Arte Real

Sic Transit Gloria Mundi

O SONHO VERDE

Verídico e verdadeiro porque contém Verdade.
Bernardo Trevisano

Neste Sonho, tudo parece sublime; o sentido aparente não é indigno daquele que nos oculta; a Verdade brilha nele com tanto esplendor que não é difícil descobri-la através do véu que se pretendeu usar para disfarçá-la.

Estava profundamente adormecido quando me pareceu ver uma Estátua, com aproximadamente quinze pés de altura, representando um venerável Ancião, belo e perfeitamente proporcionado em todas as partes de seu Corpo. Seus cabelos, longos e ondulados, eram de Prata; seus olhos, de finas Turquesas, em cujo centro estavam engastados rubis cujo brilho era tão intenso que eu não conseguia sustentar a luz de seu olhar. Seus lábios eram de Ouro, seus dentes de Pérolas Orientais, e todo o resto do Corpo era feito de um Rubi muito brilhante. Tocava com o pé esquerdo um Globo terrestre que parecia sustentá-lo. Mantendo o braço direito levantado e estendido, parecia sustentar, com a ponta do dedo, um Globo celeste acima de sua cabeça, enquanto na mão esquerda segurava uma Chave feita de um grande diamante bruto.

Aproximando-se de mim, este homem disse: “Sou o Gênio dos Sábios, não temas e segue-me.”
Segurando-me pelos cabelos com a mão que segurava a Chave, ergueu-me e me fez atravessar as três Regiões do Ar, a do Fogo e os céus de todos os Planetas. Conduziu-me ainda além; depois, envolvendo-me em um redemoinho, desapareceu, e me encontrei em uma Ilha que flutuava sobre um Mar de Sangue.

Surpreso por estar em um lugar tão remoto, caminhei pela Orla; observando com grande atenção aquele Mar, percebi que o Sangue que o compunha estava vivo e quente. Notei também que um vento muito suave, que o agitava incessantemente, mantinha seu calor e provocava nesse Mar uma efervescência que causava um movimento quase imperceptível em toda a Ilha.

Tomado de admiração diante de coisas tão extraordinárias, refletia sobre tantas maravilhas quando vi várias pessoas ao meu lado. A princípio, imaginei que poderiam querer me maltratar e me escondi sob uma moita de Jasmins. Porém, adormecido pelo aroma, fui encontrado e capturado.

O mais alto do grupo, que parecia liderar os outros, perguntou-me, com um gesto altivo, quem me havia tornado tão ousado a ponto de vir dos Países Baixos até aquele tão elevado Império. Expliquei-lhe como fui transportado até ali. Mudando imediatamente o tom de voz, os gestos e modos, disse-me: “Sê bem-vindo, tu que foste conduzido até aqui por nosso altíssimo e poderosíssimo Gênio!”

Em seguida, saudou-me, e todos os demais também, segundo o costume de seu País, que consistia em deitar-se de costas, virar-se e levantar-se. Retribuí a saudação segundo o costume do meu País. Ele prometeu apresentar-me ao Hagacestaur, que é seu Imperador. Pediu-me desculpas por não ter nenhum transporte para me levar à Cidade, que estava a uma légua de distância.

No caminho, falou apenas sobre o poder e as grandezas de seu Hagacestaur, dizendo que este possuía sete Reinos, tendo escolhido o que ficava no centro dos outros seis para fazer dele sua residência habitual.

Observando que eu tinha dificuldade em caminhar sobre Lírios, Rosas, Jasmins, Cravos, Narcisos e sobre uma quantidade prodigiosa das Flores mais belas e raras que cresciam até mesmo nos caminhos, ele me perguntou, sorrindo, se eu temia danificar aquelas Plantas. Respondi que sabia bem que não possuíam alma sensitiva, mas que, por serem escassas em meu País, eu me retraía de pisoteá-las.

Ao não descobrir em toda a Campina nada além de Flores e Frutos, perguntei onde plantavam o Trigo. Respondeu que não o plantavam, mas, como havia muito em terras estéreis, o Hagacestaur ordenava que grande parte fosse enviada aos nossos Países Baixos para agradar-nos, enquanto as Bestas comiam o restante. Para eles, faziam o Pão com as Flores mais belas, amassando-o com o Orvalho e assando-o ao Sol.

Ao ver por toda parte uma quantidade tão prodigiosa de Frutos belíssimos, desejei colher algumas Peras para provar, mas ele quis impedir-me, dizendo que apenas as Bestas as comiam. No entanto, achei-as saborosíssimas. Apresentou-me Melões, Pêssegos e Figos, e não se conheciam Frutos de sabor tão bom nem na Provença, nem em toda a Itália, nem na Grécia. Jurou pelo Hagacestaur que esses Frutos produziam-se espontaneamente e que não eram cultivados de forma alguma, garantindo-me que não comiam nada além disso com o Pão.

Perguntei como podiam conservar essas Flores e Frutos durante o Inverno. Respondeu-me que não conheciam Inverno algum; seus Anos tinham apenas três Estações: a Primavera, o Verão e uma terceira formada pela fusão das duas primeiras, chamada Outono, que encerrava no Corpo dos Frutos o Espírito da Primavera e a Alma do Verão. Era nessa Estação que se colhiam as Uvas e as Romãs, os melhores frutos do País.

Ele ficou muito surpreso quando expliquei que em meu país comíamos carne de boi, cordeiro, caça, peixe e outros animais. Disse-me que devíamos ter uma compreensão muito limitada para utilizarmos alimentos tão materiais. Não me cansava de ouvir tais coisas belas e curiosas, prestando grande atenção ao que dizia. Contudo, ao pedir que eu considerasse o aspecto da Cidade, que estava a apenas duzentos passos de distância, levantei os olhos para vê-la, mas não enxerguei nada e fiquei cego, o que fez meu Condutor e seus Companheiros rirem às gargalhadas.

