Arte Real

Sic Transit Gloria Mundi

A LUZ SURGINDO POR SI MESMA DAS TREVAS

POEMA SOBRE A COMPOSIÇÃO DA PEDRA DOS FILÓSOFOS,
ESCRITO PELO SENHOR MARCO ANTONIO CRASELLAME,
FILÓSOFO ITALIANO


CANTO PRIMEIRO

I

O Caos tenebroso surgiu como uma Massa confusa do fundo do Nada, com o primeiro som da Palavra todo-poderosa. Diz-se que o desordenado o havia produzido, e que algo semelhante não poderia ser obra de um Deus, tão informe que era. Todas as coisas estavam nele, num profundo repouso, e os elementos estavam ali confundidos, pois o Espírito divino ainda não os havia distinguido.

II

E agora, quem poderia explicar de que maneira os céus, a terra e o mar foram formados, tão leves em si mesmos e, no entanto, tão vastos ao considerarmos sua extensão? Quem poderia explicar como o Sol e a Lua receberam, lá em cima, o movimento e a luz, e como tudo o que vemos aqui embaixo obteve Forma e Ser? Quem poderia, enfim, compreender como cada coisa recebeu sua própria denominação, foi animada pelo seu próprio espírito, e como, ao sair da Massa impura e desordenada do Caos, foi regulada por uma lei, uma quantidade e uma medida?

III

Ó vós, filhos e imitadores do divino Hermes, a quem a Ciência de vosso pai revelou a Natureza desnuda: somente vós e unicamente vós sabeis como aquela mão imortal formou a Terra e os Céus a partir da Massa informe do Caos, pois a vossa Grande Obra mostra claramente que, da mesma maneira como se faz o vosso Elixir filosófico, Deus fez todas as coisas.

IV

Mas não cabe à minha frágil pena traçar tão grande retábulo, pois ainda sou apenas um pobre filho da Arte, sem experiência alguma: não que os vossos escritos doutos não me tenham mostrado o verdadeiro objeto a perseguir, ou que eu não conheça bem aquele Iliaster que contém tudo o que nos é necessário, assim como aquele composto admirável com o qual soubestes levar da potência ao ato a virtude dos elementos.

V

Não que eu ignore que vosso Mercúrio secreto nada mais é que um espírito vivente, universal, inato, que desce incessantemente, em forma de vapor aéreo, do Céu à Terra para preencher seu ventre poroso, para depois nascer entre os enxofres impuros, crescendo e passando da natureza volátil à fixa, dando a si mesmo a forma de umidade radical.

VI

Não que eu desconheça que, se nosso Vaso oval não estiver selado durante o Inverno, jamais poderá reter o vapor precioso, sem o qual nosso belo Filho morrerá no nascimento, se não for prontamente auxiliado por uma mão habilidosa e pelos olhos de Linceu. Do contrário, ele não poderá ser alimentado com seu primeiro humor, à semelhança do homem que, após ser nutrido com sangue impuro no ventre materno, vive de leite ao vir ao mundo.

VII

Contudo, embora eu saiba todas essas coisas, não me atrevo a argumentar convosco, pois os erros alheios sempre me deixam na dúvida. Mas se sois mais movidos pela piedade que pela inveja, dignai-vos expulsar do meu espírito todas as dúvidas que o aprisionam. E, se puder ser tão afortunado a ponto de explicar com distinção em meus escritos tudo o que concerne ao vosso Magistério, fazei, vos conjuro, com que receba de vós a seguinte resposta: Trabalha audaciosamente, pois sabes tudo o que é necessário saber.


CANTO SEGUNDO

Sobre como o Mercúrio e o Ouro vulgares não são o Ouro e o Mercúrio dos Filósofos,
e como, no Mercúrio dos Filósofos, está tudo o que os Sábios buscam.
Aqui se examina, de passagem, a prática da primeira operação que o artista experiente deve seguir.


ESTROFA I

Que os homens pouco versados na Escola de Hermes se confundem quando, com espírito de avareza, se apegam ao som das palavras. Frequentemente, confiando nos nomes vulgares de prata viva e ouro, eles se entregam ao trabalho, imaginando que, com ouro comum, através de um fogo lento, poderão fixar, por fim, aquela prata fugitiva.

II

Mas se pudessem abrir os olhos do espírito e compreender o sentido oculto dos Autores, veriam claramente que o Ouro e a Prata viva do vulgo carecem daquele fogo universal, que é o verdadeiro Agente. Esse Agente ou espírito abandona os metais assim que estes são expostos à violência das chamas nos fornos; por isso, o metal, fora da mina, privado desse espírito, é apenas um corpo morto e imóvel.

III

Na verdade, Hermes falava de outro Mercúrio e outro Ouro: um Mercúrio úmido e quente, sempre constante ao fogo, e um Ouro que é todo fogo e toda vida. Esta diferença não é capaz de se perceber facilmente, pois os metais vulgares são corpos mortos privados de espírito, enquanto os nossos são espíritos corporais sempre vivos.

IV

Ó grande Mercúrio dos Filósofos! Em ti se unem o Ouro e a Prata, depois de serem levados da potência ao ato: Mercúrio todo Sol e toda Lua, tripla substância em uma, e uma substância em três. Ó maravilha! O Mercúrio, o Enxofre e o Sal me fazem ver três substâncias em uma única essência.


CANTO TERCEIRO

Aqui se aconselha aos alquimistas vulgares e ignorantes
que desistam de suas operações sofísticas, pois estas são
inteiramente opostas ao que a verdadeira Filosofia nos ensina
para realizar a Medicina Universal.


ESTROFA I

Ó vós, que buscais fazer Ouro por meio da Arte, permanecendo incessantemente entre as chamas ardentes de vossos carvões! Deixai de vos fatigar em vão, para que uma esperança louca não consuma vossos pensamentos no fumo.

[…]


FINAL

Nosso Magistério se encontra em uma única Raiz, já conhecida por vós, e talvez revelada mais do que eu deveria. Essa Raiz contém em si duas substâncias, que, embora inicialmente apenas Ouro e Prata em potência, se tornam Ouro e Prata em ato, desde que saibamos igualar perfeitamente seus pesos.

Regras Filosóficas ou Canons Concernentes a Pedra dos Filósofos

Aos Amantes dos Estudos Herméticos

Todos os livros dos Filósofos que tratam da obscura Medicina Hermética são nada mais que um Labirinto Espagírico, no qual, na maior parte das vezes, os Discípulos da Arte caem em várias ambiguidades e enganos, de modo que, até hoje, são poucos os que encontraram um fim verdadeiro. Pois, se nesse Labirinto alguma via fácil se mostra aos Errantes e Perdidos, parecendo desatrelá-los e guiá-los para fora, logo surgem esquinas intransponíveis que os mantêm em um cativeiro perpétuo. Assim, se nos Escritos dos Filósofos, vias manifestas e simples às vezes se apresentam, parecendo à primeira vista claras aos Pesquisadores conforme a letra, logo operadores desavisados, enganados pelas palavras abertas dos Filósofos, são envolvidos em inúmeros enganos. A isso pode-se adicionar que muitos Pseudoquímicos iludem a muitos por meio de fraudes e enganos vistosos, dispersando e vendendo operações e processos falsos, nos quais prometem Montanhas de Ouro aos crédulos, semeando joio e mandando que esperem trigo.

