Arte Real

Sic Transit Gloria Mundi

O CAMINHO INICIATICO NA CONSTRUÇÃO DA ESTRELA FLAMÍGERA

Ora et Labora in Silentium

Estrelas possuem um significado profundo. Desde os primórdios da civilização a humanidade mira os céus e seus astros. É a partir da contemplação intuitiva e de uma reflexão constante acerca de seu significado, que um vasto compêndio de concepções metafísicas e religiosas foi construído em praticamente todas as civilizações. Dos céus estelares derivam as divindades e a representação do paraíso celeste. Nas diversas concepções religiosas, aos céus ascende a essência imortal de todos os seres, pois para elevar-se no firmamento pressupõe-se a presença do vazio, da plena liberdade dos grilhões da matéria.

Estrelas são identificadas pela sua qualidade de lançar luz sobre as trevas. Presentes no firmamento elas representam a esperança do caminhante noturno, que segue adiante e com persistência o rumo do oriente e da aurora nascente. Nesse sentido, o obreiro Maçom segue a senda do aprendizado sob a abobada estrelada do Templo Maçônico. São também identificadas simbolicamente com o espírito, que se projeta na escuridão do inconsciente daquele que deverá despertar.

Todos os seres, sencientes ou não, possuem corpos mais sutis, que coexistem com o mais denso corpo físico, sendo que nosso próprio planeta Terra também assim se configura. Dentro dessa realidade, podemos afirmar que os demais entes celestes também emanam energia sutil, no âmbito de cada um dos sete planos de existência conhecidos (ou concebidos), sendo que tais vibrações acabam por influir em um outro grau, na própria percepção humana.

Desta feita, a representação do céu no Templo Maçônico, acaba por indicar, simbolicamente, a vibração das energias sutis que emanam do firmamento e auxiliam a senda de aprendizado do Maçom.

A senda Maçônica nos ensina que o Aprendiz ainda se encontra sob muita fraca luz, em plena noite de reflexões, sendo guiado apenas pelos céus estrelados, os Mestres do firmamento. Quando a aurora se aproxima, o avanço da escuridão dá lugar ao arauto do amanhecer. Já com a proximidade da alvorada, ao mirar o Oriente o Aprendiz que persistiu em caminhar na noite escura, galga um degrau a mais e torna-se Companheiro Maçom. Este agora deverá polir a recém lapidada pedra bruta, e reúne agora virtudes tenazes e suficientes para merecer lançar seu olhar em direção a estrela da manhã, que surge radiante e imponente no horizonte oriental, prenunciando a alvorada, que por sua vez dará lugar a poderosa luz solar vindoura. A pequena estrela da manhã se transmutara oportunamente no grandioso disco solar. A estrela guiara o agora Companheiro Maçom, tomando-o discípulo, ensinando-o acerca de seus deveres para com a humanidade acerca do valor do trabalho e do cultivo da Moral, das Virtudes e das Ciências

Esta estrela da manhã, que no esquema conceitual e referencial Maçônico, é denominada Estrela Flamígera, ou estrela de cinco pontas, ou ainda pentagrama, se constitui em um poderoso símbolo para aquele que adentra o umbral do templo e alça o seu segundo degrau. Tal símbolo procede das esferas de pensamento ideais e se manifesta em muitas tradições, dentre as quais, por exemplo, o pentagrama pitagórico, que expressa o símbolo central da Luz, do cerne místico, de onde o universo se expande. Ela vem representar o próprio homem que se regenera, em meio as trevas do mundo profano, e que faz uso do compasso e do esquadro em sua construção interna. No quadro do grau de do Companheiro Maçom, a Estrela Flamígera tem a letra G em seu centro, identificado com a letra hebraica iod, que representa o princípio divino no coração do iniciado.

O pentagrama possui ampla simbologia, mas sempre remete ao número cinco. Representa a união de dois opostos, o número dois (princípio feminino) e o três (princípio masculino), que em harmonia produzem o andrógino celeste, um microcosmo completo. Eliphas Levi cita o pentagrama como uma das chaves para as altas ciências ocultas, e Paracelso também o considerava um signo poderoso, tratando como representação do casamento espiritual entre o céu e a terra, transmitindo a perfeição. A baixa magia medieval também utilizava o poder implícito em signos pentagramáticos para os mais variados tipos de sortilégios. Citando, com reservas Ragon, Boucher escreve:

… ela era (a estrela flamígera), entre os egípcios, a imagem do filho de Isis e do Sol, autor das estações e emblema do movimento; desse Hórus, símbolo dessa matéria primeira, fonte inesgotável de vida, dessa fagulha do fogo sagrado, semente universal de todos os seres. Ela é, para os Maçons, o emblema do Gênio que eleva a alma a grandes coisas. O autor lembra que o Pentagrama era o símbolo favorito dos pitagóricos… Eles traçavam esse símbolo sobre suas cartas como forma de saudação, o que equivalia à palavra latina vale – passe bem. O pentagrama era ainda chamado de higia (de Higia ou Higéia, deusa da saúde) e as letras que compunham essa palavra eram colocadas em cada uma de suas pontas.

Aquele que agora alça mira pelos horizontes do saber tenta erguer sua ainda embaçada visão para o mais além, buscando respostas para perguntas inquietantes e aparentemente inatingíveis. Alguns desistem de olhar para o alto e acabam sendo tomados pela impaciência deixando-se cair no esquecimento e abandonando as técnicas de polimento da pedra bruta. Outros aprendem a trilhar a senda com paciência, deixando de lado o ego. É nesse momento, quando parece que a noite mais avança e a esperada aurora do conhecimento parece não chegar, que cabe mirar para o alto e procurar inspiração na luz estelar.

Sossegado o ego turbulento, abandonando-se ao vazio do mundo das formas, o Maçom que vislumbra os degraus a serem galgados na escada de Jacó poderá encontrar a estrela referencial. Esta escada tripartite representa a senda do homem celeste, e no seu primeiro nível referencial ensina ao Companheiro o valor do cultivo do equilíbrio, da equidade e da justiça. O segundo conjunto de degraus se relacionam aos sentidos concretos e abstratos que são inatos aos seres, e o último bloco, composto por sete degraus, remetem a apreciação e reverência às artes filosóficas e científicas.

O Maçom então acaba por descobrir que a estrela reflete a si mesmo e cabe aprender como construí-la dentro de si. O estudo disciplinado e o acúmulo de conceitos e referências podem fornecer ao estudante Maçom não só uma mudança de valores internos, mas uma profunda transformação no meio social em que vive. Da Teoria da Relatividade depreendemos que os corpos, sejam celestes ou não, mais massivos deformam o espaço-tempo a sua volta. De forma semelhante podemos afirmar que um tipo de “massa espiritual sutil”, acumulada pelo estudante Maçom, pode influir externamente, reverberando vibrações no meio em que ele vive. E tal massa espiritual se constitui das boas obras construídas, da vida sadia e fundada na ética, do respeito aos ditames da moral, do estudo regular, e da prática da ecologia interna. É o momento de reforçar o abandono dos vícios do corpo e da mente, focando na importância de viver equilibradamente, com temperança e austeridade.