O desgosto de ver aqueles Senhores se divertirem com meu infortúnio me entristeceu ainda mais que minha desgraça. Percebendo que sua atitude me incomodava, aquele que havia conversado comigo o tempo todo consolou-me, dizendo para não me impacientar, pois minha visão se recuperaria em breve. Ele então buscou uma Erva, com a qual esfregou meus olhos, e, naquele instante, voltei a enxergar. Pude ver o esplendor daquela magnífica Cidade, cujas Casas eram feitas de um Cristal puríssimo, continuamente iluminado pelo Sol, já que naquela Ilha nunca era noite.

Não me permitiram entrar em nenhuma dessas Casas, mas pude ver o que acontecia através de suas paredes transparentes. Observei a primeira Casa; todas eram construídas a partir de um mesmo modelo. Notei que seu interior consistia apenas de um pavimento com três Apartamentos, cada um contendo várias Salas e Gabinetes.

No primeiro Apartamento havia uma Sala decorada com tapeçarias de Damasco, adornadas com galões de Ouro e bordados com franjas idênticas. O fundo dessa tapeçaria mudava de vermelho para verde, realçado com Prata muito fina. Tudo estava coberto por um véu de gaze branca. Em seguida, havia alguns Gabinetes contendo joias de diferentes cores. Depois, aparecia uma Sala completamente mobiliada com um belíssimo Veludo negro, ornado com várias faixas de cetim preto brilhante, e tudo era embelezado com detalhes em Jades cuja escuridão brilhava intensamente.

No segundo Apartamento, havia uma Sala forrada de Moiré branco ondulado, enriquecido com um bordado de Pérolas Orientais muito finas. Depois, via-se vários Gabinetes decorados com móveis de cores variadas: cetim azul, damasco violeta, moiré amarelo-claro e tafetá vermelho-carmim.

No terceiro Apartamento, havia uma Sala adornada com um tecido muito brilhante, Púrpura sobre fundo de Ouro, mais belo e rico, sem dúvida, do que todos os outros tecidos que havia acabado de ver.

Perguntei quem era o Dono e a Dona daquela Casa. Responderam-me que estavam escondidos no fundo dessa Sala e que tinham que passar para outra ainda mais afastada, separada apenas por alguns Gabinetes que as conectavam. Os móveis desses Gabinetes eram de cores muito variadas: alguns feitos de um tabim isabelino, outros de moiré amarelo-claro, e outros de brocado de Ouro puríssimo e fino.

Não pude ver o quarto Apartamento, pois ainda não estava terminado. No entanto, disseram-me que ele consistia apenas de uma Sala, cujos móveis eram tecidos feitos dos raios mais depurados do Sol, concentrados sobre aquele tecido de Púrpura que eu havia contemplado.

Depois de observar essas curiosidades, mostraram-me como eram realizados os Casamentos entre os Habitantes daquela Ilha. O Hagacestaur, possuindo conhecimento perfeito dos humores e temperamentos de todos os seus súditos, desde o maior até o menor, reunia os parentes mais próximos e unia uma Jovem pura e límpida a um Ancião bondoso, saudável e vigoroso. Quanto mais purificada e purgada a Jovem, mais o Ancião era lavado e limpo. Ele oferecia sua mão à Jovem, que aceitava, e ambos eram conduzidos a uma dessas Casas.

A porta era então fechada com os mesmos materiais que compunham a Casa, e eles deviam permanecer juntos ali por nove meses completos. Durante esse tempo, confeccionavam todos os belos Móveis que me haviam mostrado. Ao fim desse período, saíam unidos em um só Corpo; possuindo apenas uma única Alma, tornavam-se um só ser, cujo poder era enorme sobre a Terra. Então, o Hagacestaur utilizava-os para converter todos os Malvados que habitavam seus sete Reinos.

Prometeram-me que eu entraria no Palácio do Hagacestaur e que me mostrariam seus Apartamentos, especialmente um Salão onde se encontravam quatro Estátuas tão antigas quanto o Mundo. A estátua central era o poderoso Seganisegede, que me havia transportado àquela Ilha. As outras três, que formavam um triângulo ao redor desta, eram de três Mulheres: Ellugate, Linemalore e Tripsarecopsem.

Prometeram também mostrar-me o templo onde estava a Figura de sua Divindade, chamada Elesel Vasergusine. Contudo, ao começarem a cantar os Galos, conduzindo os Pastores seus Rebanhos aos campos e os Lavradores aparelhando suas carroças, fizeram tanto barulho que me despertaram, dissipando completamente meu Sonho.

Tudo o que eu havia visto não era nada comparado ao que haviam prometido mostrar-me. No entanto, não me custa consolar-me ao refletir sobre o Império Celeste, onde o Todo-Poderoso está sentado em Seu Trono, rodeado de glória e acompanhado por Anjos, Arcanjos, Querubins, Serafins, Tronos e Dominações. É lá que veremos o que os olhos nunca viram e ouviremos o que os ouvidos nunca escutaram, pois é neste Lugar que experimentaremos uma felicidade eterna, prometida por Deus a todos os que se esforçarem para ser dignos dela, já que todos fomos criados para participar dessa glória.

Esforcemo-nos, pois, para merecê-la. Louvado seja Deus.

FIM

 

O Pássaro de Hermes

Problemas das antigas semelhanças e figuras,
Que se provaram frutíferas em ensinamentos,
E têm autoridade fundamentada na Escritura,
Por meio de aparências notáveis e significativas;
Cujas moralidades concluem com prudência:
Assim como a Bíblia menciona por escrito,
Como as Árvores, certa vez, escolheram um Rei.

2.

Primeiro, em sua escolha, nomearam a Oliveira
Para reinar entre elas, conforme diz o Juízo;
Mas ela mesma prontamente se recusou,
Pois não poderia abandonar sua fartura;
Nem a Figueira poderia deixar sua doce ternura;
Nem a Videira, com seu suco saudável e fresco,
Que traz conforto a todas as idades.

3.

E semelhantemente, os Poetas laureados,
Com parábolas obscuras, porém apropriadas,
Fingiram que Pássaros e Bestas de alto status,
Como as águias reais e os leões, por consentimento,
Enviaram proclamações para convocar um Parlamento,
E estabeleceram decretos, brevemente para dizer,
Alguns para governar e outros para obedecer.