Por isso, movido pela compaixão, ofereci estas Regras, cheias de Razões Físicas e Verdade, nas quais toda a Arte está claramente representada, como em um Quadro de Escrita. Examine-as e pondere-as cuidadosamente, fortaleça sua opinião com argumentos firmes, e então você não poderá errar. Pois aquele que acredita em qualquer sofisma sem julgamento deseja ser enganado. A verdadeira Arte está oculta sob muitas coberturas, pelas quais os desavisados são facilmente confundidos. Portanto, antes de começar a trabalhar, pese bem e considere prudentemente as causas naturais das coisas; ou então, não comece o trabalho. É melhor empregar seu tempo em meditação diligente e julgamento profundo do que sofrer a punição de uma temerária e insensata precipitação.

B.D.P.

Algumas Regras ou Cânones Filosóficos Concernentes à Pedra dos Filósofos

O que buscamos, está aqui ou em lugar nenhum.

Cânon I. Aquilo que está mais próximo da Perfeição, é mais facilmente levado à Perfeição.
2. As coisas imperfeitas não podem, por nenhuma Arte, alcançar a Perfeição, a menos que primeiro sejam purificadas de seu enxofre feculento e da grosseria terrena misturados ao seu Enxofre e Mercúrio; o que uma Medicina perfeita realiza.
3. Tornar o Imperfeito fixo, sem o Espírito e o Enxofre do Perfeito, é totalmente impossível.
4. O Céu dos Filósofos resolve todos os Metais em sua primeira matéria; ou seja, em Mercúrio.
5. Aquele que se esforça para reduzir Metais a Mercúrio sem o Céu Filosófico, ou a Água-Viva Metálica, ou seu Tártaro, estará gravemente enganado, porque a impureza abundante no Mercúrio, advinda de outras dissoluções, é até mesmo discernível a olho nu.
6. Nada é perfeitamente fixo que não pode ser inseparavelmente unido ao que é fixo.
7. O Ouro fusível pode ser transformado em Sangue.
8. Tornar a Prata fixa não é dissolvê-la em pó ou água, pois isso seria destruí-la radicalmente; ela deve necessariamente ser reduzida a Mercúrio.
9. A Lua não pode ser transmutada em Sol, exceto se retornar ao Mercúrio fluido (exceto pela Tintura física), o mesmo se aplica aos outros Metais.
10. Os corpos imperfeitos junto com a Lua são levados à perfeição e convertidos em Ouro puro, se forem primeiro reduzidos a Mercúrio; e isso por um Enxofre branco ou vermelho, pela virtude de um Fogo apropriado.
11. Cada corpo imperfeito é levado à perfeição por sua redução a Mercúrio; e, depois, pela cocção com Enxofres em um Fogo apropriado: pois deles são gerados Ouro e Prata; e aqueles que tentam fazer Ouro e Prata de outra maneira são enganados e trabalham em vão.
12. O Enxofre de Marte é o melhor, que, sendo unido ao Enxofre do Ouro, traz à luz uma certa Medicina.
13. Nenhum Ouro é gerado, exceto o que antes era Prata.
14. A Natureza compõe e cozinha seus Minerais por um processo gradual; e assim, de uma única Raiz, procria todos os Metais, até o Último fim dos Metais, que é o Ouro.
15. O Mercúrio corrompe o Ouro, resolve-o em Mercúrio e torna-o volátil.
16. A Pedra é composta de Enxofre e Mercúrio.
17. Se a preparação dos Mercúrios não for ensinada por algum Artista habilidoso, não será aprendida apenas pela leitura dos livros.
18. A preparação do Mercúrio para o Menstruo Filosófico é chamada de Mortificação.
19. A prática dessa grande Obra excede o mais alto Arcano da Natureza; e, a menos que seja mostrada por Revelação Divina ou pela Obra em si, por um Artista, nunca é obtida a partir de livros.
20. Enxofre e Mercúrio são a matéria da Pedra; portanto, o conhecimento dos Mercúrios é necessário, para que se obtenha um bom Mercúrio, pelo qual a Pedra será mais rapidamente aperfeiçoada.
21. Na verdade, existe um certo Mercúrio oculto em cada corpo, pronto para ser extraído sem outra preparação; mas a Arte de extraí-lo é muito difícil.
22. O Mercúrio não pode ser convertido em Sol ou Lua, nem fixado, exceto por meio de um Compêndio de Abreviação da grande Obra.
23. Congelar e fixar é uma única Obra; de uma única coisa apenas, no Vaso.
24. Aquilo que congela e fixa o Mercúrio, também o tinge, na mesma prática.
25. Os graus de Fogo a serem observados na Obra são quatro: no primeiro, o Mercúrio dissolve seu próprio corpo; no segundo, o Enxofre seca o Mercúrio; no terceiro e quarto, o Mercúrio é fixado.
26. As matérias sendo radicalmente misturadas em profundidade, através de suas partes mais ínfimas, tornam-se inseparáveis, como neve misturada com água.
27. Diversos Simples, sendo postos em putrefação, produzem diversos outros.
28. É necessário que a forma e a matéria pertençam à mesma espécie.
29. Um Enxofre homogêneo possui a mesma natureza mercurial que produz Ouro e Prata; e este Enxofre puro é Ouro e Prata, embora não discernível ao olho em tal forma, mas sim dissolvido em Mercúrio.
30. Pode ser extraída uma certa unção fixa do Ouro, sem uma dissolução filosófica do Ouro em Mercúrio, a qual serve como um fermento gerador de Sol e Lua; isso é realizado por meio de uma abreviação da Obra, que Geber chama de Rebis.
31. Os metais, sendo resolvidos em Mercúrio, são novamente reduzidos a um corpo, com uma pequena quantidade de Fermento sendo adicionada; caso contrário, eles sempre manterão a forma de Mercúrio.
32. O Céu ou Tártaro dos Filósofos, que reduz todos os metais a Mercúrio, é a Aqua-Vita Metálica dos Filósofos, a qual também chamam de Fezes dissolutas.
33. Enxofre e Mercúrio consistem na mesma natureza homogênea.
34. A Pedra dos Filósofos nada mais é que Ouro e Prata dotados de uma Tintura de excelência e mais que perfeição.
35. Sol e Lua, em suas espécies próprias, não possuem mais do que é suficiente para si mesmos, sendo necessário reduzi-los à natureza e ao poder de um Fermento, por preparação, e digeri-los, para que a massa possa ser multiplicada.
36. Os extremos principais no Mercúrio são dois, a saber: demasiada crueza e uma cocção demasiadamente elaborada. [Nota: as palavras originais são nimis exquisita, mas o autor sugere que minus exquisita seria mais adequado.]
37. Os Filósofos observam como máxima que tudo que é seco rapidamente absorve a umidade de sua própria espécie.
38. A Calx da Lua, sendo alterada, absorve rapidamente seu próprio Mercúrio; a Fundação Filosófica dos Minerais.
39. O Enxofre é a Anima, mas o Mercúrio é a matéria.
40. O Mercúrio é retido pelo Enxofre dos corpos imperfeitos, é coagulado em um corpo imperfeito e passa à mesma espécie metálica do corpo imperfeito cujo Enxofre o coagulou e concretizou.
41. Fazer Sol e Lua dos corpos imperfeitos, por meio do Enxofre, é totalmente impossível; pois nada pode dar ou fornecer mais do que possui.
42. O Mercúrio de todos os metais é sua semente feminina e seu Menstruo, sendo levado tão longe pela Arte de um bom Operador; pois, pela projeção da grande Obra, ele recebe e atravessa as qualidades de todos os Metais, até alcançar o Ouro.