O Grau do Companheiro é então o do cultivo, da Moral, das Ciências, e das Verdades. É o momento em que a semente que foi plantada no coração e desabrochou com o nascimento para a vida Maçônica, no grau de Aprendiz, começar a crescer e a frutificar.

A forma de construir a estrela interna passa pelo entendimento de alguns conceitos e da reflexão constante acerca deles. O Maçom é um construtor. Ele estuda e concebe a validade dos conceitos de construção como um referencial filosófico para a melhora de si mesmo. E a construção passa por um entendimento teórico e prático acerca das ciências éticas e filosóficas. No contexto das ciências filosóficas, se abrange o estudo da Geometria Sagrada, que é a expressão do mundo ideal das formas.

A Geometria Sagrada é uma das mais antigas ciências filosóficas. A simbologia geométrica era largamente utilizada por sistemas filosóficos ou religiosos que não admitiam a idolatria da figura de seres vivos. Dessa feita, as construções geométricas eram tratadas com sacralidade, pois reproduziam o próprio pensamento da divindade. Muitos conceitos matemáticos que são demonstrados modernamente por métodos algébricos, antes, na antiguidade, eram demonstrados e concebidos a partir de reflexões sobre construções geométricas.

A título de exemplo, tomemos a questão da quadratura do círculo. Este era um dos conceitos fundamentais para a escola Pitagórica na antiguidade, e que persiste até hoje. A quadratura do círculo se traduz pela transmutação da semicircunferência descrita pelo Sol (quadrante solar) no céu durante o dia, no polígono quadrático do templo na Terra ou mundo manifestado. Quando se projeta essa semicircunferência, definem-se os pontos cardeais no templo. Esse processo possui um aspecto importante a considerar: na matemática o procedimento geométrico e algébrico de construir um quadrado, usando régua e compasso, com a mesma área de um círculo dado é tarefa quase impossível porque envolve números irracionais, isso quer dizer que para encontrar a solução exata devemos transcender a assertividade dos números inteiros e racionais, e admitir números infinitos, ou irracionais, o que transcende a nossa compreensão da realidade. Fazendo uma analogia com este princípio, podemos dizer que realizar a quadratura do círculo, do ponto de vista filosófico, consiste em construir um modelo divino na matéria, fazendo uso de uma simbologia que não pode ser entendida concretamente, mas apenas intuitivamente, como fazemos na compreensão dos números irracionais.

Partindo dessa concepção, vamos propor um modelo de construção geométrica da Estrela Flamígera, baseada em conceitos geométricos básicos, associados a uma reflexão filosófica, simbólica e meditativa a cada um dos passos propostos. Tal associação não é absoluta e faz coro a inúmeras possibilidades de interpretação.

Existem muitas formas de construir geometricamente um polígono estrelado regular de cinco pontas (Estrela Flamígera). O método apresentado a seguir é bem conhecido no âmbito da teoria geométrica. Sugerimos uma postura meditativa acerca dos passos apresentados, cabendo ao leitor explorar o que hora é proposto fazendo associações com a sua própria experiência acumulada ao longo de sua senda de aprendizado.

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I

Partiremos de um ponto, representação da unidade absoluta e sem dimensões, de onde tudo veio e para onde tudo retornará. Este ponto simboliza o ovo do mundo, o início da realidade negativa, o Ain Soph Aur cabalístico. É “a primeira diferenciação nas manifestações periódicas da Natureza eterna, sem sexo e infinita, ou o Espaço Potencial no Espaço Abstrato” (BLAVATSKY, SD, 4):

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A emanação se inicia quando a divindade se vislumbra na eternidade e vem à tona o desejo de existir. Então dela emana uma linha. Este “é o símbolo da Mãe-Natureza, divina e imaculada, no Infinito absoluto, que abrange todas as coisas” (BLAVATSKY, SD, 5). A unidade é a harmonia entre o pensamento consciente e o inconsciente, onde pode haver um equilíbrio entre os opostos, do racional com o irracional, e de tudo o que é concreto com o mundo das formas abstratas.

Para efeitos práticos, vamos tornar a linha horizontal, como um segmento de reta AB, e a partir dela será desenvolvida a construção:

II

 “Quando o diametro horizontal se cruza com o vertical , o símbolo se converte na cruz do mundo, signo do começo da vida humana.” (BLAVSTKY, SD, 5). É o nascimento da natureza, principio feminino receptáculo de toda vida. Aqui surge a multiplicação e a síntese das formas. A dualidade arquetípica reúne toda a criação, mas também é o símbolo do conflito, pois é a marca de todas as ambivalências. Aqui uma reta r surge quando duas circunferências de raio AB e centro em A e B definem os pontos C e D:

III

Tracemos então uma terceira circunferência de raio AB, com centro em D. Note que ela passa pelos pontos A e B e intercepta as demais circunferências nos pontos E e F:

Com o terceiro círculo formamos a trindade, que representa a harmonia do absoluto manifestada em essência na matéria. Representa a trindade do ser vivo e o próprio intelecto da divindade. Assim como o dois é o número da terra o três é o do céu, representando ainda a perfeição, nada podendo a ele ser acrescentado. Para os cristãos, Deus é um em três pessoas, para os budistas a expressão da perfeição se dá na Joia Tripla – Buda, Darma, Sanga – , no hinduísmo a manifestação divina é tripla – Brama, Vishnu e Shiva – , os reis magos são três, que simbolizam as três funções do rei do mundo – rei, sacerdote e profeta – , personificada na pessoa do Cristo; as virtudes teologais são três e também são três os elementos da grande obra alquímica – enxofre, mercúrio e sal. Oswald Wirth escreve que

…os primeiros sephirot são classificados em três ternários. O primeiro é de ordem intelectual e corresponde ao pensamento puro ou ao espírito; inclui o Pai-Princípio, o Verbo-pensamento criador e virgem-Mãe que concebe e compreende – Keter, Hokhmah, Binah. O segundo ternário é de ordem moral e relativo ao sentimento e ao exercício da vontade, ou seja a alma; reúne a graça misericordiosa, o julgamento rigoroso e a beleza sensível – Hesed, Gevurah e Tiferet . O terceiro ternário é de ordem dinâmica: relaciona-se com a ação realizadora e, por isso com o corpo; engloba o princípio que dirige o progresso, a ordem correta da execução, e as energias realizadoras do plano – Netzah, Hod e Yesod (WIRTH, 70,72)

Este ternário universal se expressa por diversos símbolos gráficos, dentre os quais o mais simples é o triângulo. Este triângulo equilátero (representado na figura por CEF) é um importante símbolo maçônico, o Delta Luminoso, e representa a divindade, a harmonia e a proporção. O triângulo divino possui vértice superior com ângulo de 36º e os dois da base com 72º, sendo, portanto, isósceles, e associado ao elemento fogo – os demais possuem a seguinte associação: equilátero a terra, retângulo a água e escaleno ao ar. No entanto, o triângulo maçônico está associado ao número de ouro, com 108º no vértice superior e 36º em cada vértice da base, sendo então possível inscrever nele a estrela flamígera. Os triângulos mencionados relacionam seus ângulos internos numerologicamente ao 9, que é associado à sabedoria filosófica oculta.