4.

As águias nos céus têm o voo mais elevado,
O poder dos leões se vê sobre a terra;
O Cedro, entre as árvores, é o mais alto à vista,
E o Loureiro, por natureza, é sempre verde,
Entre as flores, Flora é a deusa e rainha:
Assim, em todas as coisas, há diversidades,
Alguns de alta posição e outros de graus inferiores.

5.

Os poetas escrevem maravilhosas semelhanças,
E mantêm-se em segredo de forma bem velada;
Tomam as Bestas e as Aves como testemunhas,
Das quais surgiram as fábulas em seus primórdios,
E aqui me dirijo ao meu propósito,
Tirando do Francês um conto traduzido,
Que em um panfleto li e vi enquanto estava sentado.

6.

Este conto que menciono,
Relata claramente e de maneira simples
Três provérbios pagos como resgate
De um belo pássaro que foi pego em uma armadilha,
Ansioso para escapar de sua angústia:
Seguindo o processo do meu autor,
Relatarei, então, como ocorreu em ordem.

7.

Outrora havia, em uma pequena vila,
Como menciona meu autor,
Um camponês que tinha desejo e grande empenho,
Dentro de si, com seu trabalho diligente,
De organizar seu jardim com notável ornamento,
De comprimento e largura, quadrado e longo,
Cercado e protegido, para torná-lo seguro e forte.

8.

Todos os caminhos foram feitos lisos com areia,
Bancos cobertos com novos tufos verdes,
Ervas plantadas com pequenas fontes ao fim,
Que jorravam contra os raios do Sol,
Como córregos prateados tão cristalinos e limpos:
As águas borbulhantes subiam fervilhando,
Redondas como berilos, irradiando reflexos.

9.

No meio do jardim havia um loureiro fresco,
Sobre ele, um pássaro cantava dia e noite;
Com penas brilhantes mais reluzentes que o ouro,
Cujo canto alegrava os corações mais pesados;
Era uma visão celestial de se contemplar:
Ao cair da tarde e no amanhecer,
Ela se empenhava, alegremente, para cantar.

10.

O crepúsculo reforçava sua disposição,
Ao anoitecer, quando Febo ia descansar;
Entre os galhos, em sua vantagem,
Cantava sua canção da noite como convinha,
E, ao amanhecer, dedicava-se à rainha Alceste,
Cantando novamente, como era seu dever,
Logo cedo na manhã, para saudar o dia.

11.

Era uma melodia verdadeiramente celestial,
À noite e ao amanhecer, o canto do pássaro;
E a doce harmonia açucarada,
Com trinados e variações desconhecidas,
Fazia o jardim todo ecoar com o som:
Até que certa manhã, quando Titã brilhou claramente,
O pássaro foi preso e capturado em uma armadilha.

12.

O camponês ficou feliz por ter pego o pássaro,
De rosto alegre e expressão feliz:
Rapidamente decidiu construir
Uma pequena gaiola dentro de sua casa,
Para alegrar-se com o canto do pássaro.
No entanto, por fim, o pássaro triste acordou
E, serenamente, disse ao camponês:

13.

“Agora estou capturado e estou em perigo,
Segurada com firmeza, sem poder voar;
Adeus ao meu canto e às minhas notas claras,
Pois perdi minha liberdade,
Agora estou em cativeiro, quando antes era livre:
E saiba bem que estou angustiada,
Não consigo mais cantar ou me alegrar.”

14.

“Mesmo que minha gaiola fosse feita de ouro
E os pináculos fossem de berilo e cristal,
Lembro-me de um provérbio já dito:
Quem perde a liberdade, na verdade, está em cativeiro.
Preferiria, em um pequeno galho,
Cantar alegremente entre os bosques verdes,
Do que estar em uma gaiola de ouro brilhante e fechada.”

15.

“Canto e prisão não têm harmonia,
Pensas que vou cantar no cativeiro?
O canto procede da alegria e do prazer;
E a prisão causa morte e destruição,
O tilintar das correntes não soa com melodia.
Ou como poderia alguém estar feliz e contente,
Contra sua vontade, preso em correntes?”

16.

“De que vale a um leão ser rei das bestas,
Se está preso sozinho em uma torre de pedra?
Ou a uma águia, sob correntes rígidas,
Ser chamada de rei de todas as aves?
Maldita seja a soberania, se a liberdade está perdida:
Responda-me, então, sem hesitar,
Quem canta feliz sem cantar com o coração?”

17.

“Se queres alegrar-te com meu canto,
Deixa-me voar livre, sem perigo,
E todos os dias, pela manhã,
Voltarei a cantar no teu loureiro,
Com notas frescas e claras;
Sob tua janela ou diante do teu salão,
Sempre que quiseres me chamar.”

18.

“Ser aprisionada e oprimida pelo medo
De maneira alguma condiz com minha natureza;
Mesmo que me alimentasses com leite e pão branco,
E coalhada doce fosse meu pasto,
Eu preferiria me ocupar diligente,
Logo cedo pela manhã, arranhando no vale,
Para encontrar meu alimento entre pequenos vermes.”

19.

“O lavrador está mais feliz em seu arado,
Logo cedo pela manhã, ao alimentar-se de bacon,
Do que alguns que têm tesouros abundantes
E carecem de liberdade junto às suas posses.
Ser livre é muito mais valioso
Do que ser como um urso preso a uma estaca,
Que não pode se mover, a menos que autorizado.”

20.

“Toma esta resposta como conclusão:
Nunca me forçarás a cantar em cativeiro,
Até que tenha liberdade para voar nos bosques,
Livre, para me mover em galhos ásperos e planos.
E, com razão, não deverias desprezar
Meu desejo, mas sim rir e apreciar,
Pois um camponês gostaria que todos fossem iguais a ele.”

21.