43. Para que uma Tintura vermelha possa ser extraída, o Mercúrio deve ser animado apenas com o Fermento de Sol; mas para o branco, com o Fermento de Lua apenas.
44. A Obra dos Filósofos é aperfeiçoada com um trabalho muito simples, realizado sem grandes custos, a qualquer tempo e em qualquer lugar, por qualquer pessoa, desde que tenha a matéria verdadeira e suficiente.
45. Os Enxofres de Sol e Lua retêm ou fixam os espíritos de sua própria espécie.
46. Sol e Lua são os verdadeiros enxofres, espermas ou sementes masculinas da Pedra.
47. Tudo o que tem o poder de reter e fixar deve necessariamente ser estável e permanente.
48. A Tintura que dá perfeição aos metais imperfeitos flui da fonte de Sol e Lua.
49. Aqueles que tomam o Enxofre de Vênus estão enganados.
50. Nada é dado por natureza a Vênus que seja necessário à grande Obra Espagírica ou que sirva para a fabricação de Sol e Lua.
51. Note que o Ouro convertido em Mercúrio, antes de sua Conjunção com o Menstruo, não pode ser Anima, nem Fermento, nem Enxofre, e de forma alguma é proveitoso.
52. A Obra, quando levada ao fim, pode ser tornada ígnea por repetição.
53. Na abreviação da Obra, os corpos perfeitos devem ser reduzidos a Mercúrio fluido e uma Água seca, pela qual possam receber devidamente um Fermento.
54. A preparação do Mercúrio feita por sublimação (aplicada após a revificação) é melhor do que a que é feita por amalgamação.
55. A Anima não pode imprimir a forma, a menos que o espírito intervenha, o qual nada mais é que o Sol convertido em Mercúrio.
56. O Mercúrio recebe a forma do Ouro pela mediação do Espírito.
57. Sol, sendo resolvido em Mercúrio, é o espírito e a anima.
58. O Enxofre e a Tintura dos Filósofos designam um mesmo Fermento.
59. O Mercúrio vulgar é tornado igual a todos os Mercúrios dos corpos e se aproxima muito de sua semelhança e natureza.
60. Um Fermento torna o Mercúrio mais denso e ponderoso.
61. Se o Mercúrio comum não for animado ou se carecer de anima, ele não oferece nada relevante, seja para a Obra universal ou particular.
62. O Mercúrio, estando devidamente mortificado, é então impresso com uma anima.
63. Sol pode ser preparado como um Fermento, de modo que uma parte possa animar dez partes de Mercúrio comum; mas esta Obra não tem fim.
64. O Mercúrio dos corpos imperfeitos está em um meio-termo entre o Mercúrio comum e o Mercúrio dos corpos perfeitos; mas a Arte de extraí-lo é muito difícil.
65. Visto que o Mercúrio comum, pela projeção da Pedra, é transformado em Sol ou Lua, ele pode ascender mais alto, ser exaltado e tornar-se igual a todos os Mercúrios dos corpos.
66. O Mercúrio comum animado é um grande Arcano.
67. Os Mercúrios de todos os corpos são transformados em Ouro ou Prata, por meio de uma Abreviação da Obra.
68. Um calor úmido e suave é chamado de Fogo Egípcio.
69. É digno de nota que a Lua não é a mãe da Prata comum, mas um certo Mercúrio, dotado das qualidades da Lua Celestial.
70. A Lua Metálica possui natureza masculina.
71. O Mercúrio vulgar, devido ao frio, assume a natureza de uma mulher estéril.
72. Os Mercúrios dos Semi-minerais assemelham-se à natureza da Lua em aparência.
73. Todas as coisas são produzidas a partir do Sol e da Lua, isto é, de duas substâncias.
74. Masculino e Feminino, ou seja, Sol e Mercúrio, crescem juntos em um.
75. O Mercúrio comum, sem preparação, está distante da Obra.
76. Quatro partes de Mercúrio e uma parte de Sol, isto é, do fermento, constituem um verdadeiro matrimônio do masculino e do feminino.
77. A solução ocorre quando o Sol é resolvido em Mercúrio.
78. Sem putrefação, nenhuma solução é aperfeiçoada.
79. A putrefação perdura e se estende até a brancura.
80. O grande Segredo consiste na purificação do Espírito, pela qual o Menstruo é preparado, pois é ele que dissolve o Ouro.
81. O Mercúrio dissolve o Ouro em uma Água de sua própria forma, isto é, em um Mercúrio fluido, como ele próprio é.
82. A dissolução é o início da coagulação.
83. Sol, sendo convertido em um Mercúrio fluido, permanece nessa forma por pouco tempo.
84. O Fermento seca o Mercúrio, torna-o mais denso, retém e fixa-o.
85. O Sol dos Filósofos é chamado de sua Fonte.
86. A matéria é convertida, pelo poder da putrefação, em um lute ou pasta, que é o início da coagulação.
87. Existe um certo compêndio pelo qual o Enxofre é extraído do Sol e da Lua, e por meio dele qualquer Mercúrio pode ser fixado em ouro e prata.
88. A matéria nunca deve ser removida do fogo, nem deixada esfriar; caso contrário, a obra será destruída.
89. Quando a matéria atinge a cor negra, é necessário aplicar o segundo grau de fogo.
90. A lavagem ou purificação dos Filósofos é uma semelhança; pois somente o fogo realiza e aperfeiçoa todas as coisas.
91. O veneno e a impureza são removidos sem a adição de qualquer coisa, pela força do Fogo, que sozinho realiza todas as coisas.
92. O Fogo, com sua virtude aguda e penetrante, purifica e limpa cem vezes mais que qualquer outra coisa.
93. Na geração e vegetação de qualquer coisa, se o calor se extinguir, a morte logo invade a matéria em crescimento.
94. O Espírito é o calor.
95. A matéria, uma vez trazida à brancura, não pode ser corrompida nem destruída.
96. Toda corrupção da matéria é impressa com um veneno mortal.
97. O vidro ou vaso é chamado de a Mãe.
98. A virtude do Enxofre não se estende além do limite de uma certa proporção, nem pode exceder a um peso infinito.
99. Esta questão deve ser observada: por que os Filósofos chamam seu Menstruo de matéria da Pedra?
100. O Enxofre merece o nome de forma, mas o Menstruo, de matéria.
101. O Menstruo representa os elementos inferiores, isto é, Terra e Água; mas o Enxofre, os dois superiores, Fogo e Ar, como um agente masculino.
102. Se você quebrar a casca de um ovo de modo que o pintinho saia, ele nunca poderá ser chocado; assim também, se você abrir o vaso e a matéria sentir o ar, nada poderá ser realizado.
103. A calcinação feita com Mercúrio em um forno de reverberação é melhor que as demais.
104. Os modos de falar dos Filósofos devem ser cuidadosamente notados, pois por sublimação eles entendem a dissolução dos corpos em Mercúrio pelo primeiro grau do Fogo; a segunda operação que se segue é o espessamento do Mercúrio com o Enxofre; a terceira é a fixação do Mercúrio em um corpo perfeito e absoluto.
105. O número dos que erram é infinito, pois não consideram o Mercúrio, tal como está em sua própria forma e amalgamado com a calx dos corpos perfeitos, como o sujeito e a matéria da Pedra.
106. A Medicina branca é levada à perfeição no terceiro grau do Fogo; e esse grau não deve ser excedido na preparação da Medicina branca; pois se você fizer o contrário, destruirá a obra para o branco.