Para a tradição judaica o três representa Deus, cujo nome não se pode pronunciar. Na alquimia representa o fogo e é associado ao coração. Um triângulo equilátero pode ser dividido em dois tornando-se a dualidade com dois triângulos retângulos. Na tradição pitagórica estes dois triângulos resultantes representam a dualidade espírito-matéria, sendo que Platão menciona no Timeu que o triângulo retângulo é uma representação da matéria, enquanto o equilátero é associado à divindade. Existe ainda a relação entre os triângulos que compõem o signo de Salomão, indicando a natureza divina e humana do Cristo, simbolizados pela montanha e pela caverna.

IV

O ponto G, de interseção entre a reta r, que foi a emanação da natureza, com a última circunferência formada vai definis as retas s e t:

Aqui temos o surgimento da cruz do mundo, formada pelas retas s e t, perpendiculares entre si. O número quatro é então associado a essa cruz e ao quadrado. Este número está relacionado à matéria sólida e tangível. Também podemos associá-lo ao mundo, representado pelo cruzamento das linhas paralelas e meridianas, indicando a totalidade da criação e do que foi revelado por Deus aos homens. São então quatro os pontos cardeais, os pilares do Universo, as fases da lua, as estações, os elementos, rios do Paraíso, as letras do nome de Deus – YHVH, sintetizando a mesma totalidade dos elementos, associando o Y ao homem, H ao Leão, V, ao touro e H à águia – e do primeiro homem – Adão. Para os pitagóricos representa a tétrada e a década (pela adição dos quatro primeiros números), representando a chave de um simbolismo numérico capaz de ordenar o mundo. Entre os dervixes e sufis, o adepto deveria transpor quatro portas em sua via iniciática para vencer os sentidos, estando cada porta associada a um dos elementos. O quatro surge então como um receptáculo de potencialidades, aguardando a manifestação do cinco, a evolução para uma outra forma de percepção da realidade.

V

Neste quinto passo definimos os pontos H e I como a intersecção das retas s e t com a duas primeiras circunferências originadas na emanação:

Com estes nove pontos distribuídos no desenho, temos que o ponto central representa o cinco. O cinco é a união de dois e três e está no meio dos nove primeiros números. Portanto é o símbolo da união, da harmonia e do equilíbrio, da ordem e da perfeição divinas. É o símbolo gráfico do homem, e do universo. Indica também os cinco sentidos e as formas sensíveis da matéria. É também a quintessência ou éter, que será transcendido até o seis, o homem individual em relação ao Homem Universal.

Para Santa Hildegarda de Bigen, citada por Davy, o homem

se divide, de comprido, i.e., do alto da cabeça aos pés, em cinco partes iguais; no sentido da largura, formada pelos braços estendidos da extremidade de uma das mãos à da outra, divide-se ele em cinco partes iguais. Levando em conta essas medidas iguais no comprimento e essas cinco medidas iguais na largura, o homem deve ser inscrito num quadrado perfeito. (DAVY, 170)

Ou seja, a quintessência é inscrita no mundo material. A obra de Deus encarna e seu corpo é uma reação da matéria à presença do Espírito. E Davy prossegue:

O pentagrama é o emblema do microcosmo e do andrógino. Nas miniaturas medievais, o homem microcosmo é muitas vezes representado de braços e pernas abertos, a fim de melhor indicar as cinco pontas do pentagrama. (DAVY, 170)

Essa figuração formam uma cruz com a interseção no peito do homem. Sendo o quadrado o símbolo da terra, o homem é a cruz no mundo. Esta imagem indica que o número cinco rege a estruturação do homem.

VI

Nesta sexta etapa os pontos H e I serão o centro de duas novas circunferências de raio AB:

O seis indica a oposição da criatura e do criador, porém não expressa exatamente uma oposição, mas antes uma distinção. Aqui o homem pode inclinar-se para o bem, visando união com Deus, como também para a revolta e o afastamento Dele. Este passo representa a perfeição do destino místico, expressa pelo símbolo gráfico dos seis triângulos equiláteros inscritos em um círculo, sendo cada lado de cada triângulo equivalente ao raio deste círculo, correspondendo o seis à quase exatamente a relação entre a circunferência e o raio (2π).

Disso resulta que não existe a perfeição correspondente, entre o homem encarnado e Deus, e isso faz do seis o número da prova entre o bem e o mal, da criação do discernimento intuitivo que emana da essência divina.

O seis é representado no I-Ching pelo hexagrama Song, que significa “carruagem atrelada com seis dragões”, que indica a ideia de Céu em ação sobre as águas, e que são também seis as influências celestes.

Outra importante simbologia é a identificada com a estrela de Davi, emblema de Israel e que carrega uma série de interpretações profundas, relacionadas a união de duas naturezas, uma ascendente e outra descendente, que são harmonizadas no centro. São dois triângulos imbricados (2 x 3 triângulos) e as vezes representados inscritos em uma circunferência.

VII

Chegamos a última etapa, onde devemos definir o ponto J, como sendo a interseção das últimas duas circunferências construídas. O ponto J é o emblema da consciência divina no homem.

As sete etapas nos convidam a meditar acerca da constituição oculta do homem, que se organiza em matéria e espírito. Essa constituição setenária do homem, popularizada entre os estudantes do oculto por Eliphas Levi e posteriormente Blavatsky, indica sete princípios diretores em cada ser, que deverão ser corretamente harmonizados a medida que se avança no aperfeiçoamento espiritual. Para fins práticos, verificamos a seguir o esquema proposto por Blavatsky, o qual pode ser identificado em muitas tradições esotéricas do ocidente e do oriente:

(*imagem adaptada de “A Chave da Teosofia”, de Helena P. Blavatsky).

Os veículos, que compõem a quadratura inferior e perecível tendem a se dissolver ou sublimar a medida que o processo de espiritualização avança. Só o que perene e duradouro é a trindade superior, a mônada imortal. A ponte dinâmica entre a trindade e a quadratura se designa por Anthakarana, – associado a escada de Jacó – a qual representa o esforço do Maçom enquanto esquadreja e faz polir a pedra bruta e realiza a obra de transmutação. Isso resulta no triângulo se sobrepondo ao quadrado inferior, tal como a abeta superior do avental do aprendiz se manifesta na consciência quando da sua ascensão ao Grau 2 assim dando segmento aos degraus superiores da escada do aprendizado.

O número sete está expresso em diversos símbolos e em muitas manifestações da natureza. Sete são os dias da semana, os graus da perfeição, as esferas ou graus celestes, os galhos da árvore cósmica, a totalidade das ordens planetárias e angélicas, magistralmente poetizado por Dante na Comédia, dentre muitas outras referências existentes. Os egípcios consideravam o sete como símbolo da vida eterna, e ainda como um ciclo completo de perfeição. Segundo Blavatsky, a soma dos sete primeiros números (1+2+3+4+5+6+7) soma 28, ou quatro ciclos de sete, correspondendo a atual idade da humanidade.