“Muito bem”, disse o camponês, “já que não será
Como eu desejo, por mais que tente convencê-la,
Contra tua vontade, tu deves escolher uma entre três opções:
Ou cantar alegremente dentro da gaiola,
Ou irei te levar à cozinha,
Arrancar tuas penas, tão claras e brilhantes,
E depois assar ou assar-te para meu jantar.”

22.

Então disse o pássaro: “Não nego a razão,
E quanto ao meu canto, já te dei uma resposta;
E, se minhas penas forem arrancadas,
Se eu for assada ou cozida em uma torta,
De mim, terás apenas uma pequena refeição.
Mas se seguires meu conselho,
Poderás obter grande vantagem comigo.”

23.

“Se concordares em ouvir minha orientação
E me deixares partir livre da prisão,
Sem resgate ou qualquer outra cobrança,
Oferecerei a ti uma grande recompensa,
As três grandes sabedorias, conforme a razão;
De valor maior – presta atenção ao que ofereço –
Do que todo o ouro que está em teu cofre.”

24.

“Confia em mim, não te enganarei.”
“Pois bem”, disse o camponês, “dize-me.”
“Não”, disse o pássaro, “primeiro, compreenda:
Quem ensina sabedoria deve ser livre,
Convém a um mestre ter sua liberdade
Para ensinar sua lição adequadamente;
Não suspeites de mim, não planejo traição.”

25.

“Pois bem”, disse o camponês, “fico contente,
Confio na promessa que fizeste a mim.”
O pássaro voou e o camponês ficou satisfeito,
Enquanto o pássaro tomou seu voo para o loureiro.
Então o pássaro pensou: “Agora que estou livre,
Nunca mais, em minha vida,
Lutarei com redes ou galhos com cola.”

26.

“É um tolo quem, escapando do perigo,
Quebrou suas correntes e fugiu da prisão,
Retorna ao lugar: pois criança queimada teme o fogo.
Que cada homem se previna com sabedoria e razão,
Contra doces armadilhas que escondem veneno.
Não há veneno mais perigoso e agudo
Do que aquele disfarçado com aparência de doçura.”

27.

“Quem não teme o perigo, no perigo cairá,
Águas calmas escondem profundezas traiçoeiras;
O canto da codorna pode ser falso,
Até que a codorna rasteje para dentro da rede;
O caçador pode enganar, mesmo chorando:
Evita suas armadilhas e não dê ouvidos a lágrimas,
Pois pequenos pássaros podem ser pegos pela cabeça.”

28.

“E agora que escapei de tão grande perigo,
Serei prudente e me precaverei;
Pois de caçadores nunca mais serei alvo,
E de seus galhos com cola voarei para longe.
O perigo é risco para quem nele permanece:
Vem cá, camponês, presta atenção ao meu discurso;
Das três sabedorias, te ensinarei agora.”

29.

“A primeira sabedoria é esta:
Nunca dês crédito muito rápido
A qualquer história ou notícia que ouças,
Pois a razão e a prudência devem ser consideradas;
Entre as histórias, há muitas grandes mentiras,
E acreditar rápido demais tem causado
A muitos homens grande dano e atraso.”

30.

“A segunda é esta, baseada na Escritura:
Nunca desejes aquilo que é impossível recuperar.
Os desejos mundanos estão sempre no risco,
E quem deseja voar muito alto,
Frequentemente cai de repente e despenca com suavidade.
Portanto, modera teus anseios com sabedoria,
Para que não te percas no desejo.”

31.

“A terceira é esta: cuidado pela manhã e à noite:
Lembra-te disso e aprende comigo:
Por tesouro perdido, nunca te desesperes demais,
Pois se ele não pode ser recuperado,
Quem sofre tristeza por perdas dessa ordem
Soma à sua dor inicial muitas outras dores,
Multiplicando sua angústia por imprudência.”

32.

Após essa lição, o pássaro começou a cantar,
Rejubilando-se muito por ter escapado;
E lembrou-se também das injustiças
Feitas pelo camponês ao capturá-la,
E da opressão e do tempo em cativeiro.
Feliz por estar livre e fora de perigo,
Disse ao camponês, pairando sobre sua cabeça:

33.

“Tu foste um tolo por natureza,
Ao deixar-me partir, tamanha foi tua ignorância.
Deverias agora queixar-te e lamentar-te,
E em teu coração sentir grande tristeza,
Pois perdeste um tesouro tão valioso
Que poderia ter pago o resgate
De um rei poderoso.”

34.

“Existe uma pedra chamada Fagonce,
Que antigamente surgiu em minhas entranhas;
Ela pesa uma grande onça de ouro puro,
Com cores cintilantes, como um rubi perfeito.
Ela torna os homens vitoriosos nas batalhas,
E aquele que carrega esta pedra
Está seguro contra todos os inimigos mortais.”

35.

“Quem possui esta pedra preciosa
Nunca sofrerá pobreza ou carência,
Mas terá sempre tesouros abundantes,
E todos os homens o tratarão com reverência.
Nenhum inimigo poderá causar-lhe dano;
Mas de tuas mãos, agora que estou livre,
Nada mais terás, então lamenta se quiseres.”

36.

“Ora, como eu já te disse antes,
Sobre a pedra que havia em mim,
Agora que a perdeste para sempre,
Deverias estar triste e nada contente.
Camponês, digo-te uma verdade:
Fui criada e nasci no doce Paraíso,
E tal tesouro não é para seres como tu.”

37.

“Agora, falarei mais sobre a pedra,
A qual chamo de Fagonce:
Ela possui um cheiro doce e agradável,
Que perfuma o ar com fragrâncias divinas;
Com Enoque e Elias já servi,
Cantando com uma voz tão bela,
Que supera em doçura qualquer harpa.”

38.

“O diamante negro que está nos mares da Morênia,
E a pedra branca carbúnculo que rola nas ondas;
O citrino e o rubi de altíssima preciosidade,
Que superam as gemas comuns conhecidas,
Na arte lapidária, de acordo com a antiga lei:
Ele supera todas as pedras sob os céus,
Seguindo o curso natural dos sete planetas.”

39.

