AS FERRAMENTAS DO MESTRE

by Immanuel

O potencial do espírito é praticamente infinito. O processo de manifestação dele neste mundo é permeado por um contínuo aperfeiçoamento, ou uma presença maior enquanto prossegue vivenciando experiências quotidianamente. Por bilhões de anos os espíritos seguem construindo sua maneira de interação com o mundo manifestado, e o artefato mental e intelectual de que dispõe, neste processo interativo, segue cada vez mais se aperfeiçoando.

O ser humano, bem como alguns outros seres, desenvolveu uma precisão notável ao lidar com os diversos materiais que o cercam. É só observar a capacidade de nossas mãos para lidar com tarefas que requeiram grande precisão. O cirurgião em seu ofício, por exemplo, faz uso de suas mãos em processos que requerem precisão milimétrica. A inteligência e a maturidade intelectual vêm acompanhadas da agudeza com que lidamos com a plasmação ou transformação dos objetos.

Com o tempo, os seres percebem que seus corpos são limitados, porém sua inteligência não. O intelecto reconhece que pode utilizar a matéria das mais diversas formas. Esta descoberta é uma reminiscência de sua vivência nas esferas celestiais, haja vista que lá, o mundo mental permitia plasticidade imediata sobre as formas. Aqui, no mundo da dureza manifestada, o Intelecto busca soluções para imitar a capacidade perdida de a tudo modificar. Só é possível então, a priori, submeter as formas materiais com o auxílio de ferramentas, sendo estas a extensão do intelecto agente.

Toda a capacidade humana de transformar o mundo manifestado se dá por intermédio do ferramental criado desde as eras históricas primordiais. E as ferramentas se desdobram em níveis de complexidade cada vez maior, sendo que algumas imitam tão bem o ser humano e seu intelecto, que por vezes até o supera. Mas tal superação se dá tão somente ao nível mental. Pois tais ferramentas nada mais são que projeções arquetípicas da vastíssima capacidade do espírito. Nenhuma delas pode imitar a presença divina que existe no ser humano. Mas há exceções, que fogem ao âmbito deste trabalho, e fica o convite ao leitor para se aprofundar na pesquisa.

Para o Maçom especulativo, o ferramental é baseado em símbolos correlacionados com o ofício de edificação do Templo. Tais ferramentas, são associadas ao ato de construir, mas no âmbito do interesse Maçom se referem à construção do Templo. Em princípio, na construção do Templo Interno, que se relaciona ao sistema de autoaperfeiçoamento moral, bem como de investigação das Leis inexploradas da Natureza, que são diretivas fundamentais no esquema referencial da Maçonaria.

Dito isto, podemos explorar o simbolismo de algumas ferramentas que são usualmente utilizadas pelo M⸫ M⸫ em seu ofício.

O Esquadro tem por objetivo tornar os corpos retificados ou quadrados. Segundo Jules Boucher o termo vem da raiz latina exquadra ou exquadrar que significa justamente esquadrejar. Como joia do Venerável Mestre, indica o 1º Logos ou Vontade criadora, a qual deve prevalecer sobre todo o restante da Loja ou do corpo maçônico. É também indicativo de que deverá atuar sob a égide da prática do que é Bom, Belo, Justo e Verdadeiro. Unindo duas perpendiculares, o esquadro também remete a ideia de equilíbrio e equidade, da justa Sabedoria que o Maçom deve adquirir, primando para que o espírito prevaleça sobre a matéria. Outro aspecto importante é que a figura do esquadro remete perfeitamente à proporção pitagórica, estando o lado direito do mesmo maior que o do esquerdo, indicando a prevalência do ativo (direito), sobre o passivo. Desta forma, o papel do Venerável é formar Maçons perfeitos, esquadrejando-os com o sentido de incutir-lhes as virtudes que os tornem retos ou virtuosos.

O Compasso remete a ideia de circunferência, pois é o instrumento utilizado na construção de tal objeto geométrico. Uma circunferência possui um centro, um ponto sem dimensão que representa o imanifestado, o princípio de toda criação, e uma linha periférica infinita que a define, representação do universo manifestado – finito, porém sem limites. As inúmeras circunferências que são possíveis de traçar com o instrumento indicam as várias amplitudes intelectuais de que o Maçom pode fazer uso, no correto entendimento acerca das Leis inexploradas da Natureza. A mobilidade do Compasso, que pode alterar sua angulação, o torna um elemento criativo. Aqui representa o homem, com dois braços unidos sob um centro pensante, capaz de dirigir as intenções e pensamentos. No grau de Mestre, o Compasso é aberto a 45º, indicando estabilidade mental, haja vista que com esta abertura ele não corre o risco de desliza, alterando a forma da circunferência, danificando-a. Neste caso, ao deslizar ou desvirtuar a abertura angular, haverá prejuízo a obra a ser construída.