107. O quarto grau do Fogo traz a matéria ao vermelho, no qual também aparecem diversas cores.
108. A obra, depois de alcançar o grau de brancura e não sendo conduzida à vermelhidão perfeita, permanece imperfeita, não apenas para a tintura branca, mas também para a tintura vermelha; portanto, ela fica morta até que termine em uma vermelhidão perfeita.
109. Após o quinto grau do Fogo, para aperfeiçoá-la, a matéria adquire novas virtudes.
110. A obra não atinge a perfeição até que a Medicina seja incerada e tornada sutil, como cera.
111. A incerção da obra é realizada com uma quantidade dupla ou tripla de Mercúrio, em relação àquele que deu origem à Pedra.
112. A incerção da Medicina branca é feita com a água branca, sem a animação do Mercúrio pela Lua; mas a incerção da tintura vermelha é feita com Mercúrio animado com o Sol.
113. É suficiente que a matéria, após a incerção, permaneça como um lute ou pasta.
114. Repita a incerção até que ela suporte uma prova perfeita.
115. Se o Mercúrio com o qual a Medicina é incerada se converte em fumaça e se perde, não vale nada; portanto, não o manipule mal, pois, nesse caso, a matéria regredirá.
116. A Medicina sendo devidamente incerada, explicará a você o Enigma do Rei que retorna da Fonte.
117. O Sol, sendo reduzido à sua primeira água ou Mercúrio, se for resfriado ou interrompido pelo Mercúrio comum, a obra perece.
118. Os Filósofos tomam a matéria preparada e cozida pela Natureza e a reduzem à sua prima materia; pois todas as coisas retornam à sua origem, assim como a neve é inseparavelmente resolvida em água.
119. Os sábios reduzem anos a meses, meses a semanas e semanas a dias.
120. A primeira cocção do Mercúrio, que a Natureza realiza, é a única causa de sua perfeição singular, além da qual ele não pode ascender por si mesmo; pois é necessário auxiliar sua simplicidade, semeando o Ouro em sua Terra apropriada, que não é outra coisa senão Mercúrio puro, que a Natureza digeriu apenas um pouco, mas não perfeitamente.
121. Na segunda cocção do Mercúrio, além da primeira feita pela Natureza, a virtude do Mercúrio é multiplicada dez vezes.
122. A Pedra é feita do Mercúrio pela repetição da cocção, com o Sol sendo misturado, pois, assim, tanto o macho quanto a fêmea são cozidos duas vezes.
123. O Sol deve ser adicionado ao Mercúrio, para que ele seja dissolvido em Enxofre, e então cozido na Pedra dos Filósofos.
124. Todos os Filósofos de todas as épocas contemplaram o Mercúrio, embora nem sempre o conhecessem ou o compreendessem.
125. Todo Mercúrio, de qualquer origem que seja, quando devidamente tomado e de forma correta, apresenta a matéria da Pedra.
126. Tudo o que contém Mercúrio pode ser o sujeito da Medicina Filosófica.
127. Aquele que entende os escritos dos Filósofos ao pé da letra está gravemente enganado quando afirmam que seu Mercúrio é um só.
128. Um Mercúrio supera o outro em calor, secura, cocção, pureza e perfeição, e deve ser preparado sem que sua forma se corrompa ou se perca; o tesouro e o segredo da Pedra estão justamente nisso.
129. Se a preparação do Mercúrio comum fosse conhecida pelos verdadeiros estudantes da Filosofia, eles não precisariam buscar outro Mercúrio dos Filósofos, nem outra aqua-vita metálica, nem outra Água da Pedra; pois a preparação do Mercúrio vulgar contém tudo isso em si mesma.
130. Cada Mercúrio de metais e minerais pode, por graus sucessivos, ser cozido e exaltado à qualidade dos Mercúrios de todos os outros corpos, até atingir um corpo solar; portanto, pode ser conduzido ao grau e virtude do corpo metálico que se desejar.
131. O Mercúrio comum, antes de uma preparação legítima, não é o Mercúrio dos Filósofos; mas, após a preparação, ele é chamado de Mercúrio dos Filósofos, contendo em si mesmo o verdadeiro caminho e método de extrair o Mercúrio dos outros metais; e é o início da Grande Obra.
132. O Mercúrio comum preparado é considerado a aqua-vita metálica.
133. O Mercúrio passivo e o Menstruo não devem perder de forma alguma a forma externa de Mercúrio.
134. Aquele que usa sublimado, pó calcinado ou precipitado em vez de Mercúrio fluido (para completar a Obra Filosófica) erra e está completamente enganado.
135. Aquele que dissolve o Mercúrio em uma água límpida, para completar a Obra Filosófica, está gravemente equivocado.
136. Produzir Mercúrio a partir de uma água límpida está além do poder de qualquer coisa, exceto da Natureza.
137. Na grande Obra Física, é absolutamente necessário que o Mercúrio cru dissolva o Ouro em Mercúrio.
138. Se o Mercúrio for reduzido a água, ele dissolve o Ouro em água; e, na obra da Pedra, é altamente necessário que o Ouro seja dissolvido em Mercúrio.
139. A semente e o Menstruo devem ter a mesma forma externa.
140. A doutrina dos Filósofos é que devemos irritar ou estimular a Natureza; portanto, se o Menstruo estiver seco, será em vão esperar por uma dissolução.
141. A semente da Pedra deve ser tomada em uma forma semelhante e próxima à dos metais.
142. É absolutamente necessário tomar a semente da Medicina Filosófica que se assemelha ao Mercúrio comum.
143. É o segredo dos segredos conhecer que o Mercúrio e a matéria são o Menstruo da Pedra, e que o Mercúrio dos corpos perfeitos é a forma.
144. O Mercúrio, por si só, não oferece nada de valor à geração.
145. O Mercúrio é o elemento da Terra, no qual a semente do Ouro deve ser semeada.
146. A semente do Ouro não é apenas destinada à multiplicação de sua quantidade, mas também de sua virtude.
147. Um Mercúrio perfeito requer um elemento feminino para a obra da geração.
148. Todo Mercúrio surge e participa de dois elementos: o cru vem da Água e da Terra; o cozido, do Fogo e do Ar.
149. Se alguém quiser preparar e exaltar o Mercúrio em um metal, deve-se adicionar a ele um pouco de fermento, para que seja exaltado ao grau metálico desejado.
150. O grande Arcano de toda a Obra é a dissolução física em Mercúrio e a redução à primeira matéria.
151. A dissolução do Sol deve ser realizada pela Natureza, e não pela obra das mãos.
152. Quando o Sol é unido ou casado ao seu Mercúrio, ele permanecerá na forma de Sol, mas a maior preparação estará na calx.
153. É uma questão entre os sábios se o Mercúrio da Lua, unido ao Mercúrio do Sol, pode ser usado no lugar do Menstruo Filosófico.
154. O Mercúrio da Lua possui uma natureza masculina, mas dois machos não podem gerar mais do que duas fêmeas.
155. O Elixir consiste nisso: deve ser extraído e escolhido de um Mercúrio puríssimo.
156. Quem deseja operar deve trabalhar na solução e sublimação dos dois Luminares.
157. O Ouro dá uma cor dourada; a Prata, uma cor prateada; mas aquele que souber tingir o Mercúrio com Sol ou Lua alcançou um grande Arcano.