O número sete representa os lauréis da iniciação e indica o fim de um ciclo de mudanças. As iniciações são sempre um momento de transmutação e renovação. Se dão diariamente, na forma de pequenas iniciações quotidianas, que são um importante instrumento pedagógico, e que preparam para as raras grandes iniciações.

O sete está presente na estrela de seis pontas, se considerarmos o elemento central, que é equidistante a todas as partes. Aqui ele representa a totalidade do espaço e do tempo, o universo em movimento, pois a ele se dirigem as seis direções do espaço e mais o tempo.

A vida moral também é expressa no setenário, pois reúne as virtudes teologais – fé, esperança e caridade – e cardeias – prudência, temperança, justiça e força. A própria essência da matéria também é expressa em sete vibrações, identificada, por exemplo, com as cores da luz visível e das notas musicais audíveis pelo atual estado da consciência humana. Hipocrates escreveu que “o número sete, por suas virtudes ocultas, mantém no ser, todas as coisas; da vida e movimento; influencía até mesmo os seres celestes”.

 Nos contos e fábulas geralmente encontramos sete personagens que grupalmente expressam algum estado de consciência, ou etapas de evolução: 1. Consciência do corpo físico: desejos satisfeitos de modo elementar e brutal; 2. Consciência da emoção: os impulsos tornam-se mais complexos com o sentimento e a imaginação; 3. Consciência da inteligência: o sujeito classifica, organiza e raciocina; 4. Consciência da intuição: as relações com o inconsciente são percebidas; 5. Consciência da espiritualidade: desprendimento da vida material; 6. Consciência da vontade: que faz com que o conhecimento passe para a ação; 7. Consciência da vida: que dirige toda atividade em direção à vida eterna e a salvação.

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Com esta construção chegamos ao pentágono plenamente definido pelos pontos ABHIJ e a partir de seus vértices inscrevemos o pentagrama ou Estrela Flamígera:

Apagando as linhas de construção, ou deixando que a intuição se sobreponha ao pensamento concreto, podemos vislumbrar o homem ideal e harmonicamente definido. A figura do homem vitruviano, definido pelo arquiteto romano Marcus Vitruvius Pollio e imortalizado pelo gênio Leonardo DaVinci representa a beleza das formas e a harmonia das proporções. Mas isso não se manifesta apenas no plano concreto. Tal símbolo nos convida a refletir acerca da harmonia entre a mente e o espírito. A mente é o instrumento de que dispomos para racionalizar acerca dos fatos, mas ela deve ser transcendida pela intuição e pelo não-pensamento, que é a forma de expressão do espírito. E a trilha iniciática de construção da Estrela Flamígera se traduz neste processo de investigação dos mistérios ocultos, que conduz o Maçom ao ouro filosofal.

AS VIAGENS INICIÁTICAS DO COMPANHEIRO MAÇOM

Os princípios herméticos basilares indicam que tudo no Universo está em constante movimento, dirigindo-se desde estados menos ordenados rumo a vibrações mais sublimes e mais bem organizadas.

Nesse contexto, e partindo da premissa hermética de que todos os seres são organizados de maneira plural, sendo constituídos de veículos ou princípios harmonicamente integrados, o motivo da evolução de todos os seres é a melhora de sua organização interna, passando pela devida atenção aos princípios mais densos que os compõem até os veículos mais sutis de manifestação. A raiz de todo conhecimento iniciático reside na mitologia que permeia a todas as culturas humanas. Tais mitos refletem o devido trabalho sob a psique que o neófito deve trabalhar em sua trajetória no caminho iniciático. Assim, ritos e mitos se mesclam enquanto são vivenciados no âmbito do contexto mental de cada neófito, haja vista que a realidade última do universo – o verdadeiro teatro filosófico onde se aperfeiçoa o homem – se dá justamente no tecido mental.

Todo mito remete a uma jornada onde heroicos furores são vivenciados e a sua repetição imaginativa, durante uma cerimônia iniciática, despertam na mente do neófito uma mensagem sutil e intuitiva que fala diretamente à linguagem do espírito. Tal vivência cerimonial realiza uma conexão com estruturas arquetípicas e ideais que estão presentes no tecido astral da humanidade desde tempos primordiais. A elevação da consciência do neófito até estas esferas superiores de pensamento o aproxima da realidade última, que é o estado natural de graça dos espíritos que contemplam a divindade. Inúmeras culturas nos apresentam ciclos heroicos em que o neófito deverá cumprir tarefas em uma jornada por terras distantes, resgatando artefatos místicos, enfrentando feras, salvando donzelas indefesas, sendo que tudo no fundo se remete a um trabalho de autoaperfeiçoamento e consequente reencontro com a divindade superior que a todos habita.

No decurso do Cerimonial de Elevação do Aprendiz a Companheiro, o neófito vivencia este ciclo heroico ao realizar cinco viagens iniciáticas, as quais resgatam este sentido de ciclo dinâmico ao qual o universo está submisso. Lembra ao Aprendiz que absolutamente tudo está em movimento. Até mesmo as inertes pedras obedecem ao fluxo telúrico dos veículos densos que animam os corpos físicos. Diz que não existe a morte pois tudo está em movimento, e quando cessa o físico, o mental e o espiritual continuam a marcha da existência.

As viagens tomam o rumo do oriente, onde reside o verbo criador inesgotável, o primeiro logos ou vontade criativa de todas as coisas, representado pelo Sol Espiritual, o GADU que permeia o trono do Venerável Mestre, e de onde emana a Luz Infinita. Durante as viagens o neófito encontra cinco colunas, que representam o caminho ascendente até o Sol central e espiritual. São as espinhas dorsais do universo, que convidam o neófito a olhar para o alto, para seus capiteis, simbolizando tal ato a vontade de elevar sua consciência até esferas superiores.

Na primeira viagem o neófito faz uso do maço e do cinzel como instrumentos de trabalho, e utiliza a determinação e agudez intelectual para avançar no caminho até contemplar a coluna que representa a Ordem Coríntia de Arquitetura que é “a terceira e a mais rica das ordens, ornada de folhas de acanto, simbolizando a Beleza”. Neste primeiro ciclo o neófito deverá aperfeiçoar o discernimento, refinando o uso da vontade e da inteligência para aperfeiçoar as suas faculdades intelectuais e morais.

Na segunda viagem o neófito faz uso do compasso e da régua de 24 polegadas. No compasso se encontram as duas hastes da dualidade no ponto de equilíbrio, e ele também é símbolo da manifestação do universo, o qual emana de um ponto central, pois é utilizado para construção geométrica circular. Nesse sentido, o compasso remete a justiça e ao equilíbrio. A régua de 24 polegadas lembra ao Maçom que deve cultivar a perseverança e a constância nas vinte e quatro horas do dia, além de ser um símbolo de equidade, lembrando que tudo deve ser dado na medida certa. Neste segundo ciclo o neófito deverá aperfeiçoar o intelecto e a sensibilidade, observando a educação interna com o estudo da ética e prática da moral. Nesta viagem o neófito será convidado a contemplar a coluna que representa a Ordem Dórica de Arquitetura que é “caracterizada pela sobriedade, sendo a mais antiga das ordens gregas, derivando a sua ideia do antigo Egito, simbolizando a Força”.