“Não é para qualquer camponês ter tal tesouro,
Que excede todas as pedras na lapidária;
Com todas as suas virtudes, ele traz alegria,
Graça e contentamento sem igual,
E garante ao homem uma vida sem tristeza.
Mas, ó camponês tolo, ultrapassaste tua sorte,
Pois sou livre agora, como sempre fui.”

40.

“Como os clérigos encontram na Bíblia,
Às portas do Paraíso, quando ele foi expulso,
Por um anjo belo e silencioso,
Ali também rei Alexandre fui eu que derrubei,
E, de todas as pedras, esta era a menor.
Pedras assim raramente são encontradas,
E o pobre camponês agora está cheio de pesar.”

41.

“Mais uma coisa posso te contar, camponês,
Se estiveres disposto a ouvir-me:
O Pássaro de Hermes é o meu nome,
Em todo o mundo tão vasto e largo,
Com o brilho da graça ao meu redor,
Se alguém pudesse me ter sob sua proteção,
Seria mais rico do que qualquer imperador.”

42.

“Alexandre, o conquistador, minha pedra derrubou
De seu elmo, quando ela caiu,
Parecendo nada mais que uma simples ervilha redonda,
Pois não servia a nenhum homem em combate.
Por isso, digo com toda a firmeza,
Que essa grande graça veio dos céus,
E não se encontra entre os mortais.”

43.

“Ela traz amor e torna o homem gracioso,
Fazendo-o querido aos olhos de todos,
Traz paz entre os que vivem em discórdia,
Consola os tristes e alegra os corações pesados,
Como o sol brilhante com sua cor reluzente.
Mas sou tola por te contar tudo isso,
Ou por ensinar a um camponês o valor das pedras preciosas.”

44.

“Não se deve colocar uma pérola preciosa,
Como rubis, safiras e outras pedras índigo,
Esmeraldas ou pérolas brancas e redondas,
Diante de porcos, que amam sujeira por instinto;
Pois uma porca se deleita, como encontro,
Mais em lixo fedorento para seus filhotes,
Do que em todas as joias que vêm de Granada.”

45.

“Cada coisa busca seu semelhante:
Os peixes, o mar; as bestas, a terra;
O ar, para as aves, é mais adequado;
O lavrador, feliz com sua enxada,
E o camponês com um forcado em sua mão.
É perda de tempo me demorar mais,
Tentando explicar a ti as virtudes das gemas.”

46.

“O que tiveste, agora não terás mais,
Rejeito tuas armadilhas e redes;
Deixar-me ir foi uma grande tolice,
Pois perdeste riquezas de valor inestimável.
Agora estou livre para voar e cantar
Onde me aprouver; e tolo é aquele
Que se liberta e depois escolhe o cativeiro.”

47.

“Teus ouvidos são meio surdos à sabedoria,
Como um asno que ouve uma harpa;
Deves ir tocar tua flauta em uma folha de hera,
Pois é melhor para mim cantar nos espinhos agudos
Do que falar com um camponês dentro de uma gaiola.
Já foi dito, muitos anos atrás,
Que o servo de um camponês está sempre perdido.”

48.

“Agora, camponês, contei-te tudo,
Com minhas virtudes e grande experiência;
Para alguns, seria melhor que ouro;
Mas, para ti, não tem valor algum.
Como o cajado de um pastor é melhor para ti
Do que uma lança afiada ou uma joia preciosa.
Adeus, agora, rústico coração,
Nunca mais cairei em mãos de camponeses.”

49.

O camponês sentiu seu coração partir em dois,
De tanta tristeza que quase morreu;
“Ah!”, disse ele, “posso chorar e lamentar,
Pois como um miserável nunca prosperarei,
E viverei para sempre na pobreza.
Por loucura e teimosia,
Perdi toda a minha riqueza.”

50.

“Eu era como um senhor”, chorou contra a Fortuna,
“E tinha um grande tesouro em minha posse,
Que poderia ter me sustentado por muito tempo.
Com aquela pedra, teria vivido como um rei
Se a tivesse colocado em um anel;
Carregando-a comigo, teria sido rico,
E nunca mais teria voltado ao arado.”

51.

Quando o pássaro viu o camponês lamentar,
Pesado de coração e semblante entristecido,
Ela voou em sua direção e retornou,
E, pairando sobre ele, disse estas palavras:
“Ó tolo camponês, aprende a lição!
De tudo o que te ensinei, não guardaste nada,
E esqueceste toda a sabedoria.”

52.

“Não te ensinei a não dar crédito apressado
A qualquer história ou notícia que ouvisses?
Pois nem tudo o que brilha é ouro,
E nem todas as pedras que têm cor azul
São safiras, como se pode pensar.
Perdeste a lição mais importante,
E tua ignorância te fez sofrer.”

53.

“Todo o meu corpo não pesa uma onça;
Como poderia eu conter uma pedra
Que pesa mais do que uma grande joia?
Teu cérebro é fraco e tua mente está vazia.
Das três sabedorias, perdeste todas.
Nunca mais acredites em tudo que ouves,
Pois tua pressa te trouxe dano.”

54.

“É inútil continuar a ensinar-te,
Pois é como tocar harpa para um asno;
E louco é aquele que ensina a um tolo,
Ou que tenta ensinar boas maneiras a um camponês.”

55.

Com isso, o pássaro deixou o camponês
E voou livre, cantando em triunfo.
O camponês, arrependido e envergonhado,
Aprendeu tarde demais que a pressa e a avareza
O haviam levado à ruína.

 

ADÃO OU O PROCESSO EM FORMA DE MISSA


Nicolas Melchor Cibenensis
(A Ladislau, rei da Hungria e Boêmia)


INTROITO DA MISSA:

(Tom baixo, alegremo-nos e deve ser cantado)

O fundamento da arte é a dissolução dos corpos, os quais devem ser dissolvidos, não em água das chuvas, mas em água mercurial, da qual nasce a verdadeira Pedra Filosofal.


VERSÍCULO:

(Entrada do vitríolo e do sal vítreo, em partes iguais, testemunhando a dissolução):

Glória ao Pai, e ao Filho, pelo Espírito Santo.