F I M

Aqui você tem, caro leitor, esses cânones filosóficos, sem os quais dificilmente alcançarás o fim desejado. Se receberes estes fundamentos herméticos com uma mente grata e te exercitares nesta teoria com piedosa meditação, o tempo poderá, no futuro, dar-te a prática dessas regras, não uma prática imperfeita ou mutilada que mostrei a alguns, mas uma prática íntegra e completa, confirmada por muitos argumentos e sólidas razões. Por ora,

Adeus.

 

153 AFORISMOS ALQUÍMICOS

A todos os Amantes da ARTE QUÍMICA

Senhores,
Há cerca de um mês, recebi, entre outras coisas, esses 153 Aforismos Químicos, vindos de Amsterdã, onde foram recentemente impressos em latim, tendo sido transmitidos de Viena, como se percebe pela epístola do autor a seu amigo. Quando os li e os ponderei bem, com o pouco discernimento de que disponho, pensei que nada poderia ser mais gratificante aos Filhos da Arte do que publicá-los em inglês, o que fiz com todo o cuidado e exatidão possíveis.

Os outros 157 Cânones Filosóficos retirei de Bernardus G. Penotus, do porto de Aquitânia, onde estão inseridos junto com 115 curas famosas de Paracelso, a Epístola de Pontanus e outras coisas filosóficas, impressas no ano de 1582. Juntos, formam um compêndio da Arte Química e podem servir aos estudiosos como um vade mecum, ou pequeno companheiro de bolso, com o qual possam se entreter em seus momentos de retiro. Que possa ser tanto agradável quanto proveitoso aos discípulos de Hermes é o único desejo de,

Senhores,
Seu pronto servidor,
Chr. Packe

Da minha casa, na Placa do Globo e Fornalhas Químicas, na Postern Street, próximo à Moorgate.
8 de dezembro de 1687.

O AUTOR AO SEU AMIGO

Veja aqui, meu estimado amigo, parte de um certo excelente escrito, organizado em breves aforismos, como um compêndio de tudo o que os filósofos costumam observar sobre a grande Obra de sua Pedra. Não que todas as coisas sejam aqui expostas, pertencentes à descrição completa da Tintura Física; pois há mais ainda por vir, com as quais o autor pretende adornar este trabalho. Ele determinou fortalecer estes aforismos com a autoridade dos principais filósofos, explicando com precisão as semelhanças, figuras e outras formas obscuras e confusas de expressão que frequentemente surgem nos escritos dos filósofos.

Assim, no final, aquelas coisas que até agora foram entregues de maneira excessivamente intricada e confusa pela maioria dos escritores possam aparecer em alguma ordem metódica. Não obstante, o principal objetivo deste autor não é tanto expor ou apresentar suas próprias invenções, mas reduzir os ditos valiosos de outros à ordem; algo que ele submete voluntariamente ao julgamento e exame daqueles que avançaram mais do que ele na Arte.

Embora eu conheça o propósito do erudito autor, prefiro transmitir este pequeno trabalho a você, mesmo imperfeito como está, para que você o pondere e mande imprimir, a fim de que os Filhos da Arte não fiquem por mais tempo sem esta pequena ajuda, que pode fornecer luz àqueles que erram e se extraviam em meio às trevas. Que o autor possa julgar, a partir do resultado deste trabalho, se valerá a pena divulgar a obra inteira ao mundo. Adeus, meu bom amigo, e permita-me continuar a ter um lugar em sua consideração.

Datado em Viena,
2 de setembro de 1687.