Na terceira viagem o neófito faz uso da alavanca e da régua de 24 polegadas, cumprindo mais um ciclo de aprendizado e chegando até o lugar de contemplação da coluna que representa a Ordem Jônica de Arquitetura, a qual é “caracterizada sobretudo por um capitel ornado por duas volutas laterais, tendo origem Assíria e simbolizando a Sabedoria”. A alavanca é o instrumento que, ao ser apoiado no ponto correto, pode erguer pesados fardos com eficácia, remetendo ao cultivo de uma inquebrantável força moral, permeada pela inteligência e pela bondade, e regulada pela equidade, que por sua vez é virtude simbolizada pela régua. Aqui se adquire a capacidade de aperfeiçoar a responsabilidade moral sobre os Irmãos Aprendizes, ajudando os Mestres na consecução da Obra do Templo.

Na quarta viagem o neófito faz uso do esquadro e da régua de 24 polegadas viajando até contemplar a coluna que representa a Ordem Compósita de Arquitetura que contêm elementos das ordens Jônica e Coríntia, representando a Harmonia das formas celestiais a serem contempladas. Neste quarto ciclo de aprendizado o esquadro lembra ao neófito que deverá cultivar a retidão moral em todos os seus atos, pois a construção do Templo Interno deverá ser realizada com a exatidão devida, tendo o construtor de colocar cada pedra ou virtude interna em seu devido lugar. Também lembra ao Maçom que a sua conduta moral na sociedade deverá ser exemplar, observando a devida equidade em todas as suas ações. Como símbolo da retidão no mundo manifestado, o esquadro substitui o quadrado neste simbolismo. Daí que o símbolo máximo da Maçonaria se constitui do compasso (expressão do mundo ideal ou divino) com o esquadro (manifestação da esquadria ou do mundo manifestado) estando o Maçom entre o Compasso e o Esquadro, como o homem peregrino que ruma desde a Terra ao Céu. Ao se tornar um centro entre Céu e Terra é dever do Maçom estar disponível aos demais Irmãos para auxiliá-los em suas jornadas de construção interna.

A quinta viagem será realizada com o neófito desprovido de ferramentas, e será levado até a coluna que representa a Ordem Toscana de Arquitetura a qual “possui origem Romana sendo a mais simples das cinco ordens apresentadas”. Esta coluna inspira o trabalho espiritual a ser cultivado para a ascensão aos planos superiores de pensamento. A capacidade intuitiva deverá ser aperfeiçoada neste último ciclo de aprendizado, a fim de preparar o neófito para o vislumbre da Luz do Mestrado Maçônico. Aqui deverá o neófito conduzir os seus passos para o cultivo da verdade e da santidade, esforçando-se para afastar-se do vício e da violência.

O caminho quíntuplo seguido pelo neófito durante sua jornada iniciática o leva ao encontro de cinco colunas representativas de virtudes a serem absorvidas e cultivadas durante os seus cinco anos simbólicos sob o salário de Companheiro Maçom. O cultivo da Beleza, Força, Sabedoria e Harmonia, conectam o neófito à Divindade interior.

Findo este ciclo representativo da jornada iniciática do neófito, ele agora retorna vitorioso ficando entre colunas para contemplar os demais mistérios iniciáticos que lhe serão agora desvelados.

AS FERRAMENTAS DO MESTRE

O potencial do espírito é praticamente infinito. O processo de manifestação dele neste mundo é permeado por um contínuo aperfeiçoamento, ou uma presença maior enquanto prossegue vivenciando experiências quotidianamente. Por bilhões de anos os espíritos seguem construindo sua maneira de interação com o mundo manifestado, e o artefato mental e intelectual de que dispõe, neste processo interativo, segue cada vez mais se aperfeiçoando.

O ser humano, bem como alguns outros seres, desenvolveu uma precisão notável ao lidar com os diversos materiais que o cercam. É só observar a capacidade de nossas mãos para lidar com tarefas que requeiram grande precisão. O cirurgião em seu ofício, por exemplo, faz uso de suas mãos em processos que requerem precisão milimétrica. A inteligência e a maturidade intelectual vêm acompanhadas da agudeza com que lidamos com a plasmação ou transformação dos objetos.

Com o tempo, os seres percebem que seus corpos são limitados, porém sua inteligência não. O intelecto reconhece que pode utilizar a matéria das mais diversas formas. Esta descoberta é uma reminiscência de sua vivência nas esferas celestiais, haja vista que lá, o mundo mental permitia plasticidade imediata sobre as formas. Aqui, no mundo da dureza manifestada, o Intelecto busca soluções para imitar a capacidade perdida de a tudo modificar. Só é possível então, a priori, submeter as formas materiais com o auxílio de ferramentas, sendo estas a extensão do intelecto agente.

Toda a capacidade humana de transformar o mundo manifestado se dá por intermédio do ferramental criado desde as eras históricas primordiais. E as ferramentas se desdobram em níveis de complexidade cada vez maior, sendo que algumas imitam tão bem o ser humano e seu intelecto, que por vezes até o supera. Mas tal superação se dá tão somente ao nível mental. Pois tais ferramentas nada mais são que projeções arquetípicas da vastíssima capacidade do espírito. Nenhuma delas pode imitar a presença divina que existe no ser humano. Mas há exceções, que fogem ao âmbito deste trabalho, e fica o convite ao leitor para se aprofundar na pesquisa.

Para o Maçom especulativo, o ferramental é baseado em símbolos correlacionados com o ofício de edificação do Templo. Tais ferramentas, são associadas ao ato de construir, mas no âmbito do interesse Maçom se referem à construção do Templo. Em princípio, na construção do Templo Interno, que se relaciona ao sistema de autoaperfeiçoamento moral, bem como de investigação das Leis inexploradas da Natureza, que são diretivas fundamentais no esquema referencial da Maçonaria.

Dito isto, podemos explorar o simbolismo de algumas ferramentas que são usualmente utilizadas pelo M⸫ M⸫ em seu ofício.

O Esquadro tem por objetivo tornar os corpos retificados ou quadrados. Segundo Jules Boucher o termo vem da raiz latina exquadra ou exquadrar que significa justamente esquadrejar. Como joia do Venerável Mestre, indica o 1º Logos ou Vontade criadora, a qual deve prevalecer sobre todo o restante da Loja ou do corpo maçônico. É também indicativo de que deverá atuar sob a égide da prática do que é Bom, Belo, Justo e Verdadeiro. Unindo duas perpendiculares, o esquadro também remete a ideia de equilíbrio e equidade, da justa Sabedoria que o Maçom deve adquirir, primando para que o espírito prevaleça sobre a matéria. Outro aspecto importante é que a figura do esquadro remete perfeitamente à proporção pitagórica, estando o lado direito do mesmo maior que o do esquerdo, indicando a prevalência do ativo (direito), sobre o passivo. Desta forma, o papel do Venerável é formar Maçons perfeitos, esquadrejando-os com o sentido de incutir-lhes as virtudes que os tornem retos ou virtuosos.