Estando associados o Compasso e o Esquadro, no Grau de Mestre, ficará o primeiro sobreposto ao segundo, indicando a prevalência do espírito sobre a matéria.

O Mestre já domina o Malho e o Cinzel, porém é significativo que nunca se esqueça do sentido destes instrumentos, eis que a falta de hábito em lidar com eles pode resultar em um tipo de inércia intelectual, podendo o Mestre se tornar uma figura estagnada e caricata, apenas um arremedo do real sentido do Mestrado Maçônico. Assim, não esqueçamos que o Malho se refere a Vontade de criação, ou decisão pelo autoaperfeiçoamento, e o Cinzel com a agudeza mental necessária a investigação, a qual deverá estar sempre sendo esmerado pelo estudo e pesquisa, no estudo comparado das diversas filosofias, ciências, arte e religiões, dentro outras representações do pensamento humano.

Dois outros instrumentos são de significativa importância ao Mestre Maçom, eis que ele deverá, em um ou outro momento, personificando o indispensável simbolismo nos trabalhos em Loja. O primeiro deles é a Perpendicular ou Prumo, que ilumina o Segundo Vigilante, e que se relaciona a retidão da consciência e da profundidade de observação, que deve nortear o Maçom. Para Gedalge, “é o emblema da pesquisa, em profundidade, da verdade e do equilíbrio”, e o símbolo da retidão de pensamentos e de conduta. A perpendicular sempre busca o equilíbrio, logo também é relacionado a estabilidade dentro da Ordem. Segundo Mackey “é aquilo que está vertical e ereto, e sem inclinação nem para um ou outro lado, logo remete ao significado de Justiça, Fortaleza, Prudência e Temperança.  Já o segundo instrumento, que orna a faixa do Primeiro Vigilante, é indicativo da igualdade tanto original quanto social que deve ser cultivada na Maçonaria, devendo ser um dos princípios basilares a ser praticado e internalizado por todos os Irmãos. Segundo Nicola Aslan, o Nível indica noções de medida, imparcialidade, tolerância e igualdade, bem como o correto emprego dos conhecimentos, tutelados por este símbolo. Também é a representação do uso correto do conhecimento e da pesquisa da verdade.

Por fim falemos da Prancha de Traçar. Está simboliza o caráter pedagógico e administrativo do ofício do Mestre, pois além de estar no caminho do autoaperfeiçoamento, é responsável pela orientação e instrução aos Companheiros e Aprendizes. Daí a importância de o Mestre cultivar um caráter ilibado, haja vista que o ensino não se dará tão somente nas esferas intelectuais, mas também no âmbito moral e ético. A Prancha de Traçar também indica que o Mestre atuará em todos os aspectos diretivos da Loja, exercendo suas atribuições no ofício do planejamento e da administração.

Em algumas Lojas, a Prancha de Traçar é utilizada para organizar a chave do alfabeto maçônico, o qual indica ao Maçom que ele deve sempre expressar seu pensamento de maneira racional, simbolicamente representado pelo alfabeto maçom, isto significando que ele deve expressar seu modo de agir e pensar sempre “maçonicamente”, ou de maneira virtuosa.

O alfabeto maçônico, é sempre escrito com linhas retas, em esquadria, simbolizando o elemento material, que nosso pensamento está vivenciando, e nunca em linhas curvas, sendo que estas últimas indicam a espiritualidade, a qual não pode ser compreendida pela letra morta. Isso indica, nas palavras de Jules Boucher que “desta forma, o Maçom é convidado a libertar-se da letra para tratar do espírito”, ou seja, que transcendendo o racional o Maçom aperfeiçoa a linguagem intuitiva do espírito.

Cada instrumento reúne energias mentais poderosas, sendo que seu profundo arcabouço conceitual deverá ser motivo de meditação constante, a fim de que fique gravado no corpo mental do Maçom. Ciente de sua importância na formação do próprio caráter, e do seu real significado simbólico, o Mestre estará em condições de seguir se aperfeiçoando, tornando-se assim um referencial de mudança dentro do meio em que realiza a grande obra de transmutação interna.