153 Aforismos Químicos

Aforismo I. A Alquimia é o conhecimento perfeito de toda a Natureza e Arte, aplicado ao Reino dos Metais.
Aforismo II. Por causa de sua excelência, é chamada por muitos outros nomes.
Aforismo III. E foi primeiramente inventada por um certo Alchemus, como alguns acreditam.
Aforismo IV. Em todos os tempos, ela foi altamente estimada pelos Filósofos devido à sua grande utilidade.
Aforismo V. A ponto de os Adeptos, movidos pela compaixão, não quererem ocultá-la por completo.
Aforismo VI. No entanto, eles a transmitiram de forma confusa, enigmática e sob alegorias.
Aforismo VII. Para que não caísse nas mãos dos indignos.
Aforismo VIII. Mas para que fosse conhecida apenas por seus verdadeiros Filhos.
Aforismo IX. Com os quais os sofistas não teriam nenhuma relação.
Aforismo X. Por isso, esta Ciência é um Dom de Deus, que Ele concede a quem Lhe apraz.
Aforismo XI. Seja pela revelação de um amigo fiel ou iluminando o entendimento do investigador.
Aforismo XII. Aquele que busca essa ciência deve fazê-lo com oração, leitura diligente, meditação profunda e trabalho assíduo.
Aforismo XIII. Portanto, é necessário que o estudante desta Arte tenha um coração puro, caráter íntegro, firmeza de propósito e seja um guardião religioso dos segredos.
Aforismo XIV. Além disso, é preciso que tenha bom intelecto, saúde física e fortuna suficiente.
Aforismo XV. Porque esta Arte requer o homem por completo; uma vez descoberta, ela o possui, e uma vez possuída, liberta-o de todos os negócios longos e sérios, fazendo-o desprezar todas as outras coisas, considerando-as como estranhas e irrelevantes.
Aforismo XVI. As partes da Alquimia são duas, a saber: Teoria e Prática.
Aforismo XVII. Visto que a Arte nada pode fazer com os metais sem imitar a Natureza.
Aforismo XVIII. É necessário que o conhecimento da Natureza preceda o conhecimento da Arte.
Aforismo XIX. Assim, a Alquimia, no que se refere à Teoria, é uma ciência pela qual as origens, causas, propriedades e paixões de todos os metais são conhecidas em sua raiz; para que aqueles que são imperfeitos, incompletos, misturados e corruptos possam ser transmutados em verdadeiro Ouro.
Aforismo XX. Visto que a causa final na Física coincide com a forma, os princípios e causas dos metais são sua matéria, forma e causa eficiente.
Aforismo XXI. A matéria dos metais é remota ou próxima.
Aforismo XXII. A matéria remota são os raios do Sol e da Lua, cuja conjunção produz todos os compostos naturais.
Aforismo XXIII. A matéria próxima é o Enxofre e o Mercúrio, ou os raios do Sol e da Lua determinados para a produção metálica, sob a forma de uma certa substância úmida, unctuosa e viscosa.
Aforismo XXIV. Na união desse Enxofre e Mercúrio reside a forma dos metais.
Aforismo XXV. Visto que essa forma é variável, de acordo com o modo diverso da mistura e do grau de cocção, daí surgem diversos metais.
Aforismo XXVI. A Natureza apenas efetua essa união no interior da Terra, através de um calor temperado.
Aforismo XXVII. Da união dessa Água, surgem imediatamente duas propriedades ou paixões comuns a todos os metais, a saber: fusibilidade e extensibilidade.

Aforismo XXVIII. As causas da fusibilidade metálica são o mercúrio, tanto fixo quanto volátil, e o enxofre volátil, não fixo.
Aforismo XXIX. A causa da extensibilidade é a viscosidade ou aderência do mercúrio, seja ele fixo ou volátil.
Aforismo XXX. Os metais, portanto, são corpos minerais, de substância densa e compacta, com composição muito forte; fusíveis e extensíveis ao martelo em todas as direções.
Aforismo XXXI. Os metais geralmente são classificados em seis: ouro, prata, estanho, chumbo, cobre e ferro.
Aforismo XXXII. Destes, dois são perfeitos: ouro e prata.
Aforismo XXXIII. Os outros quatro são imperfeitos.
Aforismo XXXIV. Dois são macios: estanho e chumbo.
Aforismo XXXV. E dois são duros: cobre e ferro.
Aforismo XXXVI. A perfeição dos metais consiste na abundância de mercúrio e na uniformidade da substância, ou na união perfeita dos princípios, que é realizada por uma cocção longa e temperada.
Aforismo XXXVII. Daí surgem várias propriedades ou características que distinguem os metais perfeitos dos imperfeitos.
Aforismo XXXVIII. A primeira é que os metais perfeitos facilmente absorvem mercúrio, mas rejeitam enxofre.
Aforismo XXXIX. A segunda é que eles não são queimados ou inflamados, mas suportam o exame do copel e do cimento; ou, pelo menos, do primeiro.
Aforismo XL. A terceira é que as partes que os compõem, isto é, o úmido e o seco, não podem ser dissipadas, separadas ou destruídas pelo fogo, que dissolve todas as coisas.
Aforismo XLI. A quarta é que eles suportam a maior extensibilidade dentre todos os metais.
Aforismo XLII. A quinta é que são os mais pesados de todos os metais, exceto o chumbo em relação à prata.
Aforismo XLIII. A sexta é que, quando aquecidos ao rubro, emitem um brilho celeste ou azul; nem são derretidos antes de se tornarem incandescentes por algum tempo.
Aforismo XLIV. A sétima é que eles nunca contraem ferrugem.
Aforismo XLV. A imperfeição dos metais consiste na abundância de enxofre e na não conformidade de sua substância; ou na mistura imperfeita dos princípios devido a uma cocção breve, súbita ou intemperada.
Aforismo XLVI. Pelas características que surgem dessa água, a forma dos metais imperfeitos é claramente diferente das propriedades dos metais perfeitos.
Aforismo XLVII. A primeira delas é que os metais imperfeitos facilmente aceitam enxofre, mas não mercúrio, exceto quando diferem pouco dele, devido à sua coagulação imperfeita; como é o caso do estanho e do chumbo.
Aforismo XLVIII. A segunda é que eles são queimados e inflamados; nem suportam o teste do copel e do cimento.
Aforismo XLIX. A terceira é que suas partes essenciais (o úmido e o seco) são dissipadas e separadas pelo fogo.
Aforismo L. A quarta é que eles são menos extensíveis que os metais perfeitos.
Aforismo LI. A quinta é que eles são mais leves que os metais perfeitos, exceto o chumbo em relação à prata.
Aforismo LII. A sexta é que, quando aquecidos ao rubro, adquirem uma cor negra ou um branco brilhante; e são derretidos antes de se tornarem vermelhos, ou mais lentamente que os metais perfeitos.
Aforismo LIII. A sétima é que eles contraem ferrugem.

Aforismo LIV. O ouro é um metal perfeitamente digerido, de cor amarela, mudo (sem som), brilhante e o mais pesado de todos os metais, suportando o teste do copel e do cimento.
Aforismo LV. A prata é um metal menos perfeito que o ouro, mas mais perfeito que todos os demais metais, digerido, de um branco puro, limpo, sonoro e resistente ao copel.
Aforismo LVI. O estanho é um metal macio, digerido de forma imperfeita, branco, brilhante com uma certa tonalidade azulada, ligeiramente sonoro, e o mais leve de todos os metais.
Aforismo LVII. O chumbo é um metal macio, digerido de forma imperfeita, azulado, mudo e pesado.
Aforismo LVIII. O cobre é um metal duro, digerido de forma imperfeita, de uma tonalidade vermelha opaca, azulado e sonoro.
Aforismo LIX. O ferro é um metal duro, digerido de forma imperfeita, de um branco impuro, azulado, escurecendo-se e altamente sonoro.