O Compasso remete a ideia de circunferência, pois é o instrumento utilizado na construção de tal objeto geométrico. Uma circunferência possui um centro, um ponto sem dimensão que representa o imanifestado, o princípio de toda criação, e uma linha periférica infinita que a define, representação do universo manifestado – finito, porém sem limites. As inúmeras circunferências que são possíveis de traçar com o instrumento indicam as várias amplitudes intelectuais de que o Maçom pode fazer uso, no correto entendimento acerca das Leis inexploradas da Natureza. A mobilidade do Compasso, que pode alterar sua angulação, o torna um elemento criativo. Aqui representa o homem, com dois braços unidos sob um centro pensante, capaz de dirigir as intenções e pensamentos. No grau de Mestre, o Compasso é aberto a 45º, indicando estabilidade mental, haja vista que com esta abertura ele não corre o risco de desliza, alterando a forma da circunferência, danificando-a. Neste caso, ao deslizar ou desvirtuar a abertura angular, haverá prejuízo a obra a ser construída.

Estando associados o Compasso e o Esquadro, no Grau de Mestre, ficará o primeiro sobreposto ao segundo, indicando a prevalência do espírito sobre a matéria.

O Mestre já domina o Malho e o Cinzel, porém é significativo que nunca se esqueça do sentido destes instrumentos, eis que a falta de hábito em lidar com eles pode resultar em um tipo de inércia intelectual, podendo o Mestre se tornar uma figura estagnada e caricata, apenas um arremedo do real sentido do Mestrado Maçônico. Assim, não esqueçamos que o Malho se refere a Vontade de criação, ou decisão pelo autoaperfeiçoamento, e o Cinzel com a agudeza mental necessária a investigação, a qual deverá estar sempre sendo esmerado pelo estudo e pesquisa, no estudo comparado das diversas filosofias, ciências, arte e religiões, dentro outras representações do pensamento humano.

Dois outros instrumentos são de significativa importância ao Mestre Maçom, eis que ele deverá, em um ou outro momento, personificando o indispensável simbolismo nos trabalhos em Loja. O primeiro deles é a Perpendicular ou Prumo, que ilumina o Segundo Vigilante, e que se relaciona a retidão da consciência e da profundidade de observação, que deve nortear o Maçom. Para Gedalge, “é o emblema da pesquisa, em profundidade, da verdade e do equilíbrio”, e o símbolo da retidão de pensamentos e de conduta. A perpendicular sempre busca o equilíbrio, logo também é relacionado a estabilidade dentro da Ordem. Segundo Mackey “é aquilo que está vertical e ereto, e sem inclinação nem para um ou outro lado, logo remete ao significado de Justiça, Fortaleza, Prudência e Temperança.  Já o segundo instrumento, que orna a faixa do Primeiro Vigilante, é indicativo da igualdade tanto original quanto social que deve ser cultivada na Maçonaria, devendo ser um dos princípios basilares a ser praticado e internalizado por todos os Irmãos. Segundo Nicola Aslan, o Nível indica noções de medida, imparcialidade, tolerância e igualdade, bem como o correto emprego dos conhecimentos, tutelados por este símbolo. Também é a representação do uso correto do conhecimento e da pesquisa da verdade.

Por fim falemos da Prancha de Traçar. Está simboliza o caráter pedagógico e administrativo do ofício do Mestre, pois além de estar no caminho do autoaperfeiçoamento, é responsável pela orientação e instrução aos Companheiros e Aprendizes. Daí a importância de o Mestre cultivar um caráter ilibado, haja vista que o ensino não se dará tão somente nas esferas intelectuais, mas também no âmbito moral e ético. A Prancha de Traçar também indica que o Mestre atuará em todos os aspectos diretivos da Loja, exercendo suas atribuições no ofício do planejamento e da administração.

Em algumas Lojas, a Prancha de Traçar é utilizada para organizar a chave do alfabeto maçônico, o qual indica ao Maçom que ele deve sempre expressar seu pensamento de maneira racional, simbolicamente representado pelo alfabeto maçom, isto significando que ele deve expressar seu modo de agir e pensar sempre “maçonicamente”, ou de maneira virtuosa.

O alfabeto maçônico, é sempre escrito com linhas retas, em esquadria, simbolizando o elemento material, que nosso pensamento está vivenciando, e nunca em linhas curvas, sendo que estas últimas indicam a espiritualidade, a qual não pode ser compreendida pela letra morta. Isso indica, nas palavras de Jules Boucher que “desta forma, o Maçom é convidado a libertar-se da letra para tratar do espírito”, ou seja, que transcendendo o racional o Maçom aperfeiçoa a linguagem intuitiva do espírito.

Cada instrumento reúne energias mentais poderosas, sendo que seu profundo arcabouço conceitual deverá ser motivo de meditação constante, a fim de que fique gravado no corpo mental do Maçom. Ciente de sua importância na formação do próprio caráter, e do seu real significado simbólico, o Mestre estará em condições de seguir se aperfeiçoando, tornando-se assim um referencial de mudança dentro do meio em que realiza a grande obra de transmutação interna.

A RESSURREIÇÃO

Simbolicamente a ressurreição é um dos mistérios maiores da expressão da divindade. Em todas as tradições o ato de renascer é algo somente compreensível e pertencente aos planos superiores e inefáveis. Ela transcende a qualquer tipo de racionalismo e não pode ser explicado a partir de intelecções humanas comuns.

Um mito grego ilustra bem isso, ao contar como Asclépio, a divindade da medicina, filho de Apolo e educado pelo centauro Quiron, foi fulminado por Zeus após descobrir o segredo da ressurreição.

Outro simbolismo marcante é o da serpente associado a imortalidade. Nas tradições orientais ela é a guardiã dos mistérios da vida e da morte e na tradição judaico-cristã a serpente enlaçada na árvore da vida segreda aos ouvidos de Eva os mistérios divinos acerca do bem e do mal. Por tal crime a serpente é condenada a rastejar sobre a terra e o primeiro casal é penalizado com a perda da imortalidade.

A serpente Ouroboros, dentro de sua vasta simbologia, também é associada a ressurreição, e na Maçonaria se relaciona à eternidade e ao renascimento nos planos superiores onde a Divina Sabedoria do Grande Arquiteto do Universo é dada a conhecer ao iniciado, desde que este aprenda a ler os mistérios do seu Templo Interno, reconhecendo a infinitude de si mesmo. Também na Maçonaria aprendemos com este importante símbolo, que a Lei do Ciclos a tudo regula e norteia.

Os mistérios gregos, em especial o de Elêusius, e as cerimônias fúnebres do Egito Antigo, dão forte testemunho acerca da relação humana com o desejo de imortalidade e ressurreição, sendo que o neófito ou o morto eram cerimonialmente preparados para transitar por mundos superiores ou de grandes provações, até ressurgirem como espíritos elevados e transcendendo o ciclo de vida e morte. Nas grandes e pequenas iniciações, temos a morte e a ressurreição como temas patentes, e que eram ansiosamente esperadas pelos iniciados. Estes não sabiam o que iriam encontrar durante o processo iniciático, mas dele saiam sob forte impressão espiritual, e jurados agora como participes do mundo transcendente.