KYRIE:

Fonte de bondade, inspirador da sagrada arte, da qual procedem todos os bens dos fiéis, tende piedade de nós.


CRISTO:

Santo, Pedra abençoada da ciência que, pela salvação do mundo, inspiraste a luz do saber para extirpar os turcos, tende piedade de nós.


KYRIE:

Fogo divino em nossos corações, para que possamos expandir os segredos da arte em tua glória, tende piedade de nós.


GLÓRIA IN EXCELSIS:

(Tom baixo duplo, cante-se ao Deus forte)


COLETA:

Deus, doador de toda bondade, especialmente ao fim dos tempos, por tua bondade e sabedoria, a teu servo N.N., não por seus méritos, mas por tua infalível piedade, inspiraste a luz da sagrada arte da Alquimia. Rogamos que o que ele recebeu como dom de tua majestade aproveite à saúde do corpo e da alma, e que com isso mortifique todos os vícios e infunda a graça da virtude, para que empregue fielmente a sagrada arte somente para a glória do teu nome e a propagação da fé cristã. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.


EPÍSTOLA:

Ó profundidade das riquezas, da sabedoria e da ciência de Deus!


GRADUAL:

Ergue-me, Águia, e vem, vento austro: cuida do meu jardim e fluirão seus aromas!


VERSÍCULO:

Desce como a chuva sobre as folhas das árvores e como as gotas que destilam sobre a terra. Aleluia.

Ó feliz criador da terra, mais branco que a neve, mais doce que a suavidade, resplandecente no fundo de um vaso como um bálsamo! Ó medicina salvadora dos homens, que em breve tempo curas todos os sofrimentos do corpo e dás fim à longa vida, renovas a natureza humana, expulsas a pobreza, distribuis a riqueza, afastas a tristeza e conservas a vida saudável! Ó fonte divina, da qual surge a verdadeira água da vida para recompensa de todos os teus fiéis! Aleluia!


SEQUÊNCIA DO SANTO EVANGELHO:

(Tom baixo, cante-se “Ave preclara”)

(Que desejo chamar de testamento da arte, pois toda a arte da Alquimia está oculta sob palavras misteriosas. Bem-aventurado aquele que entende esta sequência.)

Salve, ó luz preciosa do céu, luz radiante do mundo! Aqui te unes à lua, ocorre a cópula marcial e a conjunção de Mercúrio. Dessas três coisas, principalmente através do leito do rio, nasce aquele gigante forte, buscado por milhões pelo magistério da arte. Dissolvidas as três, não em água da nuvem (pois esta jamais melhora nossa goma), mas convertidas em Água Mercurial, esta nossa goma abençoada, dissolvida por si mesma, já é chamada esperma dos filósofos.

Dirige-se agora a copular, desposar-se com uma esposa virgem e impregnar-se no banho mediante a temperança do fogo. Porém, a virgem não se impregna de repente, a menos que receba um beijo com abraços reiterados. Assim, é concebido no ventre, e um feto feliz é procriado, seguindo a ordem da natureza.

Então, no fundo do vaso aparece o Etíope, forte, inteiramente queimado, descolorido, calcinado e completamente morto, sem vida, pedindo ser enterrado, regado com sua umidade e calcinado suavemente, até que, pela força do fogo, apareça branquíssimo. Muitas vezes ele primeiro toma uma bebida, derramada no ar, e, depois de ser lavado pelo fogo, renasce do próprio suor, limpo do corpo anteriormente tenebroso.

Eis a admirável geração do Etíope, ou renovação: dela surge o homem novo, pelo Lavado da regeneração, chamado pelos filósofos de enxofre da natureza, e Filho deles, a Pedra dos Filósofos. Mas quão cegos são os tolos, enganados pela ignorância da filosofia natural e pelo desprezo ao fogo!

Aqui está a coisa única, a raiz única, a essência única, à qual nada estranho é adicionado, mas somente o supérfluo é removido pelo magistério da arte. Agora deve ser fortalecido, fermentado por sua natureza, regado com sua água, e destilado moderadamente. Então, começa a reinar, lutar contra o fogo e subir ao céu, sendo coroado com uma diadema, após subjugar todos os inimigos e rebeldes.

Este é o tesouro dos tesouros, a suma medicina dos filósofos, o segredo celestial dos antigos. Bem-aventurado aquele que o encontra! Quem viu tais coisas, as escreve e declara abertamente, e sei que seu testemunho é verdadeiro.

Bendito seja Deus pelos séculos dos séculos, por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

(Leia-se o Evangelho de Mateus e Lucas 10):
“Eu te louvo, Senhor Deus, Pai do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e prudentes deste mundo e as revelaste aos pequenos.”


CREDO IN UNUM…

(Sempre deve ser recitado)


OFERTÓRIO:

A Pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular; isso foi feito pelo Senhor, e é admirável aos nossos olhos.


SECRETA:

Deus onipotente, pela vítima saudável que ardentemente imolamos à tua majestade, suplicamos tua clemência, para que este nosso artifício, em honra do teu nome e da abençoada arte da Alquimia, seja sempre dedicado e consagrado à reforma da Igreja Universal, por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.


COMMUNE:

Ao nosso Rei que vem do fogo iluminado e coroado com uma diadema, honra perpetuamente.


COMPLENDA:

Recebemos, Senhor, da nossa salvação, o auxílio para a fraqueza, e, agradecendo à tua majestade, rogamos que sirva para a salvação da alma e do corpo, para a extirpação dos turcos e para o fortalecimento da fé cristã, pelo mesmo Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.


ITE MISSA EST, ALELUIA.

FINAL

Uma Obra de Saturno

Johann Isaac Hollandus De “Of Natural & Supernatural Things”. Londres, 1670. Transcrito por Joshua Ben Arent


O Prefácio

Caro leitor,

Os Filósofos escreveram muito sobre seu Chumbo, que é preparado a partir do Antimônio, como Basílio ensinou; e sou da opinião de que esta Obra Saturnina do excelentíssimo Filósofo M. John Isaac Holland não deve ser entendida como o Chumbo comum, (se a matéria da Pedra não for muito mais considerada), mas sim como o Chumbo dos Filósofos. Se o Saturno vulgar é ou não a Matéria da Pedra Filosofal, você encontrará satisfação suficiente nos 17 Considerações ou Documentos subsequentes. Esta obra é publicada para o benefício de todos os Amantes desta Arte, pois explica e declara a Pedra do Fogo. Saúdações.