Aforismo LX. Todos os metais, portanto, têm a mesma origem e surgem dos mesmos princípios.
Aforismo LXI. Eles não diferem entre si, exceto na quantidade e qualidade de seus princípios e na mistura, de acordo com o grau de sua cocção.
Aforismo LXII. Daí decorre que os metais imperfeitos possuem a predisposição para receber a forma dos metais perfeitos.
Aforismo LXIII. Contanto que sejam purificados de suas partes sulfúricas e heterogêneas, que são as causas de sua imperfeição, por meio de uma cocção perfeita.

Aforismo LXIV. Essa purificação pode ocorrer apenas pela Natureza, nas profundezas da Terra, ao longo do tempo.
Aforismo LXV. Ou pela mesma Natureza, instantaneamente, acima da Terra, com a ajuda da Arte.
Aforismo LXVI. Por meio da projeção de um medicamento, que, em um instante, penetra e tinge os metais imperfeitos quando derretidos, e o mercúrio é aquecido.
Aforismo LXVII. Essa transmutação dos metais imperfeitos em perfeitos, longe de ser apenas possível,
Aforismo LXVIII. É também verdadeira.
Aforismo LXIX. Isso é confirmado pela opinião comum dos Filósofos e pela experiência.
Aforismo LXX. Portanto, a Pedra ou o Medicamento dos Filósofos, por meio do qual essa transmutação é realizada, deve conter em si mesma a forma do ouro ou da prata comuns.
Aforismo LXXI. Pois, caso careça dessa forma, não poderia introduzi-la ativamente.
Aforismo LXXII. Todo composto natural distingue-se de outros compostos naturais por sua forma particular, realmente e efetivamente distinta de todas as outras formas de diferentes compostos naturais.
Aforismo LXXIII. Assim, entre todas as substâncias pertencentes a uma das três famílias da Natureza – a Vegetal, a Animal e a Mineral – apenas o ouro comum contém, em si mesmo, a forma, qualidades, acidentes, características e propriedades do ouro comum.
Aforismo LXXIV. Por isso, somente o ouro comum será o único sujeito do qual deve ser extraída a forma do ouro, para a composição da Pedra dos Filósofos.
Aforismo LXXV. O ouro comum é apenas simplesmente perfeito pela Natureza, ou seja, não possui perfeição além daquela necessária para ele, como ouro.
Aforismo LXXVI. E, portanto, não pode comunicar sua perfeição a outros metais imperfeitos.
Aforismo LXXVII. Assim, se trabalharmos para que o ouro comum introduza a forma do ouro nos metais imperfeitos, visando sua perfeição, é absolutamente necessário que o ouro comum se torne mais do que perfeito; ou seja, que adquira mais “aureidade” e virtude do que o necessário para a sua própria perfeição.
Aforismo LXXVIII. Nenhum composto natural pode ser tornado mais perfeito, a menos que seja novamente submetido às operações da Natureza.
Aforismo LXXIX. E sempre que isso ocorre, ele adquire uma forma mais perfeita em sua espécie.
Aforismo LXXX. Para que isso seja feito, é necessário dissolvê-lo em uma matéria semelhante àquela de que a Natureza o produziu mais proximamente.
Aforismo LXXXI. Pois, naturalmente, não há nova geração sem uma corrupção prévia.
Aforismo LXXXII. E visto que o ouro comum, como dito acima, tem sua origem mais próxima em uma umidade unctuosa e viscosa,
Aforismo LXXXIII. É evidente que ele não pode ser tornado mais do que perfeito, a menos que seja dissolvido em sua matéria original.
Aforismo LXXXIV. Todo agente natural assimila a si mesmo o paciente, seja em substância ou em qualidade.
Aforismo LXXXV. Portanto, para dissolver o ouro comum em uma substância úmida, unctuosa e viscosa, é necessário um agente também úmido, unctuoso e viscoso.
Aforismo LXXXVI. Não qualquer um, mas um que seja homogêneo e da mesma natureza do ouro.
Aforismo LXXXVII. Tal agente deve conter eminentemente a forma do ouro, ou ser capaz de obtê-la por uma nova especificação e determinação, quando se insinua particularmente no ouro comum.
Aforismo LXXXVIII. Pois, uma vez que ele deve misturar-se natural e radicalmente com os princípios do ouro, penetrando cada mínima parte dele, após a mistura, nenhuma separação poderá jamais ser feita.
Aforismo LXXXIX. De maneira que substâncias heterogêneas jamais poderiam unir-se dessa forma.
Aforismo XC. Além disso, esse agente deve ser mais sutil, mais ativo e mais espiritual do que o ouro comum; e, portanto, a primeira matéria do ouro.
Aforismo XCI. Pois nada pode ser naturalmente dissolvido, exceto por aquilo de que é composto.
Aforismo XCII. Concluímos, então, que nenhuma substância vegetal, animal ou mineral que não seja da natureza metálica (como pedras e sais), por qualquer artifício de depuração, preparação ou sutileza, pode tornar o ouro comum mais do que perfeito.
Aforismo XCIII. Nem os espíritos metálicos que não são da natureza do ouro; como o enxofre, o arsênico e outros minerais menores ou intermediários compostos deles, embora sejam mais sutis e ativos que o ouro.
Aforismo XCIV. Porque, sendo o ouro livre de todo enxofre, ele não admite tais espíritos.
Aforismo XCV. Embora a virtude e eficácia dos espíritos minerais sejam tão grandes no reino dos metais que não podem ser alterados senão por eles.
Aforismo XCVI. Portanto, para que o ouro comum, por meio de sua dissolução, possa ser tornado mais do que perfeito, com o objetivo de levar os metais imperfeitos à perfeição, é altamente necessário recorrer a um espírito metálico da mesma natureza que o ouro, capaz de unir-se a ele.