A ressurreição, no entanto, está fora do alcance do homem comum, e somente pode ser vivenciado a partir da experiência iniciática do renascimento em um plano de existência onde a consciência partilha das mesmas energias da divindade. Esta ressurreição é o símbolo máximo de transcendência e supremacia sobre a vida e a morte, que o homem comum só pode conceber se ascender até as esferas de consciência que pertencem somente a Deus.

A representação do infinito, como vimos, pode ser expressa pela serpente circular. Isso relaciona Deus à circunferência, que é um símbolo não redutível a um comprimento exato – matematicamente o comprimento da circunferência é expresso por 2πR (sendo π um número irracional, portanto infinito). O compasso é uma ferramenta maçônica utilizada para traçar inúmeras circunferências, de diferentes diâmetros equivalentes, então expressa o potencial do Maçom em entender os mistérios da divindade, e, portanto, de conceber o que advém após a ressurreição iniciática a que o Mestre Maçom vivencia.

O Maçom passa por um processo de despertar da consciência, quando sua percepção dos mundos sublimes é despertada pelo iniciador. O machado, o malhete ou a espada de dois gumes são instrumentos do despertar da consciência ou da visão do olho divino em cada neófito. Esta percepção mística surge no momento da morte iniciática, quando a grande lucidez é despertada quando os veículos inferiores da carne são abandonados. O neófito transita por então por mundos interiores a muito não vistos e que lhe parecem desconhecidos. No entanto a ilusão do desconhecido é aparente, pois se trata apenas de uma senda de purificação.

O recanto tumular do neófito é encimado por um ramo de acácia, planta sagrada para a Maçonaria. A arca da aliança é feita de madeira de acácia, assim como a coroa de espinhos do Cristo. Essa planta de duros espinhos é o símbolo da ressurreição e da imortalidade, pois “é preciso saber morrer, a fim de nascer para a imortalidade” escreveu Gerard de Nerval ao se referir ao mito da morte de Hiram. Da mesma forma, a coroa de espinhos do Cristo se assemelha aos raios esplendorosos do Sol.

A ressurreição é um processo em que o iniciador conduz o neófito até uma realidade em que os iniciados compartilham os frutos dourados do Sol, onde os espinhos e as pedras do caminho que conduz a Deus são agora vistos como elementos indispensáveis no processo de alquimia interior, pois as duras provas trazem as graças divinas.

O Mestre Maçom verdadeiramente ressurrecto é aquele que aprendeu a importância de transcender a mortalidade, abandonando os vícios e portando-se como se estivesse na presença da divindade, pois agora quem o acompanha é o alento divino, que merece toda a reverência, na forma do autorrespeito e do portar civilizado ante o universo.

A MARCHA

A senda Maçônica avança por passos, haja vista que paulatinamente se segue construindo um entendimento cada vez mais assertivo acerca do Templo e do trabalho interno. Um dos simbolismos mais significativos, dentro do ritual maçônico, é o da marcha ou avanço, em cada um dos graus simbólicos.

As marchas ou passos do grau, são basilares em alguns ritos, e possuem sua estruturação iniciática de acordo com o que determina a ritualística. Este avanço, desde o ocidente até o oriente, desde as trevas até a luz, ou desde o mundo profano e manifestado onde se encontra o neófito, até o mundo divino e arquetípico, representa a perfeição que se adquire no ato de avançar na senda iniciática. Em cada grau a forma de avançar adquire certa complexidade, representando os novos desafios a serem encarados, e as novas linhas de entendimento iniciático acerca dos mistérios maçônicos.

Quando da iniciação, somos apresentados aos três passos do Aprendiz Maçom, que expressam a intenção de praticar o reto agir, manifestando-se no cultivo de três virtudes: retidão, decisão e discernimento. Estes passos se dão em reta devido ao Aprendiz precisar ser conduzido, e a ter recebido mui fraca luz, e por fim ainda não reunir condições de trilhar a senda sozinho. Acaso resolver trilhar através da escuridão sem a adequada orientação, poderá se perder em meio as trevas. Dada a necessidade de ser conduzido, o cultivo da humildade e do silêncio são condições necessárias nesta caminhada. Não somente no Grau de Aprendiz, mas em todos os demais, a esquadria está presente para nos lembrar da conduta reta de caráter, que acompanha o Maçom.

Após avançar na senda, cumpridos os três anos simbólicos de aprendizado, o Aprendiz pode ser elevado ao segundo grau. Aqui, passando da perpendicular ao nível, o agora Companheiro Maçom poderá trilhar por todo o ocidente, desde o Sul até o Norte. Dessa forma, a maneira incerta de seus passos relaciona-se a uma escada em forma de caracol que o encaminhara futuramente até a Câmara do Meio. Aqui o Companheiro Maçom está se forjando como indivíduo, e o percurso acidentado e incerto, representa um tipo de espiral ascendente. Os cinco passos totais correspondem a idade simbólica do Companheiro, pois aos dois incertos somam-se os três do Aprendiz. Os três passos iniciais terminam no equador do templo, e a partir de então o Companheiro pode se deslocar por entre as colunas, buscando aprendizado por todo o Ocidente, e por fim retornar ao equador, onde lhe é dada a oportunidade de se projetar rumo a Luz. Findo o estágio, o Companheiro denota que agora é senhor dos caminhos ocidentais, podendo agora partir rumo a Luz do Oriente. Mas para tanto deverá ser conhecedor das Leis da Natureza.

Na plenitude maçônica, ao final da senda iniciática, o Companheiro pode exaltar ao Grau de Mestre Maçom. Preparado para a divina exaltação, o Companheiro agora é o senhor do Ocidente, dos pontos cardeais, e conhece os segredos do Equador, por isso inicia com a marcha do Aprendiz e após a do Companheiro. A ele são apresentados os passos sagrados do Mestre, devendo entender e conhecer os ciclos de nascimento e morte da natureza, a qual se expressa em ciclos, como bem sabemos.

Os passos do Mestre acompanham a trajetória da eclíptica ao longo do ano. Em Astronomia, a eclíptica é uma das linhas basilares da esfera celeste, pois representa a trajetória aparente do Sol ao longo do ano. A cada amanhecer, por 365 dias, observamos que o Sol aponta em uma posição diferente, devido à inclinação do eixo de rotação da Terra. Sempre após um ciclo ele retorna à posição inicial, e este é fundamento de qualquer calendário solar. Este fato também define as estações do ano em ambos os hemisférios. Outra linha importante é a do equador celeste, que nada mais é que a projeção do equador terrestre na esfera celeste. O equador celeste acompanha o eixo leste oeste de nossa orientação geográfica usual. É fácil localizá-lo, pois atravessa algumas constelações importantes – como o cinturão de Orion, por exemplo. O momento ou data em que a eclíptica cruza o equador celeste define o que chamamos de equinócios, que podem ser de primavera ou outono, a depender do hemisfério – normalmente se dão em 20 ou 21 de março ou setembro. Já quando a eclíptica se afasta em cerca de 23º27’ do equador celeste, atingindo o seu ponto máximo de afastamento, temos os solstícios, que podem ser de inverno ou verão, a depender também do hemisfério, normalmente se dando em 20 ou 21 de junho ou dezembro.