Uma Obra de Saturno

Meu filho deverá saber que a Pedra chamada Pedra Filosofal vem de Saturno. Portanto, quando ela estiver aperfeiçoada, faz projeção tanto no corpo humano contra todas as doenças, que possam atacá-lo por dentro ou por fora, sejam quais forem ou por qualquer nome chamadas, assim como nos metais imperfeitos.

E saiba, meu Filho, como uma verdade, que em todo o trabalho vegetal não há segredo maior ou mais elevado do que em Saturno; pois nós não encontramos aquela perfeição no Ouro que existe em Saturno; porque, internamente, ele é um bom Ouro, nisso todos os Filósofos concordam, e ele não precisa de mais nada, senão que você remova primeiro o que é supérfluo nele, ou seja, sua impureza, torne-o limpo, e então vire seu interior para fora, que é sua vermelhidão; então ele será um bom Ouro; pois o Ouro não pode ser feito tão facilmente quanto Saturno, pois Saturno é facilmente dissolvido e coagulável, e seu Mercúrio pode ser facilmente extraído, e este Mercúrio, sendo purificado e sublimado, como usualmente se faz com o Mercúrio, digo-lhe, meu Filho, que este Mercúrio é tão bom quanto o Mercúrio extraído do Ouro, em todas as operações; pois, se Saturno for Ouro internamente, como de fato é, então seu Mercúrio deve ser tão bom quanto o Mercúrio do Ouro. Portanto, digo-lhe que Saturno é melhor em nosso trabalho do que o Ouro; pois, se você quisesse extrair o Mercúrio do Ouro, precisaria de um ano para abrir o corpo do Ouro antes de extrair o Mercúrio, e o Mercúrio pode ser extraído de Saturno em 14 dias, sendo ambos igualmente bons.

Se você quiser fazer um trabalho somente com Ouro, deverá trabalhar nele por dois anos inteiros para que fique bem feito; mas você pode finalizar um trabalho de Saturno em 30 ou 32 semanas no máximo. E, estando ambos bem feitos, são igualmente bons; Saturno não custa nada ou custa muito pouco, requer pouco tempo e pouco trabalho; isso digo-lhe em verdade.

Meu Filho, guarde isso em seu coração e entendimento, este Saturno é a Pedra que os Filósofos não nomeiam, cujo nome é oculto até hoje; pois, se seu nome fosse conhecido, muitos iriam operar, e a Arte se tornaria comum, porque este trabalho é breve, barato e simples.

Por esta razão o nome permanece oculto, por causa do mal que poderia surgir disso. Todas as parábolas enigmáticas que os Filósofos falaram sobre uma Pedra, uma Lua, um Forno, um Vaso, tudo isso é Saturno; pois você não deve adicionar coisa alguma estranha a ele, apenas o que vem dele. Portanto, não há pessoa tão pobre no mundo que não possa operar e promover este trabalho; pois a Prata pode ser facilmente feita de Saturno em pouco tempo, e, em um tempo um pouco maior, o Ouro pode ser feito dele. E, embora um homem seja pobre, ainda assim ele pode muito bem alcançá-lo e ser capaz de fazer a Pedra Filosofal.

Portanto, meu Filho, tudo de que precisamos está oculto em Saturno, pois nele está um Mercúrio perfeito, nele estão todas as cores do mundo, que podem ser descobertas nele; nele estão as verdadeiras cores preta, branca e vermelha, nele está o peso, Saturno é o nosso Latim.

Exemplo: O olho de um homem não pode suportar coisa alguma que seja imperfeita, por menor que seja, mesmo que seja o menor átomo de poeira, isso lhe causaria muita dor, que ele não conseguiria descansar. Mas, se você pegar a quantidade de um grão de feijão de Saturno, raspá-lo suavemente e colocá-lo no olho, não causará dor alguma; a razão disso é porque ele é internamente perfeito, assim como o Ouro e as Pedras Preciosas. Por meio desses e outros discursos, você pode observar que Saturno é a nossa Pedra Filosofal, e o nosso Latim, do qual o nosso Mercúrio e nossa Pedra são extraídos com pouco trabalho, pouca arte e pouca despesa, e em pouco tempo.

Portanto, advirto você, meu Filho, e todos aqueles que conhecem seu nome, que o ocultem das pessoas, em razão do mal que poderia surgir; e você deverá chamar a Pedra de nosso Latim, e chamar a Água de Vinagre, na qual nossa Pedra deve ser lavada; esta é a Pedra e a Água sobre as quais os Filósofos escreveram tantos volumes grandiosos. Há muitos e diferentes trabalhos na Pedra Mineral, e especialmente naquela Pedra que Deus nos deu gratuitamente, sobre a qual tantas parábolas estranhas foram escritas no Livro Mineral.

Mas esta é a verdadeira Pedra que os Filósofos procuraram, porque ela faz projeção sobre todos os metais imperfeitos, especialmente sobre o Mercúrio rápido, e, ademais, faz projeção sobre todas as doenças, quaisquer que sejam, que possam afetar o corpo humano, bem como sobre todas as feridas, cânceres, fístulas, feridas abertas, bubões, abcessos e tudo o que possa ocorrer externamente ao corpo humano. Portanto, esta Pedra não está sob o trabalho Mineral, mas sim sob o Vegetal.

Ela é o princípio do Livro Vegetal e o fundamento; esta Pedra é chamada Lapis Philosophorum, a Pedra Mineral é chamada Lapis Mineralis, e a terceira Pedra é chamada Lapis Animalis. Esta Pedra é o verdadeiro Ouro Potável, a verdadeira Quintessência que procuramos, e não outra coisa neste mundo além desta Pedra. Portanto, os Filósofos dizem: Quem conhece nossa Pedra e pode prepará-la, não precisa de mais nada. Por esta razão, eles procuraram esta coisa e nenhuma outra.