Aforismo XCVII. Ora, como foi dito anteriormente, o ouro comum nada mais é do que um argento-vivo puro, perfeitamente digerido pela Natureza nas minas da Terra.
Aforismo XCVIII. Conclui-se, portanto, que ele deve ser dissolvido e tornado mais do que perfeito não por qualquer espírito, mas apenas pelo argento-vivo cru e indigesto.
Aforismo XCIX. Mas não o argento-vivo comum, nem o extraído dos corpos, que é obtido dos metais.
Aforismo C. Embora o ouro tenha grande afinidade com esses tipos de argento-vivo.
Aforismo CI. Pois estes, por estarem muito próximos da natureza do ouro,
Aforismo CII. São apenas sujeitos de uma transmutação passiva.
Aforismo CIII. Na qual a Natureza deixou de operar de forma igual ao ouro.
Aforismo CIV. Portanto, por não serem a primeira matéria do ouro,
Aforismo CV. Eles não podem agir sobre ele.
Aforismo CVI. Mas sim pelo argento-vivo dos Filósofos; ou seja, aquela umidade natural unctuosa e viscosa que é a raiz de todos os metais.
Aforismo CVII. Essa semente metálica, como não é aparente aos nossos sentidos nas minas,
Aforismo CVIII. E visto que criar uma semente está além do poder do homem, sendo uma prerrogativa de Deus,
Aforismo CIX. Deduz-se necessariamente, a partir do que foi dito, que deve haver algum mineral que nos forneça esse Mercúrio dos Filósofos.
Aforismo CX. Esse mineral deve, portanto, aumentar a tintura, a fusibilidade e a penetração do ouro.
Aforismo CXI. E entre os minerais, nenhum outro aperfeiçoa a cor do ouro pálido, facilita seu fluxo e o torna mais penetrante além da antimonita.
Aforismo CXII. Portanto, a antimonita parece ser o único mineral do qual, e por meio do qual, se obtém o referido Mercúrio.
Aforismo CXIII. Contudo, como a antimonita não pode comunicar mais tintura ao ouro do que a perfeição natural do ouro exige,
Aforismo CXIV. E como o ouro, como já dissemos, deve ser tingido mais perfeitamente pelo Mercúrio dos Filósofos,
Aforismo CXV. Esse Mercúrio não pode ser obtido da antimonita sozinha.
Aforismo CXVI. Mas por meio dela, como um intermediário, a partir de outros corpos metálicos imperfeitos que abundam na tintura do ouro.
Aforismo CXVII. Dentre os quais existem apenas dois: Marte (ferro) e Vênus (cobre).
Aforismo CXVIII. Concluímos, portanto, que é a partir da antimonita, e com a ajuda de Marte e Vênus, que nosso Menstruo Real deve ser extraído pelo trabalho da Arte e da Natureza.
Aforismo CXIX. A antimonita, Marte e Vênus consistem em enxofre e mercúrio.
Aforismo CXX. O enxofre, como dissemos, é contrário à natureza do ouro, devido à sua unctuosidade, combustão e impureza terrosa.
Aforismo CXXI. Portanto, a matéria do nosso Menstruo deve, antes de tudo, ser purificada de seu enxofre combustível,
Aforismo CXXII. De modo que apenas o seu mercúrio sirva para nossa intenção.
Aforismo CXXIII. Esse mercúrio, sem qualquer preparação adicional, ao ser projetado sobre o ouro, não adere proveitosamente a ele, mas, como outros espíritos minerais, foge da força do fogo, deixando o ouro inalterado e impuro, ou levando-o consigo.
Aforismo CXXIV. Isso ocorre devido à aquosidade terrosa, impura e volátil que ainda existe nele.
Aforismo CXXV. Portanto, para que desse mercúrio possa ser feito o Mercúrio dos Filósofos, que se une ao ouro e o torna mais do que perfeito, é absolutamente necessário depurá-lo e livrá-lo de suas fezes.
Aforismo CXXVI. Nenhum composto natural pode ser purificado perfeitamente sem ser dissolvido.
Aforismo CXXVII. E toda dissolução de um composto natural termina na umidade da qual foi formado.
Aforismo CXXVIII. Assim, visto que a matéria do nosso Menstruo é metálica,
Aforismo CXXIX. E, como é evidente acima, surge de uma umidade unctuosa e viscosa,
Aforismo CXXX. É necessário, para sua purificação perfeita, que seja resolvida nessa umidade unctuosa e viscosa.

Aforismo CXXXI. Essa dissolução da matéria requer a sua calcinação prévia.
Aforismo CXXXII. Pois, naturalmente, nenhuma coisa seca é dissolvida em umidade, exceto o sal ou aquilo que, pela força do fogo, adquiriu natureza semelhante.
Aforismo CXXXIII. Nossa matéria, portanto, deve ser primeiro calcinada para ser adequada à dissolução.
Aforismo CXXXIV. Nenhuma dissolução total de um corpo seco previamente dissolvido em um licor pode ser completada, nem suas partes essenciais podem ser separadas, sem que ocorra a sua putrefação.
Aforismo CXXXV. Por isso, isso deve ser feito com a matéria do nosso Menstruo para a sua depuração completa, assim como com o ouro, para a sua mais-que-perfeição, como já foi mencionado.
Aforismo CXXXVI. Mas todo corpo úmido se corrompe e se putrefaz com um calor leve e gentil.
Aforismo CXXXVII. Portanto, nossa matéria, resolvida em uma substância úmida, viscosa e unctuosa, deve ser promovida e dissociada ainda mais por digestão.
Aforismo CXXXVIII. Dessa forma, as partes sutis podem ser elevadas das partes grosseiras, e o puro pode ser separado do impuro, por sublimação.
Aforismo CXXXIX. Para a realização dessas operações, a Natureza nos oferece apenas dois meios: o Fogo e a Água.
Aforismo CXL. As partes combustíveis e voláteis são separadas pelo Fogo.
Aforismo CXLI. Mas as partes terrosas e feculentas são separadas pela Água.
Aforismo CXLII. Na referida sublimação filosófica do mercúrio e na sua união com o ouro, através de várias dissoluções e coagulações, consiste a prática da Alquimia.
Aforismo CXLIII. Para que daí resulte um medicamento universal, extremamente potente na perfeição dos metais imperfeitos e na cura de todos os corpos doentes, sejam quais forem.
Aforismo CXLIV. Esse medicamento é comumente chamado Pedra dos Filósofos, porque resiste ao fogo.
Aforismo CXLV. E, por outras razões, também recebe vários outros nomes.
Aforismo CXLVI. A partir do que foi dito, a excelência química é corretamente definida como a elevação dos princípios metálicos, por meio de várias dissoluções e coagulações filosóficas, até o mais alto grau de perfeição.
Aforismo CXLVII. Pois, como a Natureza, no reino mineral, não prossegue além da perfeição do ouro comum,
Aforismo CXLVIII. Ela precisa ser assistida pela Arte, para que se torne mais do que perfeita.
Aforismo CXLIX. Portanto, a prática da Alquimia consiste, em geral, em duas operações: a preparação do Mercúrio dos Filósofos e a composição do Elixir ou Medicamento.
Aforismo CL. Embora essas operações não sejam muito difíceis,
Aforismo CLI. Elas, no entanto, não estão isentas de perigos e insucessos.
Aforismo CLII. Esses obstáculos só podem ser evitados pela indústria e por um artista experiente, corajoso e prudente.
Aforismo CLIII. E essas operações não exigem grandes despesas ou custos.