Estes apontamentos astronômicos foram necessários para esclarecer que a marcha do Mestre imita o movimento da eclíptica. Nesse sentido, Hiram representa o Sol, que morre no inverno deixando a Terra infértil e viúva. Os deslocamentos, ora em direção a coluna do sul, ora em direção a do norte, são os pontos solsticiais de afastamento. Ao cruzar o meridiano, com sua marcha o Mestre denota a intenção de vivificar a Terra viúva, com o renascimento simbólico na primavera, durante os equinócios.

Finalmente o Mestre, agora senhor dos mistérios da vida e da morte, e conhecedor das Leis dos ciclos da Natureza, pode estacionar, por fim, sobre o equador e assim preparar-se para adentrar ao Oriente da Loja, onde a suprema sabedoria lhe é agora compreensível. Associando dessa forma, a marcha aos ciclos da natureza, podemos verificar a presença das idades conscienciais do homem, em seu processo de evolução desde a infância, passando pela juventude, maturidade, velhice e por fim morte. Mas esta última corresponde a um novo ciclo de aprendizado, que se inicia ao alvorecer, do Maçom, no Oriente.

A CÂMARA DO MEIO

Uma Câmara, em Maçonaria, possui um significado amplo, que se atribui às diversas modalidade de Oficinas, em seus modos de trabalho, sejam eles em graus simbólicos, filosóficos ou em atividades administrativas. O que entendemos por Câmara do Meio, é a oficina na qual somente os Mestres exercem seu ofício e recebem seus salários. É o local onde os mistérios do mestrado são discutidos, ensinados e aperfeiçoados, e as leis inexploradas da natureza investigadas. Neste nível de trabalho são iniciados os grandes mistérios maçônicos.

Sobre a Câmara do Meio, Oswald Wirth escreve que é “a cova da segunda morte, (…) a caverna onde se trama a eterna conspiração reconstrutiva, o antro de Mitra onde a luz desaparecida renasce para reaparecer mais brilhante”, sendo o lugar “interior e oculto, inacessível, salvo para os Iniciados dignos das supremas revelações”. Nesta cripta, onde reina o silêncio, as iniciações internas são realizadas e as transformações alquímicas se processam. Por ser um local recôndito e inacessível aos olhos profanos e aos graus iniciais, não é possível descrevê-lo com olhos comuns. É necessário que a compreensão deste local transcenda o juízo comum e seja realizado por intermédio da intuição simbólica, visto que ela se desdobra por outros planos de existência. Portanto, assim procederemos.

É na Câmara do Meio que se dá a Iniciação ao 3º Grau, sendo um lugar oculto e inacessível, onde o Companheiro Maçom morre em definitivo e, sepultado, renasce para a sublime vida espiritual. Neste local um véu oculto recai sobre o neófito, preservando a sublimação alquímica que se processa no interior do átrio do coração. Renascido o Mestre Hiram, o Iniciado é transformado no luminoso obreiro do universo, no homem real, que preserva sua individualidade, porém reconhece a sua integração a cadeia universal que reúne a todos os obreiros guardiães da Verdade. Na palavra de Jules Boucher: “esta individuação é própria da Maçonaria, cada Obediência tem o seu caráter particular; cada Loja tem o seu espírito especial; cada Maçom deve conservar e desenvolver as suas qualidades fundamentais. A Loja é, para o Maçom, uma escola na qual pode se expressar livremente perante um auditório atento e benevolente. A confrontação das ideias faz-se sem choques e com cortesia”.

 As tradições filosóficas e esotéricas universais concordam que todos somos parte de uma cadeia universal que se congrega e segue transformando e aperfeiçoando a Alma Universal da Divindade. E segundo Ragon, a Câmara do Meio “é a imagem do grande laboratório em que se operam estas transformações infinitas”. Um laboratório alquímico onde são realizadas as sublimes lapidações, e onde os Mestres continuam o aperfeiçoamento e a partilha de suas descobertas.

Imerso em seus pensamentos, o Mestre Maçom afasta toda a turbulência mental, e assim restando somente o negrume dos sublimes mistérios, ingressa na Câmara do Meio. Apenas lhe acompanha o pranto argênteo pela perda do Mestre. Porém o pranto não é de desespero desmedido, mas expressa a consternação sublime por aquele que parte rumo as esferas celestiais.

A Câmara do Meio é negra, pois esta é a cor da renúncia a vaidade deste mundo. Representa o mundo subterrâneo, onde se efetua a regeneração da luz, sendo que os Egípcios o consideravam o símbolo da fecundidade, pois é a cor da terra fértil e das nuvens de chuva, e do oceano profundo de onde as formas primordiais emergem. As grandes deusas da fertilidade são normalmente virgens negras. Nos hinos Órficos lemos “Cantarei a noite, mãe dos deuses e dos homens, à noite, origem de todas as coisas criadas, e nós a chamaremos de Vênus”, pois negra é a cor do útero materno, onde a vida é operada e se processa. As transformações alquímicas iniciam com a Obra em Negro, que é um retorno ao caos indiferenciado, e vão culminar com a Obra em Vermelho da sublime libertação espiritual. Este caminho noturno dos neófitos vai culminar com a vermelhidão da aurora.

O Crânio representa a sede do pensamento, e para muitas culturas europeias e asiáticas, ele representa o universo manifestado, ou a abobada celeste. Assim, a Câmara do Meio também representa o grande crânio da divindade universal, e estando nele também estamos dentro das manifestações mentais da divindade. No crânio também se encontram a concentração das energias vitais que estão no cume do corpo, sendo a representação da sublime ponte entre o mundo manifestado e as esferas celestiais. É a representação da iniciação, pois simboliza a morte corporal como prelúdio de um renascimento na esfera espiritual, sendo que para os alquimistas o crânio é o putrefactio e a tumba o atanor, que transforma a matéria perecível em ouro. Duas tíbias cruzadas são a oposição dentro da natureza, que o espírito harmoniza para a conquista da perfeição espiritual.

Dez lágrimas argentinas ou brancas dão testemunho da dor e morrem se evaporando aos poucos. Presentes são o luto e após evaporarem transmutam-se em âmbar celestial ou no mais puro sentimento. Ao secarem as lágrimas, o neófito reúne condições de desvendar os mais profundos mistérios geométricos, avançando na compreensão de seus mistérios. Para o Egito antigo os ossos dos deuses eram de prata e sua carne de ouro. Porém a prata é o símbolo da sabedoria e se une ao amor divino, que é dourado.

Assim, os mistérios da Câmara do Meio precisam ser vivenciados e absorvidos no silencio tumular do processo interno de meditação que é recomendado ao Mestre Maçom praticar. É necessário que o Mestre traga para o sagrado templo interior a vivência diária do simbolismo da Câmara do Meio.