Conclusão

Por fim, meu Filho, entenda que o conhecimento desta Arte é um dom divino, confiado apenas aos justos. Se você a usar com humildade, para o bem da humanidade e para glorificar o Criador, encontrará nela todas as riquezas e curas que um homem poderia desejar. No entanto, se a usar com intenções egoístas ou impuras, Deus retirará seu favor, e você será punido pela própria Arte que buscou.

Lembre-se, portanto, de que nós, Filósofos, ocultamos o nome desta Pedra por uma boa razão: ela deve permanecer nas mãos dos sábios, e não dos ignorantes. Que este conhecimento seja sua herança, e que você o use com sabedoria e retidão.

Bendito seja Deus em todas as Suas Obras.

Fim.

 

A PEDRA DE TOQUE OU PRINCÍPIOS DOS FILÓSOFOS

Que devem servir de regra para a obra

I
A natureza deixou alguns seres imperfeitos, pois não formou a pedra, mas apenas sua matéria que, de fato, não pode fazer o que faz a pedra depois de sua preparação, porque se encontra impedida por obstáculos acidentais.

II
A substância que se busca é a mesma coisa que aquela de onde ela deve ser extraída.

III
Essa identidade é específica, ou seja, existe apenas em relação à espécie; não é particular ou numérica.

IV
Da unidade extraí o número ternário e retornai o número ternário à unidade.

V
Toda coisa seca bebe seu úmido.

VI
Não há outra água permanente senão aquela que é seca e se adere aos corpos, de modo que, se ela foge, os corpos fogem com ela e ela os segue se eles fogem.

VII
Quem ignora o meio de destruir os corpos também ignora o meio de produzi-los.

VIII
Todas as coisas que se dissolvem pelo calor se coagulam com o frio e vice-versa.

IX
A Natureza se regozija em sua natureza, a Natureza melhora a natureza e a leva à sua perfeição.

X
É necessário, para a conservação do universo, que cada coisa deseje e busque a perpetuidade de sua espécie.

XI
Nas produções físicas perfeitas, os efeitos são semelhantes e conformes à causa particular que os produz.

XII
Não é possível haver geração sem corrupção e, em nossa obra, a corrupção e a geração são impossíveis sem o céu filosófico.

XIII
A menos que intervenhais na ordem da Natureza, não engendrareis o ouro, a menos que tenha sido previamente prata.

XIV
A dissolução dos corpos é a mesma coisa que sua coagulação, se considerarmos apenas o menstruo e o momento da dissolução.

XV
Se dissipastes e perdestes o verdor do mercúrio e o rubor do enxofre, perdestes a alma da Pedra.

XVI
Em nossa obra, nada estranho entra; ela não admite nem recebe nada que venha de outra parte.

XVII
As soluções filosóficas evitam, ao corpo dissolvido, suas impurezas naturais, que não podem ser tornadas sensíveis por nenhum outro meio.

XVIII
Todo agente exige uma matéria preparada; por essa razão, um homem não pode gerar com uma mulher morta.

XIX
Na obra, a fêmea dissolve o macho e o macho coagula a fêmea.

XX
O mercúrio dos filósofos é seu composto muito secreto, ou seu Adão, que carrega e esconde em seu corpo Eva, sua mulher, a qual é invisível; mas quando chega ao branco, esta se torna macho.

XXI
Os filósofos disseram sabiamente que o mercúrio contém tudo o que faz o objeto da busca dos sábios.

XXII
Que vosso calor seja contínuo, vaporoso, digerente, circundante e que seja conduzido por meio de um agente.

XXIII
Tomai cuidado com a ordem em que aparecem as cores críticas, para que uma não preceda a outra e que cada uma se apresente em seu devido tempo.

XXIV
Essas cores críticas são quatro: o negro e o branco, o citrino e o vermelho perfeito. Alguns filósofos lhes deram o nome de elementos.

XXV
Se a cor branca preceder a negra, falhastes no regime do fogo, e se o vermelho aparecer antes do citrino, isso indica uma secura excessiva da matéria.

XXVI
Tomai o maior cuidado para que a negrura não apareça duas vezes: quando os corvos voarem uma vez de seu ninho, não devem mais voltar a ele.

XXVII
Tomai também cuidado para que não se rompa a casca do ovo, que não se rache e não deixe passar o ar; do contrário, nada de bom fareis.

XXVIII
O fermento não é composto senão de sua própria massa; assim, não mistureis o branco com o vermelho, nem o vermelho com o branco.

XXIX
Se não tingirdes o mercúrio, ele não tingirá.

XXX
É preciso que os corpos ou metais inferiores, que se deseja transmutar em ouro ou prata por projeção, estejam vivos e animados.

XXXI
Quanto mais perfeitos forem os corpos, mais receberão e se carregarão de tintura.

XXXII
Se a pedra não for fermentada pelo menos duas vezes, não poderá dominar ou subjugar o mercúrio dos corpos e transformá-lo em sua natureza.

XXXIII
Se for usada demasiada tintura na projeção, o corpo inferior se tornará demasiadamente fixo e não poderá entrar em fusão; se houver tintura insuficiente, ele apenas se tingirá fracamente.

XXXIV
Nossa pedra, antes de ser capaz de tingir os metais, expulsa as doenças de seu gênero, proporcionais ao grau de perfeição que adquiriu.

XXXV
Quando atinge uma brancura fixa e permanente, cura as doenças lunares, e quando está vermelha, as doenças solares. Mas, preparada de uma ou outra forma, as doenças astrais resistem, pois estão absolutamente submetidas à fatalidade.

XXXVI
Os sábios, afastando os profanos, admitirão apenas os eleitos em seus mistérios sagrados; uma vez que possuam este raro presente da sabedoria divina, darão graças ao Ser Supremo e se colocarão todos sob o estandarte de Harpócrates.