reconstrutiva, o antro de Mitra onde a luz desaparecida renasce para reaparecer mais brilhante”, sendo o lugar “interior e oculto, inacessível, salvo para os Iniciados dignos das supremas revelações”. Nesta cripta, onde reina o silêncio, as iniciações internas são realizadas e as transformações alquímicas se processam. Por ser um local recôndito e inacessível aos olhos profanos e aos graus iniciais, não é possível descrevê-lo com olhos comuns. É necessário que a compreensão deste local transcenda o juízo comum e seja realizado por intermédio da intuição simbólica, visto que ela se desdobra por outros planos de existência. Portanto, assim procederemos.
É na Câmara do Meio que se dá a Iniciação ao 3º Grau, sendo um lugar oculto e inacessível, onde o Companheiro Maçom morre em definitivo e, sepultado, renasce para a sublime vida espiritual. Neste local um véu oculto recai sobre o neófito, preservando a sublimação alquímica que se processa no interior do átrio do coração. Renascido o Mestre Hiram, o Iniciado é transformado no luminoso obreiro do universo, no homem real, que preserva sua individualidade, porém reconhece a sua integração a cadeia universal que reúne a todos os obreiros guardiães da Verdade. Na palavra de Jules Boucher: “esta individuação é própria da Maçonaria, cada Obediência tem o seu caráter particular; cada Loja tem o seu espírito especial; cada Maçom deve conservar e desenvolver as suas qualidades fundamentais. A Loja é, para o Maçom, uma escola na qual pode se expressar livremente perante um auditório atento e benevolente. A confrontação das ideias faz-se sem choques e com cortesia”.
As tradições filosóficas e esotéricas universais concordam que todos somos parte de uma cadeia universal que se congrega e segue transformando e aperfeiçoando a Alma Universal da Divindade. E segundo Ragon, a Câmara do Meio “é a imagem do grande laboratório em que se operam estas transformações infinitas”. Um laboratório alquímico onde são realizadas as sublimes lapidações, e onde os Mestres continuam o aperfeiçoamento e a partilha de suas descobertas.
Imerso em seus pensamentos, o Mestre Maçom afasta toda a turbulência mental, e assim restando somente o negrume dos sublimes mistérios, ingressa na Câmara do Meio. Apenas lhe acompanha o pranto argênteo pela perda do Mestre. Porém o pranto não é de desespero desmedido, mas expressa a consternação sublime por aquele que parte rumo as esferas celestiais.
A Câmara do Meio é negra, pois esta é a cor da renúncia a vaidade deste mundo. Representa o mundo subterrâneo, onde se efetua a regeneração da luz, sendo que os Egípcios o consideravam o símbolo da fecundidade, pois é a cor da terra fértil e das nuvens de chuva, e do oceano profundo de onde as formas primordiais emergem. As grandes deusas da fertilidade são normalmente virgens negras. Nos hinos Órficos lemos “Cantarei a noite, mãe dos deuses e dos homens, à noite, origem de todas as coisas criadas, e nós a chamaremos de Vênus”, pois negra é a cor do útero materno, onde a vida é operada e se processa. As transformações alquímicas iniciam com a Obra em Negro, que é um retorno ao caos indiferenciado, e vão culminar com a Obra em Vermelho da sublime libertação espiritual. Este caminho noturno dos neófitos vai culminar com a vermelhidão da aurora.
O Crânio representa a sede do pensamento, e para muitas culturas europeias e asiáticas, ele representa o universo manifestado, ou a abobada celeste. Assim, a Câmara do Meio também representa o grande crânio da divindade universal, e estando nele também estamos dentro das manifestações mentais da divindade. No crânio também se encontram a concentração das energias vitais que estão no cume do corpo, sendo a representação da sublime ponte entre o mundo manifestado e as esferas celestiais. É a representação da iniciação, pois simboliza a morte corporal como prelúdio de um renascimento na esfera espiritual, sendo que para os alquimistas o crânio é o putrefactio e a tumba o atanor, que transforma a matéria perecível em ouro. Duas tíbias cruzadas são a oposição dentro da natureza, que o espírito harmoniza para a conquista da perfeição espiritual.
Dez lágrimas argentinas ou brancas dão testemunho da dor e morrem se evaporando aos poucos. Presentes são o luto e após evaporarem transmutam-se em âmbar celestial ou no mais puro sentimento. Ao secarem as lágrimas, o neófito reúne condições de desvendar os mais profundos mistérios geométricos, avançando na compreensão de seus mistérios. Para o Egito antigo os ossos dos deuses eram de prata e sua carne de ouro. Porém a prata é o símbolo da sabedoria e se une ao amor divino, que é dourado.
Assim, os mistérios da Câmara do Meio precisam ser vivenciados e absorvidos no silencio tumular do processo interno de meditação que é recomendado ao Mestre Maçom praticar. É necessário que o Mestre traga para o sagrado templo interior a vivência diária do simbolismo da Câmara do Meio.